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Fortaleza
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Poço da Draga chega aos 114 anos preservando a memória coletiva de resistência

No decorrer dos anos, moradores têm reivindicado melhorias para o local e continuam se movimentando para manter vivas as tradições locais

Lais Oliveira
22:46 | 26/05/2020
Poço da Draga é um dos cartões postais de Fortaleza (Foto: Fabio Lima)
Poço da Draga é um dos cartões postais de Fortaleza (Foto: Fabio Lima)

Com origem na inauguração do primeiro porto de Fortaleza, a comunidade do Poço da Draga, na Praia de Iracema, chega aos 114 anos nesta terça-feira, 26. Os moradores, ligados em sua maioria por laços parentais, se consideram uma família que tem resistido unida ao longo do tempo à desassistência infraestrutural, mantendo vivas as tradições e memórias centenárias de um dos cartões postais da Capital.

O geógrafo Francisco Sérgio Rocha, 35, mais conhecido como Serginho, narra com propriedade a história do lugar onde nasceu e cresceu. Segundo ele, o dia 26 de maio 1906 é considerado como marco originário da comunidade por ser a data da inauguração do antigo porto da Cidade, a atual Ponte Metálica.

“Adotamos a data por ser lógico de que nesta época um pequeno núcleo de pessoas começou a se formar. Até porque eles davam suporte às atividades portuárias. Era a vendedora de café, o pescador, o estivador”, conta.

Os laços de consanguinidade existentes entre os moradores da comunidade são mais um traço do local. “Outra coisa é que estamos segregados do mundo, porém conectados com ele por meio das pessoas, das artes”, completa Serginho se referindo à localização do Poço, fincado entre os muros da Caixa Cultural Fortaleza, da Indústria Naval do Ceará e da empresa desativada Companhia Industrial de Algodão e Óleo (Cidao).

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De acordo com o Censo de 2010, o Poço da Draga contabilizava à época população de 2.029 pessoas. Em mais de um século de história, Serginho destaca que as condições de vida melhoram para muitos habitantes da região, assim como melhorou o acesso aos bens de consumo.

O que permanece sem alteração é a falta de saneamento básico e as demandas por espaços culturais e assistência básica de saúde. O geógrafo dispensa o estigma da precariedade, mas aponta que existe “desassistência há décadas” por parte do Poder Público.

Histórico de resistência

Apesar disso, ter a praia logo ali acompanhada da ponte para o salto na imensidão de água salgada é privilégio que Serginho não trocaria por nenhum outro lugar. Alvo da especulação imobiliária pelo cenário paradisíaco, o Poço da Draga carrega a resistência em muitos capítulos da sua história.

De acordo com Serginho, tentativas de remoção foram registradas, principalmente, nos anos 1970 e 1990. “Geralmente a ameaça se dá pela utilização do nosso espaço para o fomento da atividade econômica para o turismo. Só que a gente tem o que ofertar à sociedade, não precisa remover. Até porque aqui é uma comunidade centenária e as pessoas têm muito a oferecer”, reivindica.

O morador realiza visitas guiadas pela comunidade e também integra o conselho gestor da Zona Especial de Interesse Social (Zeis) do Poço da Draga. Conforme a lei do Plano Diretor, a Zeis deve ser prioridade para receber melhorias urbanas e regularização fundiária. Serginho avalia que essa conscientização política foi um dos amadurecimentos absorvidos pelos moradores com o tempo. “A consciência das pessoas mudou. Elas estão mais empoderadas do seu direito à moradia e moradia de qualidade”, afirma.

As melhorias de infraestrutura básica no Poço da Draga, por sinal, aconteceram por intermédio da organização comunitária, como relembra a moradora Maria Ivoneide Gois da Silva, 55. A mãe dela, Zenir Gois, foi uma lideranças locais que se mobilizou para reivindicar melhorias, dando origem à primeira associação dos moradores do local. “Antes aqui não tinha nem água nem luz”, recorda.

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Olhando para trás, Ivoneide observa que a comunidade cresceu em número, mas a sensação de se estar em casa se manteve. “O Poço é como se fosse uma família. O fulano casou com a filha da fulana, não quer se separar do pai ou da mãe e faz um puxadinho. Pra mim, o que não mudou foi a amizade das pessoas”.

Foi para preservar essa memória coletiva que desde cedo Ivoneide coleciona os álbuns de fotografias com lembranças dos lugares, eventos e pessoas que fizeram e fazem parte da história do Poço. Um deles deu origem ao livro Territórios da Memória – Poço da Draga, lançado na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, em 2019.

A obra é composta por “santinhos” — folhetos impressos com a foto e um texto de homenagem — de moradores já falecidos do Poço da Draga. “Nunca imaginei que os santinhos que eu guardava virariam um livro. Foi muito legal mesmo”, relata Ivoneide.

A ideia para o livro surgiu por meio da professora Cristina Maria da Silva, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ela é uma das coordenadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos, que atua desde 2016 na comunidade. O projeto pesquisa a fotografia, visitando as pessoas do local, conhecendo imagens que são guardadas nas casas delas e ouvindo os relatos sobre as memórias.

De acordo com Cristina, o objetivo é, a partir dessas imagens, entender a experiência que as pessoas têm com a Capital. “No Poço existem famílias com vínculos, tradições e intenso potencial artístico. É uma população muito rica, que tem uma memória muito viva da Cidade”, destaca a pesquisadora.

Para ela, a força e protagonismo das mulheres na lideranças comunitárias e na posição de guardiãs da memória local é um dos diferenciais do Poço. “O nosso projeto é também em defesa dessa luta política. Pensamos que, com o livro da Ivoneide e outras ações que temos em vista, vamos agregando força política em defesa deste lugar e da vida das pessoas”, defende.

Se depender de Ivoneide, os álbuns e o livro que eternizam as gerações passadas do Poço da Draga permanecerão bem preservados para a posteridade. “Esse álbum é de quem já passou pelo Poço, deu sua contribuição e deixou seu legado nos filhos, netos e bisnetos. Nós que estamos agora, somos a continuação dessas pessoas que estão no álbum”, define.

Comunidade recebeu melhorias, conforme Prefeitura

Em nota a Prefeitura de Fortaleza informa que a comunidade do Poço da Draga “já recebeu uma série de serviços e melhorias em conservação e manutenção da região”, incluindo operação de recapeamento asfáltico em toda a comunidade; troca de toda a iluminação pública por luz branca; além dos serviços sistemáticos de limpeza com varrição, capinação e coleta de lixo.

Além disso, a localidade também foi contemplada, segundo a nota, com uma edição do projeto +Bairros, realizado pela Secretaria Regional II (SER II), com a oferta de mais de 40 serviços gratuitos com a emissão de documentos, atendimentos em saúde, emissão de carteiras de estudantes e gratuidades para idosos, cadastro do Programa Bolsa Família, mutirão de combate às arboviroses, entre outros. A nota não especifica se existe a previsão para implementação de uma unidade básica de saúde no local.

Por meio da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer de Fortaleza (Secel), a Prefeitura diz que também oferece núcleos do Atleta Cidadão no entorno do Poço da Draga. “Nas proximidades do local, em um raio de dois quilômetros, há atividades de atletismo, duathlon terrestre, futebol, boxe, muay thai, jiu-jitsu, futsal e beach soccer, além das Areninhas do Pirambu, Campo do América e quadras externas do Ginásio Paulo Sarasate”, afirma um dos trechos.

Em relação ao setor cultural, a Prefeitura afirma que a comunidade recebeu eventos "que tornaram a região uma referência em atrações da Cidade", a exemplo do Criapi, edital de ideias que contemplou 20 projetos, alguns deles para serem executados no Poço da Draga.

A nota cita ainda edição do evento Férias na PI de 2019, que promoveu três domingos com shows, com a renda revertida para os trabalhadores informais da região. “Somada a essas ações tivemos também a realização dos festivais “Abstrata” e o “Além da Rua”, este último com uma iniciativa de arrecadar fundos para a localidade, por meio do projeto #sparaydobem”, finaliza a nota.

O POVO também procurou a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) para saber sobre planos relacionados à implementação de saneamento básico na comunidade. Por meio de nota, a Cagece disse que o esgotamento sanitário no Poço da Draga “está em fase de conclusão de projeto para ampliação da rede coletora de esgoto na área. Após finalizado, o projeto seguirá para fase de captação de recursos”.

A companhia também reforçou que, quando se trata do termo saneamento básico, é preciso levar em consideração quatro aspectos: abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, drenagem urbana e coleta de lixo. “No caso, a Cagece é responsável pelos serviços de água e esgoto”, esclareceu a empresa.

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