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Novos fardos de navio nazista não devem chegar ao litoral cearense, aponta pesquisador

Objetos provenientes de embarcações alemãs voltaram a aparecer em praias do Nordeste após três anos dos últimos registros
23:21 | Out. 14, 2021
Autor Luciano Cesário
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Tipo Notícia

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) estão debruçados em um novo estudo sobre o reaparecimento de fardos de borracha no litoral do Nordeste. As novas aparições foram registradas entre julho e agosto deste ano em praias de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas. Dados preliminares da pesquisa apontam que o material pertence ao navio de carga alemão MV Weserland, naufragado pela Marinha dos Estados Unidos em janeiro de 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial.

Membro do Instituto de Ciências do Mar (Labmar) da UFC, o doutor em oceanografia Luís Ernesto Arruda, um dos pesquisadores envolvidos no estudo, considera pouco provável, por ora, a vinda dos resquícios da embarcação alemã para as praias do litoral cearense. “As novas aparições são registradas mais ao Sul da região Nordeste, principalmente na Bahia. Por enquanto, não há nenhuma indicação de que esses fardos podem chegar à costa do Ceará”, destaca o pesquisador em entrevista ao O POVO.

Arruda já havia participado de um outro estudo em 2019 sobre a aparição dos mesmos fardos em diversas praias do Nordeste, inclusive no Ceará, em 2018. A pesquisa concluiu que o material encontrado é proveniente de uma outra embarcação da Alemanha Nazista, o navio SS Rio Grande, também afundado pela Marinha Americana em 1944, durante o conflito bélico que marcara o período.

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Em virtude do estudo realizado há dois anos, os pesquisadores chegaram a acreditar que as novas aparições registradas neste ano pertenciam ao mesmo navio. Contudo, duas duas evidências fizeram eles mudarem de ideia. “Nós notamos que quantidade é bastante significativa. Só a Prefeitura de Alagoas recolheu mais de 200 fardos nas praias de lá. Além disso, o material tinha inscrições em ideograma [escritos] japonês, o kanji, que era muito comum na época da Segunda Guerra Mundial”. Até então, não tinha aparecido nenhum fardo com essas características”, pontua Arruda.

traços do ideograma japonês kanji foram identificados pelos pesquisadores nas caixas de borracha
traços do ideograma japonês kanji foram identificados pelos pesquisadores nas caixas de borracha (Foto: Cláudio Sampaio/Ufal)

Os especialistas acreditam que o surgimento dos fardos pode estar ligado a uma possível tentativa de violação aos restos da embarcação alemã, afundada nas águas do Atlântico Sul, em território britânico. Na época do naufrágio, o navio transportava uma valiosa carga de estanho, um dos tipos de metais nobres mais valorizados no mercado internacional.

“Fazendo uma busca rápida na internet, a gente viu que o preço do estanho praticamente triplicou entre o final de 2020 e o começo de 2021. Sabemos que ele é um metal muito utilizado em equipamentos eletrônicos, como celulares e computadores, e com a pandemia houve um aumento substancial na demanda por esses produtos. Tudo pode estar ligado”, comenta o pesquisador. Para sustentar a conclusão, o grupo de estudiosos realizou uma série de modelagens matemáticas que mostraram que caso os fardos saíssem do local onde aconteceu o naufrágio, o primeiro destino possível seria o litoral nordestino.

“Borracha flutuante”

Não é a segunda vez que os misteriosos fardos de borracha aparecem em praias do Nordeste. Antes, em 1944, ano dos naufrágios, houve uma quantidade ainda maior de registros desse tipo. No Ceará, o material desembocou em quase toda a faixa litorânea do Estado, principalmente no Mucuripe, em Fortaleza. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA) sobre a produção de borracha no Ceará na primeira metade do século XX destaca que a chegada do material pelas águas do mar trouxe faturamento extra para os pescadores locais.

“Muitos pescadores ganharam mais dinheiro com a venda da borracha flutuante [fardos] do que jamais haviam ganhado com pescaria”, diz um trecho da pesquisa, publicada em 1946.

Fardos estão armazenados em um depósito, em Alagoas, para a realização dos estudos científicos
Fardos estão armazenados em um depósito, em Alagoas, para a realização dos estudos científicos (Foto: Cláudio Sampaio/Ufal)

Riscos

Podendo pesar até 200 kg, os fardos são grandes caixas de borracha que, segundo os especialistas, seriam utilizadas pelos soldados alemães como estratégia ofensiva nos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Com o passar dos anos, o material pode sofrer deterioração e afetar a saúde de organismos marinhos.

Os objetos também podem representar riscos à integridade física dos seres humanos que frequentam áreas litorâneas. Em 2018, duas pessoas morreram em um acidente de buggy, na praia de Extremoz, região metropolitana de Natal (RN), após o veículo marinho ter colidido frontalmente com um fardo de borracha que flutuava no mar. Na época, os objetos apareceram em praias de todos os estados nordestinos, exceto na Bahia.

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