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Brasil
NOTÍCIA

Tenente-coronel depreciada em rede social lidera movimento contra violência de gênero

Movimento de mulheres militares contra violência de gênero nasceu no Ceará e tem repercussâo nacional

Jéssika Sisnando
10:44 | 26/07/2020
A militar tornou-se um dos símbolos do combate ao assédio no meio militar  (Foto: Arquivo pessoal )
A militar tornou-se um dos símbolos do combate ao assédio no meio militar (Foto: Arquivo pessoal )

A tenente-coronel Camila Paiva, do Corpo de Bombeiro de Alagoas, está à frente de um movimento nacional contra violência de gênero chamado Somos Todas Marias. A ideia teve início após caso no Ceará, onde um áudio de WhatsApp vazou com o relato de um policial militar afirmando que policiais femininas deviam trabalhar para "tirar o estresse" dos policiais militares, uma conotação de serviços sexuais. A repercussão gerou uma nota de repúdio da Polícia Militar do Ceará e abertura de investigações sobre os áudios que depreciam as militares estaduais.

A oficial do Corpo de Bombeiros fez um vídeo falando sobre o caso e isso gerou um movimento de mulheres militares que relataram seus problemas. Dias depois, a tenente-coronel teve uma fotografia de biquíni, que havia publicado no Instagram, divulgada em um grupo de oficiais por um major da PM de Alagoas com a seguinte expressão: "essa gosta de rola", fazendo referência ao órgão sexual masculino.

A tenente-coronel virou simbolo nacional da luta das mulheres militares contra assédio, machismo, importunação sexual e diversas ações onde são vítimas, exclusivamente, o sexo feminino. Diversas páginas nas redes sociais foram criadas com relatos de mulheres militares relatando assédios que sofrem no dia-a-dia.

"O movimento foi a partir dos áudios que foram compartilhados dos grupos da Polícia do Ceará , isso foi o estopim e o gatilho para muitas mulheres me procurarem para relatar seus casos, o que passaram, seja de abuso, assédio, importunação sexual, preconceito, machismo. E recebi vídeos do Brasil todo", afirma Camila.

Conforme a coronel, após ver os comentários contra ela, a ideia de expor o caso surgiu para dar voz às mulheres que a procuravam. "Se eu, como tenente-coronel, a oficial mais antiga da corporação, estou sofrendo esse tipo de situação, imagine aquelas que estão na base, que têm uma patente inferior. Isso é muito grave", afirma.

O movimento Somos Todas Marias começou com as militares publicando fotografias em preto e branco com a frase e a hashtag #somostodasmarias. Nas publicações, elas revelam inúmeras situações que passam no dia-a-dia.

A tenente-coronel afirma que é importante dar voz para que as questões de gênero sejam debatidas. "O meio militar é extremamente machista e esse assunto é um tabú, não é discutido, não é falado. Há mulheres adoecendo, que tentaram suicídio, que sofreram aborto, depressão, que foram expulsas da corporação por machismo e assédio", explica.

A oficial relata que é necessário desenvolver políticas institucionais para proteger a mulher militar. "Local de trabalho tem que oferecer proteção e segurança, não adoecer. O sistema hierarquizado contribui para que as mulheres não denunciem por medo. Outras mulheres que denunciaram não tinham provas e a situação se voltou contra elas, foram perseguidas, punidas. De vítimas passaram a ser culpadas, foram expostas, constrangidas e não tinham mais coragem de denunciar. Essa é a principal dificuldade", afirma.

Polícia Militar do Ceará quer estimular denúncias

Para o comandante geral da Polícia Militar do Ceará (PMCE), coronel Alexandre Ávila, a PMCE tem uma característica peculiar, que é trabalhar com a proteção e os direitos das pessoas.

"Ela (PMCE) tem que zelar por determinados valores e princípios que são defendidos pela sociedade. A questão de gênero é um deles. Partindo dessa premissa, desde que assumimos a gestão da instituição, uma das principais preocupações foi rechaçar qualquer tipo de discriminação de gênero. Valorizando o papel da mulher dentro da instituição e deixando claro a importância da igualdade de tratamento do ambiente interno da corporação", afirma.

O comandante geral afirma que, desde 2019, várias mulheres assumem cargos chaves não só na área administrativa, mas na operacional. "As quais têm demonstrado um excelente desempenho e uma alta capacidade profissional. Demonstrando, de forma clara e inequívoca, que têm total capacidade de desempenhar qualquer função na instituição", relatou o coronel.

O coronel Alexandre relata que a situação tem sido acompanhada, em que tenha indício ou possibilidade de discriminação. "Bem como temos sido firmes nas denúncias dessa natureza", afirma. Conforme o comandante da PMCE, hoje a instituição tem em seus quadros, profissionais femininos com excelente desempenho na área administrativa e operacional, como ocorre em todas as polícias do Brasil.

"Em Brasília, uma das comandantes do choque foi uma mulher. No Ceará, atualmente, uma tenente está à frente do Comando de Controle de Distúrbios Civis (CDC), uma coronel comanda a parte de logística da instituição, uma tenente-coronel é chefe do setor de comunicação, outra tenente-coronel chefia a Coordenadoria de Saúde de Assistência Social e Religiosa, e duas capitãs comandam Companhias de Policiamento Ostensivo Geral (POG), relata.

Para Alexandre Ávila, são vários os exemplos de valorização e da defesa das questões de gênero na corporação. "E queremos avançar mais nesse patamar, estimular as denúncias para as devidas apurações, para que possamos avançar mais e ter a política para questões de defesa da igualdade de gênero no Ceará", finaliza. 

Assesora de comunicação da PMCE demonstra apoio a oficial do Corpo de Bombeiros depreciada em rede social

A Relações Públicas da PMCE, tenente-coronel Fátima, em nome das policiais militares femininas, agradeceu todas as manifestações de apoio que as mulheres militares receberam de todo o Brasil. "Estamos solidárias com a tenente-coronel Camila. Mexeu com uma, mexeu com todas", ressaltou.

"Eu como assessora de comunicação da Polícia Militar do Ceará acho muito importante a apuração rigorosa dos casos que vêm acontecendo. Depreciar a imagem das militares femininas dentro das instituições, nos dias de hoje... temos que ter total respeito por parte dos nossos colegas de farda. E também das funcionárias civis, que merecem total respeito. Eu me solidarizo com a tenente-coronel Camila, do Corpo de Bombeiros de Alagoas, que passou por esse momento lamentável e difícil. E digo à ela que não baixe a cabeça, que ela tem que ir pra cima com essa apuração rigorosa com a Corregedoria para que não aconteçam outros casos dessa natureza", afirma.

Para a tenente-coronel Fátima, hoje, na PMCE, há respeito por parte do efetivo masculino. Os casos são pontuais e estão sendo devidamente apurados e os policiais serão responsabilizados pelos seus atos.

Juiza federal reforça importância das denúncias

No dia 16 de julho, O POVO divulgou uma entrevista com a juíza federal da Justiça Militar, Mariana Queiroz Aquino, em que ela fala da necessidade de ações efetivas na proteção da mulher. A magistrada orientou às vítimas e explicou sobre o Direito Militar, no sentido de combate à violência contra a mulher militar. Mariana Queiroz ainda fez um balanço sobre o aumento do diálogo e a abertura nas Forças Armadas para fomentar a igualdade de gênero. Ela é chamada para palestrar e usar o lugar de fala para disseminar o conhecimento jurídico na proteção à mulher.

Caso no Ceará

No dia 16 de julho, o áudio de um policial militar (PM) do sexo masculino depreciando militares femininas vazou nas redes sociais e gerou ações de repúdio por parte da corporação e dos órgãos de segurança do Ceará. Além disso, diversas militares estaduais, oficiais e praças se manifestaram sobre o caso. Um inquérito policial militar (IPM) foi aberto pelo comando da Polícia Militar do Ceará (PMCE). A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) também lançou nota afirmando que repudia e que tomará providências sobre o caso.

Caso de Alagoas

Em um grupo de oficiais no WhatsApp, uma fotografia da tenente-coronel Camila Paiva, de biquíni, foi exposta e um major comentou que a oficial gosta de "rola" (órgão sexual masculino). Outros policiais foram em defesa da coronel, a publicação foi apagada, mas ficou registrada e ela recebeu os prints das respectivas mensagens. A oficial denunciou o major à corregedoria da PM de Alagoas e expôs o caso nas redes sociais.