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Coronavírus
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Quem já teve Covid precisa se vacinar? Por que vacinados têm Covid? Infectologista tira dúvidas

Para que a proteção aconteça de maneira efetiva, é preciso que a vacinação aconteça de forma massiva, com imunização de cerca de 70% da população

Leonardo Maia
19:41 | 09/06/2021
A médica é formada pela USP e tem mestrado pela Univesidade de Yale, nos Estados Unidos. (Foto: Divulgação/Hapvida)
A médica é formada pela USP e tem mestrado pela Univesidade de Yale, nos Estados Unidos. (Foto: Divulgação/Hapvida)

Desde os primeiros casos de Covid-19 no mundo, a esperança da descoberta de uma vacina contra a doença tem sido um alento para a comunidade científica e a sociedade. O processo de imunização, que começou no Ceará no dia 18 de janeiro deste ano, é o único método conhecido atualmente para retomar a vida que conhecíamos antes do início da circulação do vírus, ou algo próximo disso.

Para que a proteção seja realmente efetiva, no entanto, é preciso que a vacinação seja feita de forma massiva, como demonstraram os resultados obtidos na cidade de Serrana, interior de São Paulo. A partir disso surge um problema: as pessoas que, baseadas em informações falsas, desconfiam da eficácia das vacinas e se recusam a tomá-las.

Com uma série de imunizantes fabricados ao redor do mundo, há uma série de dados e estatísticas que, ainda que obtidos por estudos científicos referenciados, podem se tornar base para a desinformação, conhecida como fake news. Além disso, ainda existem outros problemas, como o preconceito contra os chineses e os ataques políticos contra os imunizantes, especialmente em núcleos bolsonaristas.

Para esclarecer algumas dessas dúvidas, O POVO conversou com a médica infectologista Silvia Fonseca, diretora corporativa de infectologia do Sistema Hapvida. Ela é formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e é mestre em epidemiologia de doenças infecciosas pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

Durante a entrevista, a pesquisadora enfatizou que as vacinas já se provaram solução eficaz para doenças infecciosas, como a varíola, o sarampo e a poliomielite. Ela ainda ressaltou que os imunizantes disponíveis atualmente são seguros e podem ser tomados pela população sem preocupação. Leia a entrevista na íntegra:

O POVO - É verdade que as pessoas que já tiveram Covid-19 não precisam se vacinar?

Silvia Fonseca - A recomendação é que mesmo quem já teve Covid precisa tomar a vacina, porque uma porcentagem pequena das pessoas podem ter a doença mais do que uma vez. Ainda sabemos que, com o passar do tempo, os anticorpos que a pessoa criou com a doença vão diminuindo, o que deixa ela possivelmente suscetível a pegar (Covid) de novo. Se a pessoa pegar Covid-19 agora, a orientação é que ela espere um mês para poder se vacinar.

Essa recomendação pode ter a ver com as variantes, porque as vacinas que estão disponíveis têm se mostrado eficazes para as variantes que a gente já descobriu. De todo modo, é muito bom que a gente vá imunizando as pessoas, porque elas ficam protegidas das cepas atuais e de possíveis variantes que ainda possam surgir. Esse é um conhecimento científico da atualidade. Isso pode mudar, mas hoje tudo que cientificamente conseguimos entender faz com que a gente oriente as pessoas a tomarem a vacina mesmo que elas já tenham tido Covid.

OP - No caso da Coronavac, por exemplo, a eficácia geral da vacina foi divulgada como 50,4%. O que isso significa? A vacina funcionaria como um “cara ou coroa”?

Silvia - Não. Quando a gente fala de eficácia, temos que lembrar que essas são vacinas testadas, seguras e que promovem aquilo que a gente gostaria de ver: o corpo fazendo anticorpos. A melhor peça científica que a gente tem para essa vacina da Coronavac é esse experimento feito agora na cidade de Serrana (SP), onde toda população foi vacinada. O que isso demonstrou? Quando 75% da população já tinha recebido as duas doses de vacina, as infecções graves sumiram e as mortes por Covid acabaram.

A gente precisa distinguir que é possível a pessoa entrar em contato com o vírus e ter a infecção, mesmo que tenha recebido duas doses de qualquer uma das vacinas que a gente tem disponível. Mas a doença vai ser muito mais branda e mais leve. Em termos de barrar a infecção, as vacinas que nós temos hoje não são 100% eficientes. Mas são muito boas para barrar infecção grave, que leva a pessoa a precisar de leito hospitalar ou até que morra. Por isso que países e locais que conseguiram vacinar sua vacinação viram as internações e mortes por Covid desaparecerem. E é isso que a gente quer.

OP - O chamado “tratamento precoce” pode ser uma alternativa à vacinação?

Silvia - As vacinas são a melhor maneira de prevenção de infecções, principalmente respiratórias. Temos o exemplo da gripe, que acontece todo ano, e ela até tem um medicamento que ajuda a diminuir os casos graves, o Tamiflu. Mas ainda assim, com a gripe — e todas as outras doenças infecciosas — é muito melhor dar a vacina, e a pessoa não adquirir a doença ou adquirir uma forma leve, do que depois tentar tratar. Sabe aquela coisa de que prevenir é melhor que remediar? Isso serve para todas as doenças infecciosas.

As vacinas são um presente para a humanidade e todas as vacinas: gripe, sarampo, paralisia infantil, coqueluche... e hoje também as vacinas do coronavírus. As vacinas existem desde o século XVIII e foram responsáveis por diminuir a varíola e até eliminá-la da face da Terra. A varíola era uma doença infecciosa que passava pelo ar e cegava as pessoas, deixava desfiguradas pelo resto da vida e até matava. Ela aparecia em surtos epidêmicos e foi eliminada com vacinas.

A paralisia infantil também vinha em formas epidêmicas. Havia epidemias que muitas crianças morriam, acabavam tendo que ficar com ventilação para sempre ou elas ficavam com sequelas, principalmente nas perninhas para o resto da vida. E tudo isso a gente parou de ver por causa das vacinas. Ainda existe o vírus do sarampo, outro vírus que deixava as crianças cegas e surdas, mas graças à vacinação maciça das crianças a gente para de ver a doença. Quando para de vacinar, volta o sarampo.

Com exceção da varíola, todos esses outros micro-organismos continuam existindo na natureza. Por isso que a gente deve insistir em continuar com a vacina, para tudo que tiver vacina. E no caso da Covid-19, que é uma infecção que para algumas pessoas é muito simples e para outras leva à hospitalização ou morte, é muito bom que já tenha uma vacina que possa proteger. E além disso, como o vírus está circulando e nem todo mundo foi vacinado, a gente precisa manter distanciamento social, higienização das mãos, uso de máscara. É muito importante que você passe a ressaltar isso: as vacinas são seguras, são boas... mas até que o vírus pare de circular, essas outras medidas (não farmacológicas) são muito necessárias.

OP - Há algum problema em tomar a vacina da gripe logo após da Covid-19 ou vice-versa?

Silvia - A gente tá orientando as pessoas para não tomarem as duas vacinas no mesmo dia, o melhor é tomar uma e esperar 15 dias para tomar a outra. Como a vacina da Covid tá sendo agendada, tá mais difícil, chegou seu dia de tomar, você vai lá e toma. E depois de 15 dias, toma o imunizante da gripe, que pode ser tomada por qualquer pessoa acima de seis meses de idade.

A vacina da gripe deve ser tomada todos os anos pelos grupos que têm risco de terem uma gripe mais forte, que leva à pneumonia, internação e morte. Faz 20 anos que a gente tem no Programa Nacional de Imunização (PNI) a vacina da gripe oferecida gratuitamente para as pessoas de risco, mas qualquer pessoa pode tomar. Os grupos de risco para a gripe forte devem tomar a vacina todos os anos para que a possibilidade de maiores complicações diminua, mas ela ajuda em todas as faixas etárias.

Hoje, a gente também tem a vacina da Covid e começamos pelos grupos que têm a chance de ter a infecção mais grave, que são praticamente os mesmo da gripe. Iniciamos pela pessoas de muita idade, agora estamos vacinando pessoas com comorbidade... ou seja, condições que as pessoas têm que aumentam a chance de ter uma doença mais grave.

OP - Há algum problema em beber álcool após receber a vacina da Covid-19?

Silvia - Até onde eu entendo, não existe uma interação negativa, ou seja, tomei a vacina e não posso beber. Eu desconheço isso. O que eu só aproveito o espaço para recomendar é que as pessoas usem o álcool com muita moderação e de jeito nenhum com menor de idade. De uma maneira geral, a gente tem que olhar com muito critério a história da bebida, com ou sem vacina.

Eu sempre falo para as pessoas que não é para ficar bebendo, de qualquer jeito (risos). O álcool causa uma destruição do fígado, como médica eu já vi muita gente jovem tendo cirrose, que é uma destruição irreversível do fígado, então a gente tem que ter muito cuidado com o álcool. Ele ainda está associado com o distúrbio de comportamento que ele causa, com tanto problema, com os acidentes de trânsito, mortes, brigas... as pessoas perdem o senso crítico e fazem coisas que depois não tem volta.

OP - Há uma tese de que o novo coronavírus teria sido criado em um laboratório chinês, como uma questão mercadológica para vender vacinas posteriormente. O que podemos falar sobre isso?

Silvia - Podemos mostrar que o vírus veio de um animal, nós sabemos que ele veio do morcego. Eu acho bem improvável que a gente tenha uma manipulação genética, não é por aí que os cientistas estão raciocinando. As pessoas que repetem isso não tem o conhecimento científico, de saber que é uma coisa que acontece, de que vírus que vivem em animais acabam entrando em contato com a gente e se adaptando.

Por exemplo, isso aconteceu em 2019, com uma variante da Influenza. Um pedacinho do vírus de suíno, um pedacinho de aves e um pedacinho de humanos se combinaram e fizeram a H1N1, que deu aquele problema todo. Na natureza, isso acontece, é um fenômeno natural. Seria muito complexo fazer isso acontecer de maneira artificial, em laboratórios. E acho que ninguém teria o alcance para fazer isso, espalhar o vírus... acho que é bastante improvável essa teoria.

A gente faz ciência há tantos anos e vai aprendendo o que existe no mundo. Toda vez que o vírus que habita outros animais acaba entrando em contato com o homem, vai resultar em uma doença bem diferente, por que o humano não está acostumado com aquele microrganismo. Isso acontece com outros vírus, e aconteceu com esse, da família coronavírus. A gente tá muito habituado com outros vírus dessa família, só que esse veio do morcego e na hora que ele acabou passando para os humanos, provavelmente por meio de um outro animal intermediário, ele se adaptou muito bem. As respostas que esse organismo tem contra ele podem ser muito variadas, e resultar desde um “resfriadinho”, até uma infecção fatal.

OP - É verdade que as vacinas contém células de fetos abortados?

Silvia - Isso não procede, é só entender como as vacinas são produzidas. A vacina é feita com o vírus inativado — que causa a doença, mas morto. Não usamos células de fetos abortados para fazer nenhuma vacina, é só conhecer o processo de fabricação. Essa não é uma informação verdadeira.

OP - Como a senhora avalia o ritmo de vacinação e qual a importância de realizar a vacinação em massa?

Silvia - As vacinas são tão boas que o mundo inteiro quer vacinas. Eu não me lembro de nenhuma circunstância em que a gente precisou vacinar tanta gente ao mesmo tempo. Quando houve a erradicação da varíola, foi um processo que levou anos, a gente vacinou todas as pessoas da face da terra contra a varíola e isso foi nas décadas de 1970 até 1980, quando foi visto realmente que a varíola foi eliminada. Naquela época, a gente tinha muito menos habitantes na Terra e ainda assim levou muitos anos.

O que nós estamos vivendo agora é uma procura muito grande, que está muito acima da capacidade produtora de vacinas, e isso é no mundo inteiro. Cientistas estão cada vez mais estudando maneiras de acelerar essa produção, para que não só a gente no Brasil, mas todas as pessoas na face da Terra consigam receber suas vacinas. Não adianta controlar Covid em um país, hoje o mundo não tem fronteiras. Nós estamos a poucos voos de distância do outro extremo do globo. Todo mundo tem que ser vacinado, a minha torcida é que a gente consiga cada vez mais descobrir maneiras de aumentar a produção para que todas as pessoas sejam imunizadas, o quanto antes.