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Coronavírus
NOTÍCIA

Com aumento nos indicadores da pandemia, cinco cidades do Ceará estão em lockdown

Municípios do Interior decidiram manter restrições apesar da flexibilização decretada pelo Governo do Estado

21:52 | 16/04/2021
Baturité, na região Norte, é uma das cinco cidades cearenses que estão em regime de isolamento social rígido (Foto: Júlio Caesar)
Baturité, na região Norte, é uma das cinco cidades cearenses que estão em regime de isolamento social rígido (Foto: Júlio Caesar)

Apesar da flexibilização para o retorno gradual das atividades comerciais no Ceará — trazida pelo último decreto do Governo do Estado, cinco prefeituras do Interior mantiveram comércio e demais atividades não essenciais fechados para conter o propagação do novo coronavírus. A medida foi adotada em Capistrano, Baturité e Pacoti, na região Norte, e em Antonina do Norte e Santana do Cariri, no Sul do estado. Os municípios têm em comum um cenário de piora dos principais indicadores da pandemia, enfrentando crescimento nas taxas de transmissão, ocupação de leitos hospitalares e no número de óbitos causados pela Covid-19.

Em Santana do Cariri, cidade com pouco mais de 17 mil habitantes, houve aumento de 159% nos casos confirmados da doença num intervalo de 30 dias. Entre 16 de março e 15 de abril, 171 pessoas receberam diagnóstico positivo para a doença, enquanto nos trinta dias anteriores o número havia chegado a 66. O município soma 607 infectados e 16 mortes por complicações do vírus. Atualmente, há 145 casos suspeitos em investigação, número que reflete o aumento na procura por testes de detecção da Covid-19 na rede municipal.

“Fazíamos 50 exames por semana. Hoje, em média, são 50 testes por dia. A procura é cada vez maior e os índices de contaminação continuam altos”, disse o prefeito de Santana do Cariri, Samuel Cidade (MDB), ao ser perguntado pelo O POVO sobre os motivos para a manutenção das medidas mais restritivas no município.

A cidade caririense anunciou a continuidade do lockdown na última segunda-feira, 12, dois dias após o anúncio de flexibilização feito pelo governador Camilo Santana (PT). “Não há outra saída para frear a contaminação. Foi uma decisão amparada na ciência e deliberada pelos técnicos do Comitê Municipal de Enfrentamento à Covid”, justificou o gestor.

Além de proibir o funcionamento presencial das atividades não essenciais, o decreto assinado pelo prefeito santanense também veda a comercialização de bebidas alcoólicas, apontadas por ele como agravantes para a ocorrência de aglomerações. “A gente tem a certeza que quando inibe o consumo e a venda de bebida alcoólica, consequentemente diminuem as aglomerações. Durante o fim de semana, temos visto muitas pessoas se aglomerando em suas casas, o que, sem dúvidas, resulta num aumento considerável na contaminação”, afirmou.

Samuel Cidade disse ainda que “a proibição de bebidas impacta na diminuição dos acidentes de trânsito, fazendo com que os leitos hospitalares fiquem disponíveis para as pessoas acometidas pela Covid”. No município, que não dispõe de UTI, há 16 leitos de enfermaria ativos, dos quais sete estão ocupados. Entre os pacientes, dois aguardam vaga em leitos de terapia intensiva. No Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte, referência no atendimento a casos graves na região, e distante a 63 km de Santana, as 64 vagas de UTI já estão ocupadas.

Sem a expectativa de que o quadro epidemiológico da cidade melhore nos próximos dias, o gestor adianta que o lockdown — que inicialmente valeria até este domingo, 18, deve ser prorrogado por mais uma semana. “Tivemos uma reunião do comitê municipal na última quinta-feira, 15, e tudo indica que vamos prolongar [o decreto]. Essa decisão será publicada na próxima segunda-feira, 19”, revelou o prefeito.

Já em Antonina do Norte, onde o decreto de lockdown também teria vigência até domingo, a prefeitura informou que ainda não definiu se irá prorrogar a medida. Com cerca de 7 mil habitantes, a cidade tem 265 casos confirmados, o menor número entre os municípios cearenses. A estatística pode até parecer confortável, mas esconde algo preocupante: nos primeiros 15 dias de abril, a cidade registrou praticamente a mesma quantidade de casos que havia contabilizado durante mais de um ano de pandemia.

Até o fim de março, Antonina havia registrado 138 pacientes positivos. Na primeira quinzena de abril, foram 127 novos casos. “Esse é o momento de maior circulação viral já observado no município”, disse a prefeitura, em nota, ao comunicar o protelamento do isolamento social rígido no início desta semana.

Assim como Santana do Cariri, Antonina do Norte não dispõe de UTI. A cidade conta com apenas cinco leitos de enfermaria para atender pacientes com Covid-19, dos quais quatro já estão ocupados. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, desde o começo da crise sanitária, 14 moradores da cidade já perderam a vida em decorrência da infecção causada pelo novo coronavírus.

Bloqueio no Norte

Na região Norte, a adoção do lockdown pelas prefeituras de Capistrano, Pacoti e Baturité foi anunciada nos dias 13/04, 15/04 e 16/04, respectivamente. Nos três municípios, o decreto tem validade de sete dias.

O bloqueio total das atividades econômicas e religiosas, com permissão para funcionamento apenas das atividades consideradas essenciais, foi uma resposta das autoridades municipais ao alastramento do novo coronavírus nas três localidades.

Em Baturité, onde o isolamento rígido começou a valer nesta sexta-feira, 16, o número de casos confirmados entre janeiro e abril deste ano (932) quase iguala o total de registros contabilizados dos meses de março a dezembro de 2020 (986). As informações estão na plataforma Integrasus, gerenciada pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). A ferramenta ainda informa que, dos seis leitos de enfermaria ativos no município, quatro estão ocupados.

Os números são motivo de preocupação para o prefeito da cidade, Herberlh Mota (PL), que em entrevista ao O POVO, disse ter feito um "pedido de socorro” ao Governo do Estado para a ampliação da capacidade de atendimento hospitalar da rede municipal.

“Conversei com o Governador Camilo Santana e ele prometeu enviar na próxima semana o pessoal da secretaria de Saúde do Estado para avaliarmos a possibilidade de construir um hospital de campanha com mais 20 leitos clínicos. Foi um pedido de socorro, diante dessa situação crítica que nós estamos passando”, contou.

Em meio aos esforços para abrir mais leitos, o gestor também amarga os efeitos políticos negativos de uma medida considerada impopular por setores da sociedade. “Infelizmente é uma medida que não agrada, principalmente o pessoal do comércio, mas ela é extremamente necessária para o momento”, pontuou, afirmando ainda que nos últimos dias ele foi alvo de “muitas pressões”, mas que não pretende revogar a medida, vez que, segundo o prefeito, o decreto obedece a critérios técnicos e está amparado nos indicadores da pandemia e na avaliação dos profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate ao coronavírus

A 24 km de Baturité, no município de Pacoti, o cenário é praticamente o mesmo. O prefeito Marcos Gonzaga (PT) também enfrenta resistência dos comerciantes, mas afirmou que diante do avanço da pandemia e da enorme pressão sobre a rede hospitalar, o lockdown é inevitável. “Nosso serviço de saúde está colapsado. Infelizmente, diante do quadro grave, caótico, e por não podermos ter condições de atender as pessoas da forma como realmente seria necessário, nossa única alternativa foi essa. É uma medida para preservar a saúde e a vida dos pacotienses”, disse o prefeito.

Aos que criticaram a adoção do lockdown, Gonzaga respondeu com uma analogia: “não fico confortável em fechar a porta de um bar, de um comércio, ou qualquer que seja o estabelecimento, mas eu fico muito, muito mais triste, quando eu vejo fechar a tampa de um caixão com um ente querido nosso”.

Pacoti, que tem pouco mais de 12 mil habitantes, soma 750 casos confirmados e 10 óbitos em decorrência da Covid-19, segundo o Integrasus, que ainda aponta taxa de ocupação de 160% nos leitos de enfermaria do município (cinco vagas ativas + três leitos emergenciais).

Já em Capistrano, o último boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde, referente ao dia 15/04, informou aumento de 20% no número de casos confirmados. A estatística passou de 1.005 para 1.095 nos últimos 14 dias, número ainda considerado alto para um município de pequeno porte, com população de 17 mil habitantes.

A prefeitura foi procurada para comentar se pretende prorrogar o decreto, com vigência estabelecida até a próxima segunda-feira, 19, mas não atendeu às tentativas de contato feitas pela reportagem.

Ceará no vermelho

Dos 184 municípios cearenses, 181 estão em grau de alerta altíssimo para a transmissão do novo coronavírus, representado no mapa epidemiológico do Integrasus pela cor vermelha. As outras três cidades (Ipu, Iracema e Catarina) foram classificadas em nível alto, com a cor laranja.

O levantamento foi elaborado nas semanas epidemiológicas 13 e 14, entre 28/03 e 10/04, e considerou indicadores como aumento de casos diários, mortes e ocupação dos leitos clínicos e de UTI por pacientes com Covid-19.

Até a última atualização da plataforma, ocorrida nesta sexta, 16, o Ceará havia chegado a 609.849 casos confirmados e 16.075 óbitos causados por complicações da doença. Já as taxas de ocupação na rede hospitalar estavam em 93% nas UTIs e 82% nas enfermarias.

Veja o que pode e o que não pode funcionar nos municípios cearenses que decretaram lockdown:

Antonina do Norte

Atividades suspensas:
Comércio; igrejas; academias; escolas; clubes e demais estabelecimentos do comércio não essencial.

Funcionamento permitido
Hospitais; serviços de saúde; supermercados; instituições bancárias; lotéricas e farmácias.

Baturité

Atividades suspensas:
Bares, lanchonetes e restaurantes; equipamentos culturais como museus e cinemas; academias, clubes e similares; lojas e estabelecimentos de comércio, com exceção dos que prestam serviços essenciais como farmácias e supermercados; atividades religiosas e balneários, parques e cachoeiras.

Funcionamento permitido
Funerárias; serviço de imprensa; estabelecimentos de saúde para serviços de emergência; serviços para a retirada de alimentos ou encomendas em lanchonetes e estabelecimentos congêneres; postos de combustíveis; distribuidoras e revendedoras de água e gás de cozinha; clínicas veterinárias; supermercados; farmácias e oficinas e concessionárias de carros.

Capistrano

Atividades suspensas:
Academias; hotéis e pousadas; igrejas; escolas e lojas do comércio não essencial.

Funcionamento permitido
Postos de combustíveis; farmácias; hospitais; supermercados; padarias; frigoríficos e clínicas de odontologia.

Pacoti

Atividades suspensas:
Bares; restaurantes, lanchonetes e congêneres; farmácias e drogarias (exceto por delivery); supermercados (exceto por delivery); distribuidoras de gás (exceto por delivery); depósitos de construção; comércio de rua; oficinas; academias; depósitos de bebidas alcoólicas; feiras e casas de peças.

Funcionamento permitido
Serviços públicos essenciais; serviços odontológicos; hospitais; laboratórios de análises clínicas; borracharias; funerárias; segurança privada; lava-jatos e serviço de advocacia.


Santana do Cariri

Atividades suspensas:
Comércio não essencial, atividades religiosas, academias, clubes de recreação, estabelecimentos de ensino e estabelecimentos do ramo de bebidas alcoólicas.

Funcionamento permitido
Serviços públicos essenciais; hospitais e demais unidades de saúde; farmácias; bancos; clínicas odontológicas e veterinárias; empresas de segurança privada; postos de combustíveis e funerárias.

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