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É preciso respeitar o voto em branco

00:00 | Out. 28, 2018
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Tipo Notícia

Em vez de muito barulho, silêncio. No lugar de defesas efusivas, alguma contrição. O cenário posto para a eleição deste domingo, 28 de outubro de 2018, requeria minimalismo nos gestos do distinto público eleitor. Por diferentes razões. Aqueles que estarão nas urnas hoje portam como principal trunfo ser antídoto para o outro. E se assumem como tal.

 

Soa um tanto constrangedor ver gente com boa titulação ou pelo menos bem alfabetizada a se esgoelar na defesa de Bolsonaro. Tanto quanto é maçante ouvir o discurso panfletário de quem defende Haddad sem as devidas cerimônias que a história exige.

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Enquanto Bolsonaro convergiu em torno dele o voto de quem não suporta a desfaçatez petista após quatro vitórias seguidas e um rosário de escândalos e prisões, Haddad encarna o papel do herói capaz de salvar a todos do vilão a ameaçar a democracia. Em nome do que podem evitar, procuram convencer não serem tão maus assim. E não passam disso.

 

Bolsonaro tem carisma entre aqueles que lhe interessam. Haddad tem carisma entre aqueles que já são dele. Esta carência do ex-prefeito explica em boa medida o porquê de seu desempenho aquém. O capitão é autêntico naquilo em que acredita, até nas demonstrações de pouco apreço pela democracia. Já o professor divide trincheira com o comparável desprezo manifestado por um dos bastiões do seu partido, o ex-ministro José Dirceu. Este afirmou em entrevista ser "uma questão de tempo" a tomada do poder pelos petistas, a despeito das eleições.

 

Os dois lados dispararam torpedos contra órgãos de imprensa. Bolsonaro fez ameaças a jornais e emissoras de TV não alinhadas, como Globo e Folha de S. Paulo, em clara tentativa de intimidação. Já o PT carrega debaixo do braço o sonho do "novo marco regulatório das comunicações", também conhecido como "controle da mídia". Ou ainda censura, como queira. Noutros termos, ambos encarnam incertezas próprias ou de um grupo ao qual pertencem. A favor de Bolsonaro, ser tudo em si próprio. Haddad não chega a tanto.

 

Contra Bolsonaro pesam no cerne do discurso dos petistas, sobretudo, suas posições de encontro às chamadas minorias. Transformam em principal ameaça a indiferença dele sobre uma série de temas sagrados para os chamados movimentos sociais, de mulheres e LGBTs, por exemplo. Com alguma ingenuidade, fizeram destes pontos a base das provocações também nas pautas jornalísticas antes e durante a campanha. Tudo o que ele queria.

 

Era batata. Onde houvesse um microfone, reafirmava as opiniões pessoais sem ter de enveredar por temas áridos e bem mais importantes para todos os gêneros, cor de pele e estados de origem: reforma da previdência, déficit público, pacto federativo, SUS, política de desenvolvimento regional, educação, ciências e tecnologia e tantas outras.

 

Em 23 de setembro, a Coluna dizia: "Os movimentos organizados contra Bolsonaro são pouco eficientes desde o princípio. A permanência do capitão na liderança em todas as pesquisas ratifica isto. Nem cócegas". Falava da estratégia pífia do PT traduzida nas pesquisas ao longo da corrida.

 

Por tudo isso, é preciso respeitar o voto em branco em uma eleição como a de hoje. Com que direito, para além da retórica de campanha, se pode acusar alguém de omissão ou algo que o valha porque este alguém não aceitou fazer uma escolha destas? Apenas respeitar.

 

Apesar de tudo que vivemos nesta campanha, há uma virtude em meio a todo o lodo. Nos últimos anos o Brasil começou a experimentar a emersão de novos pensamentos, inclusive entre os jovens. Para além da esquerda onipresente, novas linhas emergiram, como o pensamento liberal na academia, nas tribunas e nas ruas, sem medo de assumir como tal. Em comum, as diferentes linhas de pensamento têm o Brasil como foco. O País ganha com este confronto de ideias. Com este.

 

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