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A lista cearense de GEISEL

Família de frei Tito cria grupo no Ceará para acompanhar os desdobramentos relaciondos à lista de Geisel. Três cearenses morreram ou desapareceram após autorização do presidente para matar inimigos da ditadura

01:30 | 15/05/2018

 

Dona Benedita Pinto de Castro não teve tempo de saber do paradeiro do filho Antônio Teodoro de Castro nem de enterrá-lo dignamente. Anos antes de falecer (2003), a funcionária pública mantinha o hábito de servir o almoço de todos os nove filhos, inclusive o de Teodoro ou Teó – desaparecido durante a Guerrilha do Araguaia. Segundo as lembranças da empresária Sandra de Castro, 55, irmã do cearense considerado um dos inimigos da ditadura militar (1964-1964), a mãe passou anos guardando o prato de Teodoro no forno do fogão. “No outro dia, jogava fora. Vi-a chorar muito”, conta.

 

Teodoro de Castro é um dos três cearenses que morreram ou desapareceram após o então ditador do Brasil, presidente Ernesto Geisel (1974-1979) autorizar, a partir de 11/4/1974, a execução de “subversivos e terroristas”. Um memorando da CIA, a Agência de Inteligência Americana, revelado na semana passada pelo pesquisador Matias Spektor (FGV), mostra que Geisel deu o aval para as execuções planejadas pelos generais João Baptista Figueiredo, Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton.

 

Além de Teodoro também morreram, após o documento articulado entre a CIA e o governo de Geisel, o comunista Pedro Jerônimo de Sousa (PCB) e o frei Tito de Alencar Lima. Segundo Lúcia Rodrigues Alencar, sobrinha do religioso dominicano e diretora do Instituto Frei Tito, no Ceará foi criado o Grupo de Trabalho Memória e Verdade para acompanhar os desdobramentos de mais este capítulo da ditadura fundada em 1964.

 

Frei Tito, preso e torturado a partir da prisão em 1969, foi exilado em 1973 na França, onde se suicidou. Mas a morte é envolta em mistério e perturbações psicológicas do dominicano por causa da perseguição do delegado Sérgio Paranhos Fleury, que o prendeu e o levou ao limite do martírio.

 

Já Pedro Jerônimo, capturado em 11/9/1975 por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), foi morto dias depois em um quartel do Exército em Fortaleza. Durante a tortura, um dos militares quebrou o pescoço de Jerônimo com uma haste de aço. À família, a Polícia Federal informou que o comunista havia se suicidado na cela com uma toalha de rosto. O advogado Pádua Barroso desfez a farsa e provou a execução.

 

Para Sandra de Castro, que tinha sete anos quando Teodoro foi embora de Fortaleza (1970) para se integrar à resistência armada, enquanto os governos não decidirem “desembrulhar de vez” o que aconteceu na ditadura o Brasil permanecerá no limbo da desconfiança e da culpa. “As energias não fluirão daqui. As pessoas que desapareceram precisam descansar o espírito. Sequer foram enterradas como deveriam”, diz.

 

Até hoje, duas irmãs de Sandra permanecem na busca pelos restos mortais de Teodoro – segundo mais velho numa família de nove irmãos. Maria Eliana e Maria Merces dedicaram parte da vida a procurar pelo estudante de Farmácia da Universidade Federal do Ceará (UFC) que foi para o Araguaia.

 

A história revelada pelo pesquisador Matias Spektor, na avaliação de Sandra de Castro, foi apenas uma confirmação do que já acontecia no País desde 1964 quando os militares deram um golpe e assumiram o poder. “Para quem é parente de um desaparecido político é um horror viver no sobressalto de notícias assim. Passamos a reviver muita coisa ruim e não há um ponto final”, afirma.

 

Sandra de Castro conta que na mãe, dona Benedita, nos irmãos e no pai Raimundo de Castro Sobrinho restaram consequências profundas. “Cada um a sua maneira. Meu pai silenciou. Minha mãe era a espera”, ressente. Vivia, segundo Sandra, achando que ele voltaria da Bélgica onde teria ganhado uma bolsa de estudos. Justificativa que Teodoro criou para não revelar sobre o Araguaia. “Os agentes da ditadura eram tão ruins que, após o matarem, espalharam que ele estava bem na Europa. Mamãe vivia correndo atrás de boatos”, recorda.

 

Três vítimas

 

Pedro Jerônimo de Souza

Foi morto em 1975, após ser preso, em 11/9, por agentes da Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Sete dias após sua prisão, a família do militante do Partido Comunista do Brasil (PCB) recebeu a informação de que ele havia se suicidado com uma toalha de rosto em uma cela. Na verdade, ele foi executado por estrangulamento com uma haste de ferro.

 

Antônio Teodoro de Castro

 

Integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e desaparecido durante a Guerrilha do Araguaia. Ferido em 30/9/1972, ele teria sido executado e enterrado ou em 25/12/1973 ou 27/2/1974. Seu corpo teria sido enterrado a cinco ou seis quilômetros da Base do Mano Ferreira/cemitério clandestino da Base da Bacaba – Brejo Grande do Araguaia (PA).

 

Tito de Alencar Lima, frei Tito

 

A morte do dominicano cearense aconteceu em 10/8/1974, em Éveux, na França. Ele teria se suicidado em território francês, durante experiência no exílio por causa de prisão e torturas a partir de 4/11/1969. Teria entrado na lista de Geisel por causa das perseguições protagonizadas pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury.

 

DEMITRI TúLIO