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Tempestade de areia: perguntas e respostas sobre fenômeno que assombrou São Paulo

Evento assustou brasileiros no último domingo, 26, provocando perguntas sobre a possibilidade de tempestade chegar a outros estados, por exemplo; especialistas esclarecem
15:22 | Set. 29, 2021
Autor Redação O POVO
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Na tarde do último domingo, 26, moradores da cidade de Franca, em São Paulo (SP), foram surpreendidos por uma enorme nuvem de areia. A tempestade cobriu e escureceu o céu, parecendo transformar o dia em noite. Pelas imagens gravadas do momento, que viriam a circular nas redes sociais em seguida, a impressão que ficou é de que as casas foram "engolidas" pela poeira que se levantou sobre elas.

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Além de Franca, o evento também foi percebido em municípios paulistas como Presidente Prudente, Jales, Araçatuba, Barretos e atingiu ainda algumas cidades de Minas Gerais, localizadas próximas ao estado de São Paulo. O fenômeno assombrou brasileiros e provocou dúvidas, principalmente sobre a possibilidade da tempestade chegar a outras regiões. Especialistas respondem a alguns dos principais questionamentos.

1. O que é a nuvem de areia?

De acordo com o meteorologista Heráclito Alves, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno é, na realidade, uma nuvem de poeira levantada pela instabilidade climática. Quando há formação de chuvas, a temperatura elevada, a baixa umidade relativa do ar e os ventos fortes provocam um área de instabilidade.

Essa condição faz com que o ar frio desça, levantando a poeira de terrenos geralmente desmatados. Ainda segundo o meteorologista, é "muito" comum que eventos desse porte sejam percebidos em áreas consideradas agrícolas.

2. Por qual motivo o fenômeno aconteceu em São Paulo?

"O Estado de São Paulo estava com umidade relativa do ar em torno dos 20% e 25%, além de registrar alertas no Inmet para chuvas entre o domingo, 26, e a segunda-feira, 27, com ventos intensos (de 40 a 60 km/h). O estado também estava com alerta para queda de granizo", destacou o especialista. 

Segundo Meiry Sakamoto, gerente de Meteorologia da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), a nuvem de poeira foi "gerada pelo vento intenso de uma frente de rajada, resultado do desenvolvimento, em forma de linha, de grandes de nuvens de chuva na área".

"Antes da chuva, o vento que ultrapassou 80 km/h em alguns pontos, levantou o solo ressecado pela estiagem na região, que enfrentou um dos invernos mais secos e quentes dos últimos anos. Além disso, incêndios de grandes proporções em vegetações e plantações contribuíram para a disponibilidade de material seco levantado pelos ventos", explicou ainda a representante.

3. Tempestades do tipo devem chegar a outras regiões do Brasil?

Reforçando a fala dos meteorologistas, Jeovah Meireles, professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), informou que essas tempestades têm origem normalmente em áreas desmatadas ou sem vegetação. Conforme docente, o evento pode ser "transportado" por "longas distâncias". Ou seja, mesmo iniciando em uma localidade a tempestade pode ser levada para outra.

O que influencia que isso aconteça são fatores como as "variações de pressão atmosférica e os ventos turbulentos". Por outro lado, não é necessário alarme a respeito do evento observado em São Paulo. Isso porque, de acordo com o meteorologista Heráclito, a nuvem não deve sair do estado de São Paulo.

4. O evento tem relação com as mudanças climáticas?

Apesar de não ser um fenômeno anormal, ele também não era tão comum no Brasil até há pouco tempo, afirma o geógrafo Wellington Romão Oliveira. "As queimadas do corte de cana podem ter contribuído pra deixar o solo exposto, pode ter sido sim um fator. Mas é impossível negar o efeito das mudanças climáticas, episódios como esses são novos e até pouco tempo atrás eram uma novidade para nós brasileiros".

Assim como Wellington, o professor Jeovah comenta a tendência de nuvens de poeira ocorrerem em áreas desmatadas. Além disso, ele destaca a importância de identificar o local de origem da nuvem. "Se for de uma área desmatada," reflete, "o vento suspendeu argila, cinzas e areia muito fina".

5: Ceará tem condições que propiciem o fenômeno?

O Ceará entrou na temporada de ventos fortes em agosto e a Marinha emitiu alerta, no domingo, 26, para ventos de até 60 km/h na faixa litorânea do Estado. Contudo, as condições não devem causar nuvens de poeira como as vistas em SP, analisa a professora Elisa Zanella, do curso de Geografia da UFC e vice coordenadora do Mestrado do Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema/UFC).

"No Ceará, não acredito que tenhamos ventos com tamanha velocidade para suspender tanto solo. Nossos ventos fortes estão associados à estabilidade do tempo, não à instabilidade", explica. "Nossos solos também não estão tão descobertos, pois embora a vegetação esteja seca, o solo não é muito utilizado para a agricultura. Tem as raízes que protegem", completa.

Conforme a gerente de Meteorologia da Funceme, Meiry Sakamoto, "vez ou outra" um redemoinho de poeira maior, conhecido também como 'dust devil', é observado no CEará, decorrente de uma ventania mais intensa. O último foi percebido em Sobral na última semana.

"Nesse caso (de Sobral), a temperatura elevada e o solo muito quente, fizeram com que o ar subisse rapidamente, ganhando rotação e absorvendo, pela diminuição da pressão no seu interior, a poeira ao redor, tornando-o visível o redemoinho", explicou a especialista.

Contudo, o Estado não deve registrar o evento que ocorreu no Sudeste ."No Ceará, e no Nordeste de um modo geral, os contrastes de temperatura na atmosfera são menores, assim, a formação de frentes de rajada nas proporções observadas no interior de São Paulo é mais difícil de observar", pontuou Meiry.

6. O que fazer caso presencie uma tempestade parecida?

Caso você esteja em um local onde ocorra uma tempestade como a de São Paulo ou outra parecida, a recomendação é a de que busque proteção. Conforme orientação do Inmet, o primeiro a se fazer é ficar em local fechado enquanto a nuvem de areia passa.

Segundo o órgão, essas tempestades não costumam ficar muito tempo e são logo dissipadas pela chuva. A segunda orientação é a de que, caso necessite sair do local, cubra o rosto com um pano ou máscara, para evitar a inalação de poeira.

Reportagem de Gabriela Almeida e Catalina Leite

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