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O que Bolsonaro e Haddad propõem para a política externa

| PRESIDENCIÁVEIS | Analistas debatem pontos centrais nos planos dos presidenciáveis

01:30 | 19/10/2018

As propostas dos candidatos à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) para a política externa colocam o País entre um "novo Itamaraty" e uma retomada da "política altiva e ativa", implementada durante o governo Lula. A reportagem do O POVO conversou com especialistas sobre os planos dos presidenciáveis.

 

Segundo o analista político Pedro Fassoni, o programa internacional de Bolsonaro é "muito parecido" com o das gestões de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). As semelhanças apontadas se devem ao discurso identificado com os interesses dos Estados Unidos e à crítica aos regimes de esquerda na América Latina.

 

Para Marília Closs, pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), debater os planos dos presidenciáveis é fundamental uma vez que "a política externa tem impactos domésticos, principalmente no campo econômico". Diante da importância distinta dada ao tema por cada um dos candidatos, certos aspectos se sobressaem em ambos os programas.

 

Entre as propostas do ex-prefeito de São Paulo, estão a integração da América Latina e a chamada cooperação Sul-Sul (entre países em desenvolvimento, hoje chamados Sul Global).

 

O texto indica ainda que serão priorizados incentivos aos fundos monetários do Mercosul e da Unasul. De acordo com a especialista do Iesp, o foco no "multilateralismo" presente no programa de Haddad expressa a volta do Brasil como "um líder e ativista" em fóruns internacionais.

 

Do outro lado, o plano do candidato do PSL busca "um novo Itamaraty". O militar da reserva propõe que, se eleito, o governo brasileiro deixará de "louvar ditaduras assassinas" e de "atacar democracias importantes" como Estados Unidos e Israel. Também afirma que não fará mais acordos comerciais "espúrios" ou "entregará o patrimônio nacional para ditadores internacionais".

 

Para Marília, a defesa de um livre comércio com os Estados Unidos parece "um contrassenso e um anacronismo" do presidenciável. Ela salienta que o governo de Trump tem se mostrado fechado para os países latino-americanos. Nesse cenário, diz ela, se faz necessária uma "concepção coerente" quanto aos outros países, percebendo questões como a disputa tarifária entre Estados Unidos e China para "evitar a desindustrialização brasileira".

 

A defesa nacional não é citada por Bolsonaro no capítulo destinado à política externa. O programa do PSL destaca, em outro tópico, maior integração entre órgãos militares e de segurança pública no combate a "todos os tipos de violência". Em contraposição, Haddad propõe investimentos para Forças Armadas reassumirem o papel constitucional de defesa da Pátria contra ameaças externas.

 

Sobre o assunto, Murilo da Costa, cientista político do Observatório Político Sul-Americano, avalia que Fernando Haddad demonstra "maior consistência e clareza no reforço do papel constitucional e democrático da atuação das Forças Armadas".

 

Para ele, é preocupante que a prioridade de Jair Bolsonaro seja a participação militar na segurança pública. "Essa proposta, além de inconstitucional, nos remete à recente intervenção militar no Rio de Janeiro. Ali a atuação de soldados em uma atividade que não lhes cabe tem gerado uma banalização da violência", conclui.

 

MARCELA TOSI