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Coronavírus
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CoronaVac: o que a eficácia de uma vacina tem a dizer?

Conceito vem sendo debatido desde os primeiros resultados das vacinas desenvolvidas contra a Covid-19, entretanto não basta para garantir segurança a toda a população

Marcela Tosi
15:02 | 13/01/2021
Com o desenvolvimento de imunizantes contra a Covid-19, a eficácia das vacinas se tornou debate de grandes debates e motivo de apreensão.  (Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP)
Com o desenvolvimento de imunizantes contra a Covid-19, a eficácia das vacinas se tornou debate de grandes debates e motivo de apreensão. (Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP)

Depois de atrasos na divulgação dos dados e de informações parciais, o Governo de São Paulo informou nessa terça-feira, 12, que a CoronaVac tem eficácia geral de 50,38%. O número é menor que o divulgado por outros fabricantes de vacinas contra a Covid-19. A taxa frustrou parte da população, que aguarda a liberação do uso emergencial de algum imunizante no Brasil

“Hoje temos mais de 20 vacinas no Programa Nacional de Imunização, mas, como exemplo, a vacina BCG nos protege somente dos casos graves de tuberculose e a eficácia dela é em torno de 60%. Ninguém discute mais essa questão; normalmente as pessoas se vacinam e não se preocupam mais com a tuberculose”, pontua Edson Teixeira, imunologista e professor do Departamento de Patologia e Medicina Legal da Universidade Federal do Ceará. “Apesar de a eficácia parecer baixa, ela reduz muito os casos graves e isso é o mais importante porque reduz as internações e evita a sobrecarga do sistema de saúde”, completa.

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Já a vacina contra o sarampo tem uma eficácia de 95% e, ainda assim, recentes surtos da doença no Brasil. Depois de dois anos de certificação de erradicação dada pela Organização Panamericana de Saúde (Opas), o Brasil sofreu com um surto do vírus em 2018 e perdeu, no ano seguinte, o status. Em 2019, foram mais de 18 mil casos confirmados e 15 mortes por sarampo. Naquele ano, a meta de vacinação ficou longe de ser alcançada. Entre crianças de 2 a 4 anos foram 100.676 doses aplicadas - contra 824.190 não vacinados.

Outra vacina conhecida dos brasileiros é a da influenza (gripe), dada anualmente a idosos e grupos prioritários. Ela previne gripes de cepas, como a H1N1, mas tem uma eficácia média entre 60% e 70%. O valor, porém, varia ao longo dos anos e já atingiu menos de 50%. “O fato é que a eficácia é, sim, importante, mas a partir daí é preciso ter campanhas de vacinação para que atinjam o maior número possível de pessoas”, enfatiza Teixeira.

Veja a eficácia de algumas vacinas aplicadas no Brasil

BCG (contra tuberculose) | Varia em torno de 60%, sendo maior nos casos mais graves

Dengue | A eficácia na prevenção da doença (eficácia global) é de 65,5%; na prevenção de dengue grave e hemorrágica é de 93% e de internação é de mais de 80%.

Influenza (gripe) | Eficácia média entre 60% e 70%. Varia ao longo dos anos e já chegou a menos de 50%

Tríplice viral (contra caxumba, rubéola e sarampo) | Com duas doses, chega a 97% de eficácia. Devido à diminuição da cobertura vacinal nos últimos anos, o vírus do sarampo voltou a circular no Brasil

Febre amarela | Eficácia estimada em mais de 95% para maiores de 2 anos

Fonte: informes técnicos do Ministério da Saúde, artigos científicos e Sociedade Brasileira de Imunizações

Eficácia e efetividade

Para Teixeira, a comparação entre eficácias não deveria ser a questão principal a se discutir. “O que importa, especialmente para as vacinas contra a Covid-19, é se tem acima de 50% de eficácia global e se, nos testes iniciais, leva a uma grande redução dos casos graves e moderados”. A argumentação do professor traz a diferença entre a eficácia que um imunizante demonstra mediante testes e a efetividade de sua aplicação.

O conceito de eficácia se aplica apenas a vacinas em fase 3 de estudos. A taxa de eficácia representa a proporção de redução de casos entre o grupo vacinado comparado com o grupo não vacinado. Por isso, os dados de eficácia são calculados em ambientes controlados, em que os cientistas monitoram os participantes do estudo.

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Já a efetividade é o impacto real da vacina na população. Ou seja, trata-se da capacidade de diminuir o número de casos de pessoas com doença grave. Ela depende de variáveis como a capacidade das campanhas de vacinação, a adesão aos programas e o tempo de imunidade que a vacina confere.

“Agora teremos novos estudos. Na fase de protocolo para o desenvolvimento de vacinas, o número de indivíduos tem uma limitação. Após a aprovação de uso emergencial, teremos uma quantidade maior de pessoas vacinadas e o acompanhamento trará estatísticas muito mais evidentes”, afirma o professor.

Eficácia mínima

Para a maior parte das doenças, o padrão de eficácia mínimo estabelecido pela Anvisa é de 70% para aprovar o uso de uma vacina na população. Diante da pandemia de Covid-19, a Anvisa, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a FDA (responsável pela regulação de medicamentos nos EUA) e outros órgãos reguladores em todo o mundo defendem que uma vacina com 50% de eficácia já pode ser aprovada.

Para definir esse mínimo, as agências usaram como parâmetro a taxa de reprodução inicial do Sars-CoV-2: em geral, uma pessoa transmite para outras duas. Com uma vacina 50% eficaz e 100% da população vacinada, em vez de duas pessoas, apenas uma seria infectada - já que a outra estaria imunizada.

Como a vacinação será gradual, haverá um gargalo. Para isso, quanto maior a eficácia e maior a cobertura de vacinação, maiores as chances de se combater o vírus.