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Ansiedade que impulsiona consumismo: saiba como identificar o problema e buscar ajuda

Especialistas alertam para a necessidade de fazer autoavaliação antes da compra e recomendam a "gastar" a ansiedade de outras formas

Lais Oliveira
14:06 | 08/09/2020
A ansiedade exacerbada pode prejudicar a saúde mental e a qualidade de vida. A facilidade de acesso online a lojas faz com que algumas pessoas comprem mais que o necessário (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
A ansiedade exacerbada pode prejudicar a saúde mental e a qualidade de vida. A facilidade de acesso online a lojas faz com que algumas pessoas comprem mais que o necessário (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Meses de confinamento devido à pandemia da Covid-19 fizeram as vendas on-line dispararem durante a quarentena e, apesar da crise econômica, as pessoas já começam a investir novamente em lazer numa tentativa de compensar o tempo em casa. Sobre isso, especialistas alertam para o consumismo que pode estar ligado ao aumento da ansiedade durante esse período.

A psicoterapeuta Diva Barreto, professora no Centro Universitário Unifanor, lembra que a ansiedade é um sentimento inerente à existência humana. Porém, a ansiedade exacerbada pode prejudicar a saúde mental e a qualidade de vida.

"As pessoas ficaram muito tempo em casa, ociosas, e uma das formas que estão encontrando para extravasar depois de tanto tempo é comprando muitas coisas. Às vezes nem precisa, mas quer sair de casa, passear e compra muito", considera.

Naírton Cruz, psiquiatra geral e psicogeriatra do Instituto Viva a Vida, corrobora com essa constatação. "Nunca atendi tantas pessoas endividadas, que tinham um padrão de consumo e aumentaram mesmo vendo que sua receita não estava se mantendo e até diminuindo", afirma.

De modo geral, o especialista avalia a partir de sua experiência clínica, que houve aumento dos transtornos ansiosos durante a pandemia, estando o consumo excessivo muitas vezes ligados a esse aumento. Isso pode levar não só a perdas financeiras, mas a uma busca desenfreada e mal sucedida para suprir uma necessidade incompreendida.

Esse processo pode ser justificado cientificamente, de acordo com o neuropsicólogo Fabiano de Abreu, também psicanalista e especialista em estudos da mente humana. Ele acredita que o varejo virtual tem lucrado com a ansiedade.

Isso porque essa expectativa com relação ao que está por vir "cobra respostas" das pessoas. Este desejo de resposta para a ansiedade está na recompensa que é liberada através da dopamina, neurotransmissor que dá sensação de satisfação. Ao consumir, a pessoa ansiosa libera dopamina. Porém, não encontra a solução para aplacar a ansiedade e voltar a comprar mais.

"Se vincularmos isso à cultura de compra impulsionada pelo marketing, principalmente na rede social, e à facilidade de acesso, temos um monte de disfarces e enganações psicológicas para suprir uma pendência que às vezes nem mais sabemos do que é, de tantas, tendo que sempre 'tapar o sol com a peneira' liberando dopamina em tudo o que for preciso", complementa Abreu, pesquisador na área.

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Como saber se estou consumindo influenciado pela ansiedade?

Cada pessoa precisa fazer uma avaliação individual. Refletir sobre seus gastos atuais e tentar compreender o que tem levado a gastar com determinados produtos é um bom começo, segundo orienta a psicoterapeuta Diva Barreto.

Se, por exemplo, seu guarda-roupa está cheio de produtos com etiquetas há meses ou se o que você compra acaba não sendo usado, é um sinal de consumismo relacionado a uma ansiedade mais exacerbada. "Mas não podemos associar esse consumismo a uma patologia especifica. Para diagnosticar é preciso associar ela a outros sintomas", pondera Barreto.

Por sua vez, o médico psiquiatra Naírton Cruz reforça que o consumismo está ligado à geração de bem-estar e a uma tentativa de preencher o centro de controle neurocerebral. "Alguma coisa pode estar faltando na vida da pessoa que ela precisa preencher com a compra do objeto que ela anseia", indica.

Conforme o especialista, esse comportamento pode ser um dos sintomas de transtornos mais graves, como o da bipolaridade. "Muita vezes o tratamento tem que ser medicamentoso, mas a psicoterapia é essencial porque o paciente vai junto com o terapeuta tentar entender o que é essa falta", recomenda.

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Veja recomendações dos especialistas evitar o consumismo impulsionado pela ansiedade e buscar ajudar:

1. Deve-se "gastar" a ansiedade em comportamentos que tragam benefícios. Faça exercícios e invista em uma boa alimentação, por exemplo;

2. Avalie a verdadeira necessidade do produto que comprou ou do que tem comprado. Pare para pensar nas motivações daquela compra: quantas vezes compramos, por impulso, depois pensamos no dinheiro que não podíamos ou deveríamos gastar?;

3. Coloque metas de curto e longo prazo na vida. Quando temos uma vida organizada, nos preparamos melhor para crises;

4. Se a pessoas esta se percebendo muito ansiosa ou consumista, é importante buscar um profissional da psicologia. Por meio da terapia, ela vai falar sobre o que sente, e o psicólogo vai ajudá-la a entender o que está se acontecendo. Assim, será possível chegar ao verdadeiro motivo do consumismo impulsionado pela ansiedade, e a lidar melhor com isso;

5. Muitas vezes, o psiquiatra trabalha em conjunto com o psicólogo. Ele pode recomendar medicações chamadas de ansiolíticas, que não necessariamente causam sono. Um bom terapeuta vai saber encaminhar o paciente para procurar ajuda de um bom psiquiatra. A medicação pode ser importante até para o tratamento psicoterápico funcionar de maneira adequada.