Expansão agrícola ameaça o único macaco nativo da Caatinga, aponta pesquisa
Pesquisa brasileira mostra que 54% do habitat natural da espécie já está degradado por pastagens e áreas agrícolas, especificamente nos estados da Bahia e Sergipe, reduzindo o espaço vital da espécie
Uma pesquisa publicada na revista científica Regional Environmental Change revelou que o macaco-guigó-da-Caatinga (Callicebus barbarabrownae), único primata nativo da Caatinga e exclusivo do Brasil, está sendo forçado a viver em ambientes cada vez mais degradados devido à expansão agrícola e à devastação florestal no bioma.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal de Sergipe (UFS), Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
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Mais da metade do habitat do guigó já está degradado
A pesquisa analisou mapas e imagens de satélite captadas ao longo de 37 anos em 84 paisagens distintas e constatou que mais da metade da área de ocorrência da espécie (54,14%) já está coberta por pastagens e áreas agrícolas. A expansão é impulsionada, principalmente, pela agricultura e pela pecuária — apenas as áreas de pasto representavam 42% em 2021, um salto de 40% em relação ao percentual de 30% registrado em 1985.
Segundo os autores, os resultados indicam que a espécie pode estar vivendo um “débito de extinção”, ou seja, sobrevivendo em fragmentos de vegetação que já não garantem sua manutenção a longo prazo. O estudo reforça a urgência de medidas de conservação, como recuperação florestal e criação de novas áreas protegidas, para garantir o futuro do guigó-da-Caatinga.
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Em 2021, menos de 9% da Caatinga contava com áreas oficialmente protegidas. Nesse mesmo ano, o guigó-da-Caatinga foi incluído como “Criticamente em Perigo de Extinção” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e também reconhecido pelo governo brasileiro na mesma categoria.
Espécie depende das matas para sobreviver
O estudo é fruto do mestrado em Ecologia de Bianca Guerreiro, da UFRN, atualmente doutoranda, e contou com a participação de Raone Beltrão, do CPB, mestre em Ecologia e Conservação pela UFS.
Para a pesquisadora Bianca Guerreiro, principal autora do estudo, os dados são alarmantes.
“Os guigós precisam das matas e das árvores para obter recursos, como alimentação e abrigo, e também para se locomoverem”, afirmou em comunicado.
Caatinga perdeu mais de 10% da vegetação nativa em quase quatro décadas
Outro levantamento, realizado pelo MapBiomas em 2022, revelou que a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, perdeu mais de 10% de sua vegetação nativa nos últimos 37 anos — o que representa cerca de 6 milhões de hectares — principalmente devido ao avanço da agropecuária. Além da cobertura vegetal, o bioma também registrou a redução de 160 mil hectares de superfície de água, equivalente a uma queda de 16,75%.
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“Os resultados também reforçam a importância de conciliar produção e conservação, o que pode ser incentivado por programas de formação técnica e subsídios específicos e direcionados”, afirma Bianca Guerreiro, autora do estudo, acrescentando que a equipe já conduz novas pesquisas para aprofundar o conhecimento sobre o guigó e seu habitat.
Papel ecológico do guigó e equilíbrio do bioma
Algumas espécies de árvores da Caatinga frutificam em períodos diferentes do ano — nos meses iniciais, no meio ou no fim — e essa alternância na produção de frutos garante alimento contínuo para os animais. Em contrapartida, espécies como o guigó-da-Caatinga exercem um papel essencial na dispersão de sementes, ajudando na regeneração natural da vegetação.
A professora Míriam Plaza, do Departamento de Ecologia da UFRN, coautora e orientadora da pesquisa de Bianca, destaca que preservar o guigó-da-Caatinga é preservar o próprio bioma e a biodiversidade brasileira.
“Preservar o guigó-da-Caatinga é garantir a existência de uma espécie de primata que ocorre só nesse bioma. Estamos falando da conservação das florestas de Caatinga. Manter e promover essas florestas, com diversidade de espécies, garante a oferta de recursos durante todo o ano”, explica em entrevista ao O POVO.
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Expansão de pastagens ameaça a sobrevivência da espécie
De acordo com a pesquisadora, o avanço das áreas de pasto no entorno das regiões onde o primata é encontrado chamou atenção nos resultados. A substituição da vegetação nativa por campos abertos compromete a disponibilidade de abrigo e alimento, agravando o risco de extinção.
Míriam reforça que conservar o macaco-guigó-da-Caatinga é também proteger o equilíbrio ecológico de um dos biomas mais ameaçados e menos protegidos do Brasil.
“Essas diferenças regionais de mudança no uso do solo apontadas em nosso estudo podem servir de base para órgãos federais e estaduais formularem políticas que evitem a perda florestal e promovam o reflorestamento — por meio de editais, financiamentos e apoio a iniciativas locais que incentivem o uso sustentável da Caatinga”, conclui.
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