Não consegue parar de comprar? Entenda condição

O comportamento é marcado pela ânsia constante por compras e pode se relacionar com o endividamento. Saiba o que define um consumidor compulsivo

Cresceu nos anos 2010? Então é provável que conheça a personagem Rebecca “Becky” Bloom. A protagonista do longa-metragem “Delírios de Consumo de Becky Bloom”, uma compradora compulsiva, virou sinônimo de consumidores que não resistem à uma boa promoção.

Seja o Dia do Consumidor, celebrado em 15 de março, ou a Black Friday, série de promoções durante o mês de novembro, é possível relembrar os ímpetos de Bloom em alcançar as melhores ofertas na compulsão sentida por alguns indivíduos na hora das compras.

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Mas o que define um “apaixonado por compras” de um consumidor compulsivo e qual limite é possível dispor entre ambos? Entenda mais sobre a condição a seguir.

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O que é uma compra compulsiva?

“A compra compulsiva, ela não é programada. É diferente da compra para consumo, quando há realmente a necessidade de um bem ou a necessidade da contratação de algum serviço”, inicia Desirée Mota, especialista nas áreas financeira e comportamental e colunista do OP+.

A distinção também se dá pelo sofrimento psíquico “muito intenso” vivido pelos pacientes do transtorno de compra compulsiva, característica destacada pela psicóloga Tatiana Filomensky, coordenadora do Programa para Compradores Compulsivos do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pró-Amiti).

Filomensky indica a euforia do indivíduo no momento anterior à compra, seguida por sentimentos como arrependimento, culpa e a ideia de fracasso. “Isso repetidas vezes”, alerta.

“No quadro de um consumo socialmente aceito, ou uma pessoa consumista, ela não vai trazer esses comportamentos ou consequências. Ela pode comprar muito, mas não vai chegar nesse ponto em que a compra é tida como algo que mascara questões emocionais, como se fosse um ‘remedinho’ para os seus problemas”, completa.

O transtorno possui até nome: oniomania. A palavra deriva do grego oné para “compra” e manía, para um “estado de loucura”.

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Como age um comprador compulsivo?

A especialista nas áreas financeira e comportamental, Desirée Mota, apresenta um exemplo de atitude que pode vir a indicar um ato de compra compulsiva e diferenciá-lo de outras situações de consumo:

“Você está em um local, tipo um comércio ou um shopping, se depara com aquele produto e muitas vezes compra ele impulsivamente, sem estar dentro da sua programação. Não faz parte da sua necessidade, mas sim da oportunidade que você vê naquele momento, que acha que será um bem necessário”.

Não sabe qual cor escolher para a sua blusa? Um comprador compulsivo pode decidir levar todos ou a maioria dos tons disponíveis, por exemplo, sem motivação prática para sua ação.

Ao final do processo, o indivíduo pode não conseguir impedir um endividamento financeiro, mesmo que o objeto adquirido lhe cause danos monetários e não estivesse em sua previsão de gastos. “Você age de uma forma desordenada”, explica.

"Não é uma situação única em que eu perdi o controle, gastei demais ou comprei aquilo e me arrependi, porque isso todo mundo passou um dia. O problema é a repetição desse comportamento"

Tatiana Filomensky

A psicóloga Tatiana Filomensky ressalta mais características relacionadas ao transtorno, como mentir sobre o que comprou ou não comprou e apresentar um comportamento de isolamento frente ao consumo, para evitar questionamentos de pessoas próximas.

“As pessoas acabam fazendo isso muito sozinhas, compram como uma forma de lidar com as emoções negativas ou fugir dos seus problemas. E isso se torna um ciclo vicioso, então a pessoa faz isso de forma muito repetitiva”, explica a profissional.

‘Shopaholic’: um jogo na vida real?

Na língua inglesa, os compradores compulsivos podem ser lembrados por um termo informal: “shopaholic”. De acordo com o dicionário Cambridge, o verbete significa “uma pessoa que gosta muito de fazer compras e o faz bastante”.

A palavra não apenas é parte do título original do filme protagonizado pela personagem Becky Bloom (“Confessions of a Shopaholic”, em inglês), mas já recebeu conotações divertidas em série de jogos da década de 2010, como “Shopaholic: New York” e “Shopaholic: Milan”, focados majoritariamente no público feminino.

O conteúdo apresentava aos jogadores a opção de fazer compras em diferentes lojas voltadas ao vestuário, incluindo um orçamento diário para gastos e a chance de “trabalhar” para alcançar a quantia necessária em compras adicionais ou promoções de roupas no jogo.

Em vídeo sobre a linha do tempo de “Shopaholic”, o canal “Li Speaks”, responsável por explorações de temáticas como a mídia da web dos anos 2000, destaca as percepções positivas da experiência para os jogadores — a presença de um orçamento diário, por exemplo — incluindo o viés relativo ao consumo, intricado no próprio nome da franquia.

“Eu acredito que exista uma lição proeminentemente negativa no jogo, e que ela está ligada com os aspectos mais positivos e educativos, que é a glorificação do ato de comprar e, mais iminente, o vício em compras”, explica a youtuber na gravação.

“A visão positiva sobre o vício em compras fica mais aparente com o próprio nome, ‘Shopaholic’. Esse termo tem sido ‘bonitinho’ e ‘irreverente’ basicamente desde o momento da sua concepção (no jogo), o que minimiza quantos danos isso pode causar na vida real”, completa

Para Tatiana Filomensky, as propagandas, E-commerce, redes sociais e influencers não são habilitadores, mas apenas encontram um terreno muito fértil nos compradores compulsivos. “Isso potencializa a expressão de um comportamento de descontrole”, avalia.

Como controlar o consumo compulsivo?

“O que se propõe é que as pessoas falem sobre o assunto. Se você tem algum familiar com o problema, converse que tem tratamento, que tem um descontrole, que pode ter ajuda”, começa Filomensky.

A psicóloga acrescenta que é importante passar por uma avaliação psiquiátrica para os efeitos colaterais de todo o processo: “As pessoas podem estar mais deprimidas ou com um quadro de ansiedade”.

“Não é uma situação única em que eu perdi o controle, gastei demais ou comprei aquilo e me arrependi, porque isso todo mundo passou um dia. O problema é a repetição desse comportamento”, alerta.

Um tratamento psicológico fornece o auxílio necessário para lidar com os gatilhos emocionais e o descontrole, além dos efeitos que eles podem apresentar nos sentimentos do paciente.

Outro ponto pode incluir um acompanhamento de familiares e a orientação financeira do indivíduo. “É um trabalho bem específico: essas pessoas não estão simplesmente endividadas, elas estão muito endividadas”.

“(A orientação financeira) é um momento muito concreto do tratamento, porque números não mentem. Então, a gente entende que essas pessoas têm uma dificuldade muito intensa de olhar para os números”, finaliza.

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