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Ceará
NOTÍCIA

Projetos cearenses buscam reduzir os impactos da pobreza menstrual no Estado

Apesar de a higiene menstrual ser reconhecida como um direito e questão de saúde pública, no Brasil o imposto sobre absorventes corresponde, em média, a mais de 25% do valor do item

10:47 | 11/06/2021
Projetos cearenses buscam reduzir os impactos da pobreza menstrual no Ceará (Foto: Getty Images/iStockphoto)
Projetos cearenses buscam reduzir os impactos da pobreza menstrual no Ceará (Foto: Getty Images/iStockphoto)

No último dia 28 de maio foi o Dia Internacional da Higiene Menstrual, data importante para a causa do combate à pobreza menstrual, um problema que afeta milhares de mulheres e meninas no mundo todo. A higiene menstrual está diretamente relacionada à garantia da dignidade humana, já que a menstruação é um processo fisiológico natural e que indica saúde no funcionamento do corpo das mulheres.

É também uma transição na vida das meninas que, ao passarem pelo seu primeiro ciclo menstrual, iniciam a sua produção hormonal cíclica que seguirá até a menopausa, marcando o início da vida reprodutiva.

A data foi instituída pela ONG alemã WASH United e tem como inspiração a simbologia representada pelo número 28 e mês cinco, que são a média de dias de um ciclo menstrual completo e de dias que as mulheres menstruam em um ciclo, respectivamente.

A garantia das condições adequadas para toda pessoa que menstrua é reconhecida como uma questão de saúde pública e de direitos hum34anos desde 2014 pela a Organização das Nações Unidas (ONU).

Apesar disso, 1,5 milhão de brasileiras vivem em residências sem banheiro e 17% das meninas de até 19 anos não têm acesso à rede geral de distribuição de água, de acordo com o relatório “O saneamento e a vida da mulher brasileira”, realizado pela BRK Ambiental e publicado em 2018.

Elas vivenciam a chamada pobreza menstrual, que pode ser definida como falta de acesso à produtos menstruais, à informação sobre menstruação e à infraestrutura adequada para o manejo da higiene menstrual.

Em uma pesquisa realizada no mesmo ano pela marca Sempre Livre, da Johnson & Johnson, em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria, 22% das meninas entrevistadas no Brasil, Índia, África do Sul, Filipinas e Argentina, na faixa de 12 a 14 anos, disseram não ter acesso a produtos relacionados à menstruação porque não têm dinheiro ou porque não são vendidos perto de casa.

As consequências do problema vão desde doenças, devido ao uso de alternativas aos absorventes como miolo de pão e jornal, até questões socioeconômicas, já que muitas meninas deixam de ir à escola pela falta de material de gerenciamento menstrual limpo ou sofrem por não terem informações sobre o que acontece no seu corpo.

O POVO conversou com três projetos cearenses que buscam reduzir os impactos da pobreza menstrual por meio de doações e mobilizações políticas.

Sangue Nosso

No Ceará, a criadora do projeto Sangue Nosso, Larissa Maia, disse acreditar na entrega de kits com produtos de higiene pessoal e na informação como um meio de enfrentar a pobreza menstrual. No Instagram, a publicitária produz campanhas de arrecadação de absorventes e doações de dinheiro, cards sobre o assunto e lives com especialistas tratando de questões que rodeiam o assunto.

O projeto, criado em dezembro de 2019, atende em média 200 mulheres por mês, com a entrega de kits com absorventes, calcinhas, escova e pasta de dente, sabonete, álcool em gel e papel higiênico.

Entrega de kit no Centro de Fortaleza do projeto Sangue Nosso
Entrega de kit no Centro de Fortaleza do projeto Sangue Nosso (Foto: Reprodução/Instagram)

Larissa conta que a iniciativa foi impulsionada pelo desejo de ajudar mulheres em situação de rua e de comunidades mais carentes em Fortaleza após ter assistido o documentário indiano “Absorvendo o Tabu”, que aborda o estigma em torno da menstruação na Índia. Mas, para ela, a vontade de servir veio muito antes de 2019, desde os 12 anos quando via os pais dando sopa na paróquia que sua família frequentava.

“Após assistir o documentário, fiquei refletindo sobre como seria a situação aqui no Ceará, em Fortaleza, no sertão central. Isso ficou na cabeça e no coração e, justamente, nesse momento de pandemia que a gente se introspectou tanto, eu falei: agora vou colocar esse projeto em prática e ajudar o próximo”, comentou a fundadora da iniciativa.

Larissa destaca também que a questão do tabu sobre a menstruação e heranças do patriarcalismo corroboram para o agravamento do problema. “Até hoje é muito difícil para as mulheres falarem ‘estou menstruada’. Sim, eu estou menstruada, eu tenho tpm, eu estou com cólica. As pessoas precisam entender que isso é natural”, disse Larissa.

A publicitária falou ainda da dificuldade das ações em meio à pandemia e o alto número de contaminações: “Eu fiquei meio receosa, mas muitas vezes, quando eu chego na rua, elas me abraçam e é muito difícil, porque eu sei que quem está na rua às vezes só quer um abraço. Eu me emociono, porque muitas delas estão sozinhas, estão fugindo de familiares, foram espancadas, humilhadas, estupradas, enfim, são várias histórias”.

Florescer

Ágata Cabral, estudante de estética e fundadora do coletivo Florescer, criado em 2019 com o propósito de agir na diminuição do impacto da pobreza menstrual, iniciou o projeto sem saber muito bem que existia um nome para aquilo que ela sempre teve em mente, mas que não sabia como colocar em prática: ajudar mulheres em vulnerabilidade social com a doação de absorventes.

“Eu já sabia que o projeto ia se chamar Florescer. Incrivelmente as pessoas compraram a ideia de forma absurda. Eu não soube explicar inicialmente, mas todo mundo entendeu o que eu queria fazer. Ao todo fechamos em torno de 60 a 80 kits em três semanas”, contou Ágata.

Projeto Florescer
Projeto Florescer (Foto: Reprodução/Instagram)

A Florescer trabalha hoje, principalmente, com instituições sem fins lucrativos, como o Lar Santa Mônica, que é uma unidade de acolhimento institucional para crianças e adolescentes do sexo feminino entre sete e 18 anos vítimas de violência sexual. A fundadora explicou que a escolha por essa forma de atuação se deu diante de alguns desafios de trabalhar diretamente nas ruas.

“Não é nada fácil, porque nessa hora (entrega nas ruas) a gente precisa de uma estrutura maior, principalmente por causa da segurança”, disse a estudante de estética, explicando ainda que algumas pessoas não entendem que os kits são específicos para as mulheres, foco do projeto, e cobram doações.

Ágata conta que são produzidas campanhas a cada dois meses, o que coincide com as datas das entregas das doações. Nesse movimento bimestral, a página do Instagram do projeto é alimentada com posts de conscientização acerca da problemática e da aceitação do corpo feminino.

Quando faz entregas na rua, busca líderes comunitários de regiões periféricas e de maior vulnerabilidade social em Fortaleza, os quais fazem uma espécie de mapeamento das pessoas que menstruam e necessitam das doações da Florescer.

Em média, são doados de 70 a 100 kits de higiene menstrual, contendo absorvente, lenço umedecido, papel higiênico, escova e pasta de dente e sabonete. Dependendo da quantidade de doações, o kit ainda conta com álcool em gel e calcinhas.


Em depoimento à Ágata Cabral, Maria das Dores*, uma das mulheres auxiliadas pelo projeto Florescer e que faz parte da estatística de mulheres que necessitam de doações de absorventes, falou sobre suas dificuldades para conseguir passar pelo ciclo menstrual.

“No mês, às vezes, a gente compra (absorvente) ‘fiado’, mas nem sempre tem. Aí a gente pega papel higiênico, dobra e coloca, mas quando vem muito (sangue), não dá”, contou Maria.

Tanto Larissa quanto Ágata chamaram atenção para a falta de dados sobre a pobreza menstrual no Ceará, o que dificulta o trabalho, pois não existe um mapeamento oficial das necessidades reais dessas pessoas, deixando muitas desassistidas ou invisibilizadas.

Cadê o Modes

E é neste aspecto que atuam as meninas do projeto Cadê o Modes. Elas trazem uma proposta diferente que, aliadas a iniciativas como o Sangue Nosso e a Florescer, pode impactar significativamente no combate à pobreza menstrual no Ceará.

A iniciativa trabalha com a mobilização política, buscando a criação de políticas públicas que transformem os absorventes em materiais de necessidades básicas que devem ser dados em unidades de saúde e escolas. Além disso, visam garantir a educação menstrual, promovendo campanhas e incentivando semanas de conscientização que levam informações sobre o assunto para todos.

Mariana Barros, Dandara Santos e Aisha Paz do projeto Cadê o Modes
Mariana Barros, Dandara Santos e Aisha Paz do projeto Cadê o Modes (Foto: Foto: Divulgação/ Dandara Santos, diretora de comunicação do projeto)

“O assunto da menstruação em si é pouco falado, assim como a pobreza menstrual, que é um termo que é muito desconhecido, então a gente precisa falar. Projetos que falem sobre menstruação, projetos que falem sobre o corpo feminino tem essa importância de desmistificar e popularizar o assunto”

Segundo Dandara Santos, diretora de comunicação da organização, em menos de um mês desde seu lançamento, o Cadê o Modes já alcançou algumas parcerias, por exemplo com a deputada estadual Augusta Brito (PC do B) e o coletivo Florescer. Além disso, o projeto é responsável pela campanha #cadeomodes, que visa alcançar 10.000 assinaturas na petição para garantir o acesso aos absorventes no Ceará e que faz parte da mobilização Livres para Menstruar, organizada pelas iniciativas Girl Up e Nossas.

“A gente reconhece que o mais urgente hoje é a distribuição de absorventes, porque todos os meses as meninas estão sangrando, estão menstruando, então quanto mais rápido a gente conseguir (leis que garantam absorventes de graça), melhor”


Projetos de lei no Ceará que visam mudar essa realidade

No meio político, o Ceará já apresenta algumas propostas de leis que visam garantir o acesso gratuito a absorventes e a conscientização sobre o assunto da menstruação e da pobreza menstrual.

Entre eles, está o projeto de indicação n° 58/2021 da deputada estadual Augusta Brito, o qual institui a Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) no Ceará e trata sobre saúde menstrual e a garantia do acesso a insumos e absorventes higiênicos a pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social em unidades básicas de saúde e, a adolescentes nessas condições, nas escolas da rede pública de ensino.

De acordo com a deputada, é necessário dados oficiais para a criação de políticas públicas voltadas para o tema, inclusive para alcançar maior credibilidade e possibilidades de aprovação das leis.

“A gente precisa desses dados porque temos sempre que está provando que isso é uma questão séria, uma questão que merece sim ser falada e que isso sim impacta a vida de milhares de pessoas”, afirma Augusta.

Augusta Brito também tem o projeto de lei 242/2021 que versa sobre a instituição da Semana Estadual da saúde e higiene menstrual no estado do Ceará, que visa combater a desinformação sobre a temática.

O PL que está tramitando propõe a promoção do acesso às informações sobre saúde, higiene e produtos menstruais e a ampliação do diálogo sobre o tema nas políticas, serviços públicos, na comunidade escolar e nas famílias.

“Combater através das informações os tabus sobre a menstruação, por meio da ampliação de diálogos sobre o tema, falar isso dentro das escolas, antes mesmo das meninas entrarem no seu primeiro ciclo menstrual. Que a gente possa construir um instrumento que venha chamar atenção para a temática, trazer esse assunto especialmente para as escolas, onde está a grande maioria das meninas que vão entrar no período fértil”, afirmou Augusta Brito em entrevista ao O POVO.


Em consonância, o deputado federal José Guimarães (PT/CE), tem um projeto de lei tramitando na Câmara Federal que tem o objetivo de criar a Política de Conscientização acerca da menstruação e da universalização do acesso a absorventes higiênicos no âmbito do Sistema Único de Saúde(SUS), por meio fornecimento gratuito e universal de absorventes higiênicos e redução das alíquotas de impostos federais incidentes sobre absorventes higiênicos, dentre outras medidas.

O deputado afirma que a proposta busca alterar não só a qualidade de vida dessas mulheres, mas uma mudança de concepção sobre o que é a menstruação em toda a sociedade. “Falta esclarecimento acerca desse processo fisiológico pelo qual grande parte da população jovem e adulta passa periodicamente”, disse José Guimarães.

De acordo com o deputado, diante do contexto de aumento da pobreza e da desigualdade social decorrentes do período de pandemia e do fato de existirem propostas semelhantes tramitando, o leva a acreditar que o projeto de lei será votado brevemente.

Conheça mais sobre os projetos citados e as ações promovidas por eles:

Nosso Sangue:
Instagram: https://www.instagram.com/sanguenosso/
Doações: PIX - [email protected]

Florescer:
Instagram: https://www.instagram.com/floresceracadadia/
Doações: PIX - [email protected]

Cadê o Modes:
Instagram: https://www.instagram.com/cadeomodesce/
Petição Livres para Menstruar CE/ #cadeomodes: https://www.ce.livreparamenstruar.org/


*O nome da entrevistada foi trocado para preservar a sua privacidade, devido a sensibilidade do assunto e a vulnerabilidade social em que ela vive.

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