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Fortaleza
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Uma das únicas mulheres leituristas da Enel fala sobre rotina na rua na pandemia

Silvia dos Santos conta sobre a sua rotina de trabalho, onde é uma das oito mulheres que desempenham esse serviço em Fortaleza. E comenta sobre estar na rua, de casa em casa, durante a pandemia

17:03 | 08/03/2021
Silvia Cristina Bernardo dos Santos é leiturista há 11 anos (Foto: Arquivo pessoal)
Silvia Cristina Bernardo dos Santos é leiturista há 11 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Silvia Cristina Bernardo dos Santos é leiturista em Fortaleza. Ela trabalha há 11 anos percorrendo imóveis e fazendo as leituras dos números de consumo para a conta de energia elétrica. Ela é uma das oito mulheres que prestam um dos serviços essenciais durante a pandemia. Aos 41 anos, a colaboradora da Ceneged, que presta serviço para a Enel, seguiu desempenhando a função desde o início da pandemia. Ela conta sobre o desafios de prestar um serviço essencial, enquanto exerce uma função onde os homens são predominantes.

OP - Como a pandemia afetou sua rotina de trabalho?

Silvia dos Santos - No início da pandemia, meados de março do ano passado, pra todo mundo foi uma surpresa. Ficamos receosos. Com o passar dos dias a gente vai tendo acompanhamento e ensinamento sobre como proceder e reagir em campo. Os receios e cuidados que precisamos ter nos alertam para a prevenção da gente e de quem está sendo atendido. Permanecer trabalhando em campo externo no atual período é desafiador.

OP - Com o trabalho em campo, você tem contato, mesmo que passageiro, com muitas pessoas. O que mudou?

Silvia - Como a gente faz o serviço em campo, às vezes entramos na casa do cliente. Eu percebi a ansiedade do cliente pela situação que está acontecendo. Já fiz leitura em casa de clientes que perderam um ente querido durante a pandemia e às vezes o nosso bom dia já faz a diferença no dia daquela pessoa. 

Silvia é uma das 8 mulheres que desempenham o serviço de leiturista na capital
Silvia é uma das 8 mulheres que desempenham o serviço de leiturista na capital (Foto: Arquivo pessoal)

OP - Quais os desafios em desempenhar uma função onde os homens são predominantes na ocupação das vagas?

Silvia - Logo no início, quando vim pro setor da leitura, sete mulheres faziam esse serviço em Fortaleza. A gente passa certos constrangimentos, pessoas que querem tirar brincadeira, piada, mas eu gosto de ressaltar o seguinte: muitas das vezes, por sermos mulheres, nesse trabalho a gente passa uma segurança maior pro cliente. Na maioria das famílias visitadas, quem passa o dia em casa são as mulheres. Hoje em dia, as pessoas já estão aceitando melhor.

OP - Você já fez amizades com as pessoas durante o trabalho desempenhado na pandemia?

Silvia - Sim e esse vínculo que a gente cria com as pessoas é interessante. A gente tem vínculo de amizade, conversa com o cliente. Às vezes, além de ser leiturista, somos psicólogos. O cliente às vezes quer que a gente o escute. Como faço uma rota fixa todos os meses, tem cliente que me pergunta por Whatsapp quando é que vou passar por lá.

OP - E como o desempenho do trabalho afetou suas relações interpessoais?

Silvia - No período da pandemia ficou mais distante, né. Pelo fato de a gente não poder demorar tanto. O cliente entende que neste momento a gente tem de se resguardar e policiar. A gente muda os hábitos. Já não é mais uma coisa como era antigamente. Já se perdeu aquele hábito de chegar em casa e ir abraçar as pessoas. Chegando em casa eu já deixo a roupa e os sapatos separados antes de entrar. Principalmente porque moro com meus pais, que são idosos.

OP - Isso te trouxe algum tipo de solidão?

Silvia - A gente precisa se distanciar das pessoas que a gente gosta justamente para prevenir essas pessoas. Eu não acho que seja solidão. Quando você tá na rua, mas sabe que está sendo essencial, é uma necessidade. A satisfação do trabalho me completa, e eu não acho que seja solitário. Na verdade, eu percebo ainda mais a importância do serviço que presto às pessoas.

OP - Hoje, há 11 anos desempenhando essa função, como você se percebe no trabalho?

Silvia - Eu acho que hoje eu me realizo naquilo que eu faço, eu saio pra campo, mas sou uma pessoa realizada. Eu sei que eu tô ali porque eu gosto do que eu faço, eu vou pela satisfação e o amor e carinho de estar ali.

OP - Você quer deixar algum recado?

Silvia - O recado que tenho pra deixar hoje é que é necessário esse lockdown. Que esteja na rua só quem executa serviço essencial. E quem tá no grupo prioritário para tomar a vacina, que vá. Além dos cuidados diários, a vacinação é nossa única saída.