Fim da pandemia? Médicos avaliam atual cenário de Covid-19 e as lições que ficam
Na última semana, o diretor-geral da OMS declarou que o fim da pandemia de Covid-19 já pode ser vislumbrado. O POVO conversou com especialistas para entender essa conjuntura otimista
Passados 30 meses desde que a pandemia de Covid-19 foi reconhecida, autoridades internacionais na área da saúde começam a vislumbrar um momento de real controle da doença. No último dia 14, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, afirmou que já é possível enxergar o fim da pandemia, mas que ela ainda não terminou.
Boletins semanais da organização mostram que os registros mundiais de novos casos de Covid-19 estão em queda sustentada há pelo menos oito semanas. Já os óbitos semanais causados pelo coronavírus caem sustentadamente desde junho.
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Para Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz, o mundo está “caminhando pro fim da pandemia sim, principalmente pela redução importante do número de óbitos, mesmo com o surgimento de novas subvariantes. “Nós também entendemos que no cenário atual a gente vai ter vacinas atualizadas; já foram anunciadas, tanto pelo Moderna como pela Pfizer, as vacinas bivalentes que têm variante original e a variante que está circulando (a BA.4/BA.5,) o que de alguma forma contribui para a recuperação da proteção”, afirma.
Ele atribui a superação da pandemia às vacinas. “A pandemia só vai chegar ao fim quando a carga da doença for reduzida através da vacinação para toda a população mundial. E isso ainda não ocorreu”, aponta, lembrando que o continente africano é o que recebeu menos doses.
Segundo a plataforma Our World in Data, 62% da população mundial receberam duas doses do imunizante. Na África, são 23%. Oceania, América do Norte, Europa, Ásia e América do Sul têm, respectivamente, 63%, 65%, 66%, 72% e 77% de suas populações vacinadas com o esquema básico.
“Nas últimas semanas o número de casos de Covid-19, o número de exames positivos e as hospitalizações têm tido uma tendência à estabilidade e à queda sustentada. Dessa forma configura-se um cenário mais otimista com relação à gravidade da pandemia”, analisa Lauro Perdigão, infectologista do Hospital São José e vice-presidente da Sociedade Cearense de Infectologia.
Para ele, no entanto, é importante lembrar que a transmissão da Covid-19 é eficaz. "Mesmo que a gente esteja vivendo uma nova perspectiva, é importante manter-se vigilante sobre a sobre transmissão da doença", detalha.
A epidemiologista Ligia Kerr chama a atenção para o fato de que os números de casos e, especialmente, de mortes terem sido altos. “Mais de um quarto (478 mil) dos óbitos mundiais ocorreram nos Estados Unidos, país cujo presidente ‘declarou’ estar livre da pandemia. Este número é maior do que o que ocorria em julho de 2021 (168 óbitos por dia) e maior que em junho de 2022 (258 óbitos por dia)”, detalha.
“Este término precisa ser discutido”, enfatiza Kerr. “Não devemos naturalizar a infecção, mas sim a prevenção. Portanto, devemos ser cautelosos. Esta não é uma doença com a qual devemos brincar.”
Também epidemiologista, Marcelo Gurgel entende ser factível a perspectiva de fim da pandemia. Ele entende que a chamada imunidade coletiva parece ter sido alcançada. Os avanços da Ciência e a incorporação de hábitos de higiene respiratória são parte desse caminho otimista. “Essa pandemia foi maior que anteriores, o vírus se transmitiu mais rápido, mas ao mesmo tempo reagimos rápido. E hoje estamos melhor preparados para futuras crises sanitárias”, diz.
Como será o futuro?
Entre os especialistas, há alguns consensos para os próximos meses e para o pós-pandemia: cuidados individuais e coletivos devem ser mantidos. Do uso de máscaras em ambientes aglomerados e fechados à cobrança pela disponibilidade de vacinas e antivirais, o mundo pós-Covid-19 já é outro.
“As lições que a Covid-19 trouxe vão ser incorporadas acredito que permanentemente”, afirma Perdigão. “Os hábitos foram incorporados, o uso de máscara passou a ser de conhecimento e de prática universal, a importância da higiene de mãos como mecanismo de proteção contra as doenças, o cuidado com o distanciamento social, além disso a busca por diagnóstico diante de uma infecção respiratória”, cita.
Para Croda, “a vida do novo normal será muito provavelmente a necessidade de vacinações de dose de reforço, talvez com as vacinas de RNA atualizadas a cada ano para as variantes que estão circulando no momento”.
Kerr lembra que alguns pesquisadores discutem que o momento de passar da fase de pandemia para uma fase de “baixa endemia” seria, idealmente, feito por meio de um processo inclusivo e participativo. “Afinal, a pandemia não foi só a infecção e as mortes trazidas diretamente por ela, mas o aumento da desigualdade”, diz. “E mais, pouco se está discutindo as verdadeiras causas da pandemia, que foram, em grande parte, resultado da destruição de vários biomas.”
Números da Covid-19 no mundo
Entre 12 e 18 de setembro, mais de 3,2 milhões de novos casos foram relatados no mundo, sendo similar ao total da semana anterior. O número de novas mortes semanais diminuiu 17% em relação à semana anterior, com mais de 9.800 mortes relatadas.
Até essa quinta-feira, 22, a OMS registra 610.866.075 casos confirmados de Covid-19, incluindo 6.510.139 mortes, conforme dados enviados por autoridades nacionais à organização.