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Do escambo às criptomoedas: uma breve história do dinheiro

O dinheiro está presente em quase todas as esferas da vida em sociedade, mas nem sempre ele do jeito como o conhecemos hoje
00:00 | Out. 31, 2021
Autor Ana Vitória Marques
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Tipo Notícia

O dinheiro está presente em quase todas as esferas da vida em sociedade, mediando e influenciando relações, decisões e indicadores econômicos e sociais, como o Produto Interno Bruto (PIB) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH); ou servindo como moeda de troca para produtos e serviços. É deixado como herança, é emprestado, é roubado.

Nem sempre, contudo, ele foi do modo como conhecemos, tampouco tinha a mesma relevância. Desde a sua origem, que remonta à pré-história, o dinheiro passou por diversas mudanças: de trocas dos excedentes de produção até as atuais criptomoedas.

De acordo com o professor de Sociologia Econômica e do Trabalho da Universidade Federal do Ceará (UFC), Edemilson Paraná, isso acontece porque antes de ser uma “coisa”, o dinheiro é uma relação social.

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"O dinheiro não é algo estanque, imóvel, uma coisa física. Se as sociedades mudam, se as economias se transformam, é compreensível que a natureza e as formas de materialização dessa relação social que é o dinheiro também mudem em consequência”, explicou Edemilson.

Mas e quando o dinheiro, tal como conhecemos, ainda não existia, como as pessoas faziam? Descubra:

 

As trocas diretas: o escambo

No início, quando o homem deixou de ser nômade e passou a se fixar em algumas regiões, o que prevalecia era o sistema de trocas diretas, o escambo. As pessoas produziam alimentos para o seu próprio sustento, como trigo, milho e criações de alguns animais.

Quando havia excedente, elas trocavam essas mercadorias entre si, por exemplo: em um mês, uma pessoa produziu 50 sacas de trigo a mais do que a necessidade dela, mas precisava de couro para confeccionar casacos e se proteger do frio. Assim, uma solução era fazer uma troca com um vizinho que criava vacas.

A exigência era que as duas partes quisessem o que a outra tem a oferecer e que pudessem estabelecer o valor relativo de cada item, um pouco parecido com as trocas cambiais que são feitas atualmente. Esse sistema perdurou por vários séculos e, até hoje, ainda é possível encontrar a prática do escambo em determinados contextos.

Contudo, com o passar do tempo, as pessoas se especializaram em tarefas diversas, propiciando o desenvolvimento de ofícios e profissões. Como consequência disso, passaram a surgir bens com propósitos e hierarquias de complexidade diferentes e a troca direta entre duas pessoas passou a se tornar cada vez mais difícil de equalizar.

É nesse momento que determinadas mercadorias, por sua importância à sociedade, passaram a ser mais valorizadas e com isso ficaram conhecidas como moedas-mercadoria.

O sal foi uma moeda-mercadoria tão popular no Império Romano que, com o tempo, o pagamento em sal deu origem à palavra salário
O sal foi uma moeda-mercadoria tão popular no Império Romano que, com o tempo, o pagamento em sal deu origem à palavra salário (Foto: Nico De Pasquale/Getty Images)


Moedas-mercadoria: de búzios a gigantes pedras de calcário

Quase tudo pode servir como dinheiro, desde que seja durável, escasso e possível de se acumular. Embora as moedas-mercadoria, em sua maioria, tenham caído em desuso por conta do papel-moeda, algumas ainda subsistem, sobretudo como símbolo.

O gado foi mais utilizado nos primórdios como moeda-mercadoria, mas foi sendo substituído por grãos devido ao avanço da agricultura e a dificuldade de transportar os animais.

O sal foi muito utilizado durante o Império Romano até a Idade Média e tinha seu valor agregado à sua característica de conservar os alimentos, além de o processo de extração dele, do mar ou de minas, ser complexo e caro à época, o que o valorizava ainda mais.

O sal foi tão importante como moeda de troca que passaram a chamar as porções dele que eram dadas aos soldados romanos como pagamento pelos seus serviços de salário.

Outro exemplo de moeda-mercadoria foram conchas de cauri, adotadas em grande parte da África por volta do século 11 a.C e que até o século 19, ainda eram empregadas em transações em muitas regiões desse continente.

Na República Democrática do Congo, durante os séculos 19 e 20, as katangas foram usadas como moeda de troca. A katanga era uma espécie de cruz que costumava ser confeccionada em cobre, tinha cerca de 20 centímetros de diâmetro e chegavam a pesar 1 kg, não sendo muito práticas.

Na ilha de Yap, localizada nos Estados Federados da Micronésia, enormes pedras calcárias, chamadas de pedras rai, são adotadas como uma forma de câmbio em transações especiais. Essas pedras, que são populares na ilha há mais de 2 mil anos, são discos circulares com mais de 3 metros de diâmetro, caracterizadas por um furo em seu centro.

O seu valor está muito atrelado ao seu formato e à sua história, por exemplo, se for mais antiga, é ainda mais valorizada. Atualmente, as pedras rai são usadas apenas em trocas importantes, como casamentos, heranças e acordos políticos.

 

A descoberta dos metais preciosos: maleáveis, quase infalsificáveis e atraentes para ladrões

Em determinado momento, com o avanço da ideia de moeda-mercadoria, passaram a ser muito usados os metais preciosos, como o ouro, a prata, o bronze e o cobre.

Esses elementos tinham características interessantes que os consagraram como elementos ideais para um padrão monetário: não eram perecíveis como os alimentos, eram difíceis de falsificar, eram homogêneos, o que permitiu uma padronização, e eram maleáveis, de tal modo que se podia transformá-los em peças fáceis de serem carregadas, como as conhecidas moedas que usamos hoje.

Foi na China, no período da Dinastia Zhou (Chou) ( 1122-256 a.C.), que nasceu o primeiro dinheiro de metal uniforme. As moedas de bronze possuíam formas variadas, baseadas nas mercadorias e objetos que possuíam valor de troca: peixe, chave ou faca (Tao), machado (Pu), concha e a mais conhecida, o Bu, que tinha a forma de uma enxada.

No fim desta dinastia surgiu o ouro monetário, o Yuanjin, o qual tinha a forma de um pequeno lingote com o sinete imperial. Contudo, as primeiras moedas, tal qual conhecemos hoje, surgiram na Lídia, região localizada na atual Turquia, no século VII a.C.

Eram peças de metais que tinham seus valores representados tanto pela nobreza do material, como ouro e prata, quanto por características que eram ressaltadas a partir de pancadas de um objeto pesado (martelo), em primitivos cunhos. Foi nesse momento em que se teve a origem da cunhagem a martelo.

Cartão do início do século XX explica a conversão dos réis brasileiros para outras moedas
Cartão do início do século XX explica a conversão dos réis brasileiros para outras moedas (Foto: Wikimedia Commons)

No Brasil, por muito tempo também vigorou o sistema de trocas, inicialmente com o escambo praticado entre os nativos brasileiros e os colonizadores e, depois, no período em que havia grande produção de açúcar, fumo e algodão.

No ano de 1695 foram cunhadas as primeiras moedas oficiais do Brasil. Tais moedas possuíam o valor de 1.000, 2.000 e 4.000 réis, no ouro, e de 20, 40, 80, 160, 320 e 640 réis, na prata. Esse sistema perdurou até 1942 quando foi criado o cruzeiro.

Primeiros bancos do mundo e a criação das “cédulas de papel”: uma revolução financeira

Algumas das moedas-mercadoria citadas anteriormente não eram lá muito práticas. Imagine só: carregar várias sacas de trigo para conseguir fazer uma transação econômica simples ou ter que deslocar as gigantes pedras rai de um lado para outro para conseguir comprar alimentos e roupas.

Com o tempo, negociar grandes quantidades de ouro e carregar essa mercadoria também tornou-se perigoso com a atuação dos ladrões. O governo chinês criou as primeiras cédulas de papel por volta do ano 89. As moedas eram mantidas todas em um só lugar e eram emitidos pedaços de papel em seu lugar. Os moldes para a impressão eram confeccionados em placas de madeira ou de bambu, sobre as quais era aplicada uma pasta especial, feita de polpa vegetal amolecida e batida.

A madeira recebia tinta e os desenhos e textos gravados eram passados para o papel. Temos aqui o início do que entendemos como dinheiro representativo, em que os objetos de dinheiro em si não têm valor. Marco Polo é creditado como o responsável por trazer essa ideia do Oriente para a Europa, de onde se originou o setor bancário.

Foi nesse período que surgiram os primeiros “bancos”, onde as pessoas depositavam suas riquezas e recebiam certificados que ficaram conhecidos como moeda-papel e podiam ser utilizados em qualquer transação.

No ano de 1406, foi criado na cidade italiana de Gênova o primeiro banco moderno, chamado de Banco di San Giorgio. No Brasil, o primeiro banco a funcionar foi o Banco do Brasil, tendo sido criado em 12 de outubro de 1808 pelo príncipe regente D. João de Bragança.

Fachado Banco di San Giorgio, o primeiro banco moderno
Fachado Banco di San Giorgio, o primeiro banco moderno (Foto: Wikimedia Commons)

Uma nova atividade financeira também foi desenvolvida com os bancos, o empréstimo de dinheiro, no qual as pessoas podiam pagar depois com juros. Nesse momento, o próprio dinheiro passou a ser uma mercadoria.

As transações com essas cédulas primitivas ficaram extremamente populares, o que facilitou as falsificações. Com o tempo, os países criaram órgãos responsáveis por controlar essas transações e uniformizar as moedas e unidades de medidas, como o Banco Central no Brasil; além de órgãos responsáveis pela impressão do dinheiro, como as Casas da Moeda.

Para o professor Edemilson Paraná, do ponto de vista econômico-estrutural, algumas transformações que o dinheiro e o sistema financeiro passaram como um todo podem ser consideradas uma revolução financeira no seio da sociedade.

 

“À luz disso, é preciso que se compreenda, no entanto, que o dinheiro e as finanças não se determinam ou evoluem por si mesmos. Suas transformações estão submetidas aos movimentos mais amplos de reconfiguração das economias, no modo de produzir, circular e distribuir os frutos do trabalho social”, destacou o professor.

“Uma realidade”: o dinheiro digitalizado e a invenção das criptomoedas

Com o desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação, como as mídias digitais, o dinheiro também mudou. Hoje, para além dos cartões de crédito, é possível acessar sua conta bancária pela internet, seja pelo site ou aplicativo de cada banco, bem como realizar transações financeiras.

Bitcoin é a criptomoeda mais conhecida
Bitcoin é a criptomoeda mais conhecida (Foto: Siegfried Layda/Getty Images)

Isso tudo é possível por meio do Internet Banking, termo que designa o processo de transferir uma conta tradicional para as redes digitais. Além disso, existem as contas digitais, que são nativas do universo virtual. Somente elas podem ser abertas e fechadas pela internet.

“Isso tem consequências importantes: aumenta a possibilidade de uma circulação monetária e financeira transnacional mais veloz e flexível. Também abre a possibilidade para novas modalidades de serviços financeiros e bancários e, no limite, com a pressão pela desintermediação bancária, tenciona significativamente esse setor a se reconfigurar em resposta”, explica o professor de Sociologia Econômica.

Por fim, em uma das últimas transmutações do dinheiro (de moeda-mercadoria a papel-moeda), está o surgimento criptomoedas - que têm o Bitcoin como seu expoente mais conhecido.

As criptomoedas são moedas virtuais descentralizadas, sem intermediários financeiros, extremamente escassas e que oferecem privacidade nas transações - já que não são controladas por uma pessoa ou entidade central -, e vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado financeiro.

As criptomoedas, ao passo que trazem novas oportunidades, trazem também novos desafios às autoridades de regulação, pondera o professor da UFC, Edemilson Paraná: “Trata-se de um desafio para os Estados Nacionais quanto à manutenção e garantia da sua soberania monetária, mas também significa, tecnicamente, uma oportunidade maior de gestão, controle e vigilância do dinheiro e das finanças por parte de agentes públicos e privados bem equipados para tanto”.

As criptomodas têm tido recepções díspares: países como a China proibiram negociação com estas moedas virtuais, enquanto outros, como El Salvador, compraram volumes da moeda e adotaram seu uso em transações no território, em mais um passo no processo de transformação do dinheiro. 

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