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Ceará
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Molécula de melanina é encontrada em fóssil de pteurossauro da Chapada do Araripe; pesquisador cearense participou de descoberta

Os paleontólogos brasileiros Felipe Pinheiro e Gustavo Prado lideraram a pesquisa, em um grupo com estudiosos americanos e japoneses

21:11 | 05/11/2019
Arte representa a reconstituição em vida do Tupandactylus, que viveu na região do Araripe furante o período Cretáceo, cerca de 110 milhões de anos atrás.
Arte representa a reconstituição em vida do Tupandactylus, que viveu na região do Araripe furante o período Cretáceo, cerca de 110 milhões de anos atrás. (Foto: USP Imagens/ Márcio Castro)

Uma molécula bem conservada de melanina foi encontrada em um fóssil de 110 milhões de anos, na Chapada do Araripe. A descoberta possibilita mais estudos sobre a pigmentação de seres vivos. A espécie de pterossauro Tupandactylus é de tamanho médio, com cerca de 3 metros de envergadura e com uma alta crista na cabeça, de onde foi extraída a molécula. O grupo de cientistas é composto por quatro brasileiros, sendo um cearense, dois estadunidenses e dois japoneses: Felipe Pinheiro, Gustavo Prado, José Andrade, Luiz Anelli, Shosuke Ito, Kazumasa Wakamatsu, John Simon e Keely Glass.

O material foi encontrado na região próxima a Nova Olinda, na região do Cariri cearense, por um trabalhador de uma pedreira. O fóssil foi doado para o Departamento Nacional de Produção Mineral, na cidade do Crato. A boa conservação permitiu estudos avançados, além da descrição dos ossos.

“A primeira vez que vi o crânio desse pterossauro foi em 2009 e ele tornou-se tema de meu mestrado. Começamos a investigar a preservação dos tecidos moles e, consequentemente, realizamos a descoberta da melanina”, afirma Felipe Pinheiro, cearense, professor na Universidade Federal do Pampa e doutor em Paleontologia.

O fóssil encontrado da espécie de pterossauro tinha a crista bem preservada, o que chamou a atenção dos cientistas para uma melhor análise da estrutura. A melanina é uma molécula que demora mais a se decompor, pois é mais estável do que outras. “Ela é estável justamente porque está adaptada a absorver e dissipar radiação. Essa estabilidade química fez com que esse pigmento continuasse mais ou menos intacto por um período gigantesco de tempo”, explica Felipe.

A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira, 4, na revista Scientific Reports, do grupo Nature. O pesquisador explica que muitos materiais da mesma linha de estudo surgiram, como estudos sobre a preservação de biomoléculas também em outras espécies, análises geológicas, pesquisas sobre tecidos moles, entre outros. Felipe acrescenta que ainda é preciso avançar nos estudos. “Ultimamente vários trabalhos têm tentado correlacionar a forma de estruturas celulares que armazenam melanina com as cores dos animais. Nosso trabalho mostrou que essa correlação não é tão simples assim”, diz.

O pesquisador afirmou que, mesmo descobrindo a melanina, não é possível descobrir a coloração desses animais. A melanina é responsável por indicar colorações apenas de tons avermelhados, castanhos e negros. Outras substâncias, como flavinas, porfirinas, carotenoides, e até a alimentação dos animais podem influenciar em sua coloração. “Existem muitos fatores envolvidos na coloração e a maior parte desses pigmentos não se preserva facilmente nos fósseis. Ultimamente vários trabalhos têm tentado correlacionar a forma de estruturas celulares que armazenam melanina com as cores dos animais. Nosso trabalho mostrou que essa correlação não é tão simples assim.”

Em entrevista ao programa Revista da Rádio O POVO CBN, Felipe falou sobre a conservação dos fósseis e a presença de moléculas orgânicas neles. "O que é interessante dessa descoberta é que por mais que a gente esteja ainda muito distante dessa história de Jurassic Park, de reviver os dinossauros, a gente consegue perceber que alguns fósseis, especialmente os fósseis muito bem preservados, como é o caso ali dos fósseis da Chapada do Araripe, podem sim conter moléculas orgânicas fossilizadas, com estruturas muito parecidas com a estrutura original daquelas moléculas", afirmou.

Ainda na entrevista, Felipe contou que a molécula não é pertencente a um dinossauro, mas a um parente próximo da espécie. "O que a gente conseguiu encontrar nos fósseis do Araripe não é um dinossauro. Ele é um parente próximo", definiu.

Felipe acredita que a Chapada tem grande potencial para estudos de animais extintos e que já há várias pesquisas e andamento. "A gente tem várias pesquisas nesse tipo de conotação, de como os animais eram, como eles viviam, como interagiam com o ambiente", declarou.

A Chapada do Araripe é localizada no Ceará, Pernambuco e Piauí. No local, já foram encontrados vários fósseis bem preservados. O professor de Ciências Biológicas e Paleontólogo Felipe Pinheiro explicou que essa preservação depende de um conjunto específico de fatores, e no caso dessa região, se deve a um lago razoavelmente profundo e de águas calmas, que existiu no local. “Com o fundo do lago não tinha oxigênio, os organismos eram preservados de decomposição por bactérias que respiram esse gás”, declarou.

Organismos que comem carcaças, também chamados de necrófagos, não existiam no lugar. Felipe explica que um equilíbrio fino da química da água facilitou essa preservação. Além desta espécie, foram encontradas outras espécies de répteis voadores, como Anhanguera, Tupandactylus, Tupuxuara, Tapejara. Diversas espécies de moluscos, insetos, plantas, e peixes também já foram encontradas na região, além dos dinossauros Angaturama e Irritator, parentes do espinossauro, do filme Jurassic Park.