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Mais justiça, menos cemitério

01:30 | 09/01/2018

Passado um ano da gestão do delegado André Costa à frente da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o Ceará se vê diante da maior quantidade de assassinatos de sua história e do surgimento da figura dos “refugiados urbanos” nas periferias de Fortaleza, ou seja, de levas de famílias inteiras expulsas de suas residências a mando de facções criminosas. A política do confronto aberto, representada pelas numerosas operações policiais realizadas ao longo dos últimos doze meses, tem-se mostrado de pouca eficácia para estancar o processo de “colombização” que se desenha em um horizonte não tão distante. A partir da experiência desse país sul-americano podemos compreender o que ocorre atualmente, bem como identificar possibilidades de superação desse cenário de desesperança crescente.

 

Nas décadas de 1980 e 1990, a Colômbia assistiu ao reinado dos cartéis de traficantes de drogas que impunham o terror à população e desafiavam o Estado por meio da realização de atentados contra policiais e políticos. Os sequestros e os assassinatos dispararam no período, com taxas de homicídios de 80 mortes por 100 mil habitantes. Com a decadência dos chefões colombianos, os cartéis mexicanos assumiram o protagonismo no comércio de drogas e no uso da violência como forma de demonstração de poder. Coincidência ou não, um dos chefes da organização criminosa mexicana Jalisco Nova Geração (CJNG) foi preso em Fortaleza enquanto estava de férias.

Embora não seja um território de produção de cocaína, o Ceará ocupa um espaço privilegiado no mapa internacional do tráfico. Se antes o Estado era um corredor de passagem para a Europa, hoje ele se tornou um imenso centro de distribuição e consumo. E é em torno desses polos que se organizam as facções. Se os investimentos feitos em inteligência e na investigação criminal foram fatores determinantes na prisão dos barões do tráfico e consequente desarticulação dos cartéis na Colômbia, é preciso aprofundar o conhecimento que temos sobre o funcionamento e a atuação de tais grupos. Como se estrutura essa entidade monolítica denominada “O Crime”? Quem são os responsáveis por todas essas mortes e ações criminosas? Uma visão míope das gestões passadas sobre o assunto fez com que essa atividade criminal se organizasse de modo inédito nas periferias. Não é mais possível que isso continue ocorrendo.

 

Alternativas

No que tange à prevenção, a construção de uma cultura cidadã, capitaneada pelo poder municipal, é apontada como um fator de sucesso na redução da criminalidade em cidades como Bogotá e Medellín. A recuperação dos espaços urbanos e um novo modo de se apropriar da cidade são exemplos disso. Bibliotecas, escolas e ciclovias foram criadas em áreas de maior vulnerabilidade à violência aumentando a sensação de autoestima e pertencimento das comunidades. Em vez disso, o que vemos em um bairro de periferia, como o Jangurussu, é a construção de uma torre com atiradores de elite que lembra mais um simulacro de campo de concentração. Não é tratando a população como uma inimiga em potencial, mas sim como aliada, que o quadro de insegurança será revertido.

 

A experiência da Colômbia revela que a sociedade civil também tem sua cota de responsabilidade e é um agente importante em todo esse processo de redução de violência. Contudo, o que se vê atualmente de nossas lideranças, nos mais diversos setores, é um silêncio sepulcral sobre o que ocorre nos territórios dominados por grupos criminosos. Por exemplo: qual a posição da cúpula da Igreja Católica no Estado sobre a ação das facções? Que trabalho as igrejas evangélicas vêm desenvolvendo na construção de uma convivência mais pacífica em tais locais? A violência no México foi tema de uma fala contundente do Papa Francisco durante visita àquele país. O que nossos líderes religiosos e políticos teriam a dizer?

 

Na semana passada, o secretário André Costa empregou novamente a metáfora do cemitério para defender a atuação da PM em Orós, como resultado de uma política de “linha dura com ações legítimas, dentro da legalidade”. Embora tal postura deva ser um padrão a ser seguido pelas forças de segurança, ela sozinha não está sendo suficiente para lidar com o complexo problema da criminalidade no Estado. Para sair da encruzilhada em que estamos metidos, como se vê, será preciso mais justiça e menos cemitério.

 

 

Ricardo Moura

ricardomoura@opovo.com.br