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Curiosidades
NOTÍCIA

O dia em que oito pessoas morreram afogadas em uma enchente… de cerveja

A onda de cerveja preta chegou a mais de 4 metros de altura, derrubou paredes, destruiu móveis e feriu inúmeras pessoas

Leonardo Igor
14:38 | 26/03/2021
Ilustração do distrito de St. Giles Rookery publicada em 1906 no Brewer's Journal (Foto: Reprodução/Brewer's Journal)
Ilustração do distrito de St. Giles Rookery publicada em 1906 no Brewer's Journal (Foto: Reprodução/Brewer's Journal)

Embora a expectativa de vida da Inglaterra no século XIX não fosse nem uma sombra do que é hoje, um acidente em 1814 destacou-se até para os padrões de mortandade da época. No outono daquele ano, uma onda que chegou a quatro metros de altura inundou toda uma vizinhança em Londres e deixou pelo menos oito pessoas mortas. Mas as vítimas não morreram afogadas em água, afinal, a enchente foi constituída por cerveja.

Tudo ocorreu no dia 17 de outubro de 1814, no distrito de Saint Giles Rookery, na capital do império britânico. A cervejaria Horse Shoe armazenava ali, em um tanques enormes, quantidade vultosas de dark porter, uma cerveja preta produzida no Reino Unido. A capacidade de armazenamento do tanque que estourou é objeto de divergência entre historiadores, que citam desde 3.500 até 9.000 barris. Mas, dentro da Horse Shoe, havia tanques com capacidade para até 18 mil barris.

O caso é que no fatídico 17 de outubro, o anel de ferro que envolvia um dos tanques de cerveja preta se rompeu. O líquido, que estava fermentada, fez tamanha pressão que derrubou uma das paredes da cervejaria e vazou para a rua New Street. Seus moradores, inesperadamente, se viram arrastados por uma pequena tsunami do líquido preto. “De repente, fui levado adiante com grande velocidade por uma torrente que me atingiu tão repentinamente que me deixou sem fôlego”, escreveu, mais tarde, uma testemunha à revista The Knickerbocker.

À época, Saint Giles era um bairro pobre e superpopuloso, ocupado principalmente por imigrantes irlandeses. Muitas famílias eram obrigadas a viver em porões subterrâneos, onde se apinhavam e captavam um pouco de luz do sol de janelas ao nível do rua. A torrente de cerveja foi especialmente cruel para estas. Muitos perderam tudo e pelo menos duas residências, já abaladas, desabaram. Em um porão, uma família de quatro pessoas velava o corpo de uma criança quando o líquido preto inundou tudo. Morreram os quatro.

Em outro ponto, uma criança identificada como Hannah Banfield tomava chá com a mãe quando foram arrastadas pela onda. As duas não resistiram. A parede da taberna Tavistock Arms desabou sobre a garçonete Eleanor Cooper, que faleceu nos escombros. Por fim, uma menina de 3 anos, chamada Sarah Bates, também foi levada pela bebida e só foi encontrada posteriormente, passado o alvoroço, já morta. Muitos moradores relataram que ao perceber a onda, tentaram subir em móveis e pontos altos. Sobreviveram, e perderam tudo, que devido à pobreza, não era muito.

Diferente de várias versões que se popularizaram na internet, não há relatos de que as pessoas aproveitaram a ocasião para beber a cerveja de graça. Ao contrário, passada a torrente, a comunidade procurou ajudar sobreviventes feridos e encontrar vítimas. O caso repercutiu no Parlamento britânico, mas não obstante para ensejar o governo a oferecer algum apoio financeiro às vítimas. A cervejaria Horse Shoe continuou funcionando no local até 1921, até ser demolida para dar lugar ao Dominion Theatre.