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Coronavírus
NOTÍCIA

Expectativa de vida no Ceará pode reduzir 2 anos por conta da pandemia

O impacto no índice varia de acordo com a realidade de cada região, refletindo as desigualdades entre elas. No Nordeste, entre os estados mais afetados, ao lado do Ceará, estão Sergipe (redução estimada de 2,21 anos) e Pernambuco (2,01)

Gabriela Custódio
18:13 | 19/04/2021
FORTALEZA, CE, BRASIL, 18.04.2021: Movimentação na Beira Mar nas proximidades do Nautico após a novo decreto que permite atividades fisicas em ambientes abertos (Foto: Thais Mesquita/OPOVO) (Foto: Thais Mesquita)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 18.04.2021: Movimentação na Beira Mar nas proximidades do Nautico após a novo decreto que permite atividades fisicas em ambientes abertos (Foto: Thais Mesquita/OPOVO) (Foto: Thais Mesquita)

Após décadas de crescimento constante, a expectativa de vida dos brasileiros poderá sofrer queda por conta da pandemia de Covid-19. Estudo liderado pela pesquisadora brasileira Marcia Castro, do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, estima que a redução pode ser maior que três anos e meio, dependendo da região. Olhando-se especificamente para o Ceará, a estimativa é que a queda seja de 2,09 anos — de 74,68 anos para 72,59 anos.

No cenário nacional, a queda da expectativa de vida pode ser de quase dois anos (1,94), em média. Caso a projeção seja oficialmente confirmada, essa será a primeira redução no indicador nacional desde 1940, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em versão pré-print — ainda sem revisão pelos pares — o trabalho Reduction in the 2020 Life Expectancy in Brazil after Covid-19 utiliza dados do Ministério da Saúde (MS) sobre o número mortes já registradas no País pela Covid-19 em 2020 e foi submetido para publicação na MedRxiv, da Universidade de Yale.

O impacto no índice varia de acordo com a realidade de cada região, refletindo as desigualdades entre elas. Alguns fatores que interferem são infraestrutura, números de médicos e leitos hospitalares. A região Norte, por exemplo, é a mais afetada, e lá as piores situações são a do Amapá (redução de 3,62 anos, de 74,88 para 71,26 anos), a de Roraima (recuo de 3,43, de 72,69 para 69,26) e a do Amazonas (menos 3,28, de 72,81 para 69,53 anos).

O Nordeste também sofreu um impacto importante, e entre os estados mais afetados estão Sergipe (redução estimada de 2,21 anos), Ceará (2,09) e Pernambuco (2,01). No Sudeste, por sua vez, a situação mais grave é a do Espírito Santo (perda estimada de 3,02 anos), seguido de Rio de Janeiro (2,62) e de São Paulo (2,17).

Na região Sul, as estimativas de perda de expectativa de vida estão abaixo dos dois anos para os três estados. Já o local mais afetado, segundo a pesquisa, é o Distrito Federal com uma redução estimada de 3,68 anos — de 79,08 anos para 75,40.

"Essas diferenças, em grande parte, eram esperadas pois refletem as desigualdades regionais, no que diz respeito ao número de médicos, de leitos hospitalares, infraestrutura. No Amazonas, por exemplo, todos os leitos de UTI estão concentrados em Manaus", afirmou a demógrafa Márcia Castro ao Estadão. Alinhamentos políticos na tomada de decisão no enfrentamento à pandemia de Covid-19 também é um aspecto apontado por ela.

"A maioria dos governadores da Região Norte são apoiadores do governo federal e tomaram decisões muito alinhadas às da Presidência", afirma. "A Região Nordeste, a despeito de ter desigualdades comparáveis às da Região Norte, não teve uma perda de expectativa de vida tão grande, porque os governos adotaram mais medidas de prevenção. São vários fatores. Desigualdades importam, decisões políticas importam; é um mosaico complicadíssimo."

A expectativa de vida no Brasil ao longo do tempo

Em 1940, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era muito baixa, de 45,5 anos. Depois disso, com redução da mortalidade infantil e outros avanços da Medicina e do País, o número vem crescendo consistentemente. Em 1980, chegou a 62,5 anos e, no ano 2000, a 69,8. Atualmente, a expectativa de vida do brasileiro é de 76,6 anos. E essa queda não será pontual.

"Quando acontece um conflito, uma pandemia, algo severo assim, é comum ver esse declínio de expectativa de vida; foi assim na gripe espanhola e nas guerras mundiais", afirma a pesquisadora. "Mas se espera sempre que seja algo temporário, um ponto fora da curva, e logo depois tudo retorne à normalidade. No caso do Brasil, já estamos vendo que 2021 vai ser pior que o ano passado. Existem Estados que somam mais mortes agora do que ao longo de todo 2020, como Amazonas e Rondônia."

Atualmente, o Brasil ultrapassou as 373,3 mil mortes em decorrência de complicações da Covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde, atualizados às 18h30min do último domingo, 18. (Com Agência Estado)