PUBLICIDADE
Ceará
Noticia

Cearenses criam projeto de combate à pobreza menstrual durante a pandemia

A primeira arrecadação foi doada ao Lar Santa Mônica, que atende vítimas de violência sexual. Pobreza menstrual traz uma série de riscos e atinge muito mais mulheres negras

20:52 | 14/06/2021
No Instagram, grupo que desenvolve o projeto "Deixa Fluir" também realiza lives com ginecologistas para tirar dúvidas sobre menstruação (Foto: JÚLIO CAESAR)
No Instagram, grupo que desenvolve o projeto "Deixa Fluir" também realiza lives com ginecologistas para tirar dúvidas sobre menstruação (Foto: JÚLIO CAESAR)

O projeto "Deixa Fluir" reúne seis jovens estudantes cearenses que buscam oferecer assistência às pessoas que menstruam, mas não têm acesso a itens básicos de higiene durante o período menstrual. Além da distribuição, outro pilar da iniciativa é desmistificar a menstruação através da informação. Criado em abril de 2021, durante a pandemia de Covid-19, o projeto realizou, em Fortaleza, a primeira entrega do material arrecadado no último dia 17 de maio. 


As estudantes Melina Coelho, 20, Isadora Façanha, 20, Carolina Nantua, 19, Sofia Saboia, 19, Isabela Gurgel, 19 e Camila Garcia, 20, compõem o projeto. Desde então, o perfil do projeto no Instagram vem realizando, por meio de lives, conversas com ginecologistas para esclarecer algumas dúvidas sobre menstruação.

Na primeira arrecadação, também iniciada pelas redes sociais e em pontos de coleta da Cidade onde o grupo estabeleceu parceria, conseguiram 2.500 absorventes, mil além da meta inicial estabelecida. O material foi doado ao Lar Santa Mônica, que atende vítimas de violência sexual. 

LEIA MAIS | Conheça projetos de lei que tramitam no Ceará sobre dignidade menstrual  


A falta de dados a nível local e regional para mapear a situação da pobreza menstrual na Capital é um desafio. "Os dados são muito escassos. No Ceará, praticamente não temos dados sobre isso. Eu senti que faltava essa discussão por aqui", explica Melina Coelho, idealizadora do "Deixa Fluir". O objetivo principal é a arrecadação de absorventes, mas a ideia é ir além.

"Nosso projeto maior é a distribuição, mas o segundo projeto é elaborar um Projeto de Lei com a parceria de algum vereador, trazendo a proposta de redução de ISS (Imposto Sobre Serviços) sobre a doação desse material. Para isso, precisamos de dados: saneamento básico, renda das pessoas que menstruam, pessoas em situação de rua, população carcerária", explica.

Clique na imagem para abrir a galeria


De acordo com a ginecologista da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), Débora Britto, a falta de informações adequadas sobre a menstruação, que é um evento biológico e normal, pode levar a crenças errôneas e discriminação, fazendo com que as pessoas que menstruam evitem atividades, faltem à escola, percam experiências e atividades normais de suas vidas. Pelo menos 30% da população brasileira menstrua. Essas pessoas passam, em média, 35 anos da vida menstruando.


“Em situações nas quais esses mitos e tabus são muito fortes, situações desagradáveis relacionadas à menstruação podem ser traumáticas, repercutindo na saúde mental dessas pessoas”, completa Débora.

Uma pesquisa encomendada pela marca de absorventes Always mostrou que, no Brasil, uma a cada quatro meninas já faltou à aula por não poder comprar absorventes.

Pobreza Menstrual é maior entre negras


Dados do relatório “Livre para menstruar”, do movimento "Girls Up", divulgado em abril deste ano, estimam que uma mulher gasta entre R$ 3 mil e R$ 8 mil ao longo de sua vida menstrual com absorventes. Quem mais sofre nesse cenário e com a falta de acessos são mulheres negras. Dados de 2018 da BKR ambiental mostram que 17,5% das pardas e 15,7% das pretas não recebem água encanada regularmente, sendo estes os dois grupos étnicos com acesso inferior à média geral de 13,2%.


Entre as meninas que relataram não ter um banheiro em condições (sem sabonete, papel higiênico ou um pia que funcione) de uso na escola para a Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PENSE) do IBGE, 65% são negras.

A pobreza menstrual traz uma série de riscos, como irritações de pele, infecções genitais e urinárias. “O pouco acesso a produtos sanitários pode levar ao uso de produtos inadequados, como papel ou papelão, ou tecidos inadequados, por exemplo. Ou ainda a um racionamento dos produtos que seriam adequados [como os absorventes íntimos] por um período muito mais longo de tempo, aumentando dessa forma o risco de infecções”, apona Débora Britto, ginecologista da Meac.


A ginecologista ressalta que quando se fala em pobreza menstrual, é preciso compreender que o acesso a esses produtos sanitários precisa estar acompanhado por acesso a banheiros seguros e limpos para o adequado cuidado e higiene, à água limpa e à gestão dos resíduos, além do acesso à informação adequada sobre a menstruação. Isso passa por saneamento básico, acesso à educação e à renda. A ausência desses fatores está diretamente relacionada à desigualdade social.

Serviço
"Deixa Fluir"

As doações, a partir de qualquer valor, podem ser realizadas através da chave pix: [email protected]