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Coronavírus
NOTÍCIA

Profissionais da saúde temem possível novo aumento de casos da Covid-19 no Ceará

Médicos e enfermeiras analisam possibilidades de uma nova alta de infecções por coronavírus no Estado e criticam o relaxamento das medidas de prevenção

Lais Oliveira
14:52 | 09/10/2020
Profissionais alertam para a importância do uso de máscaras e de outras medidas para evitar contaminações (Foto: Fabio Lima)
Profissionais alertam para a importância do uso de máscaras e de outras medidas para evitar contaminações (Foto: Fabio Lima)

Embora os indicadores epidemiológicos da pandemia no Ceará permaneçam estáveis, casos de Covid-19 continuam acontecendo, a exemplo do governador Camilo Santana (PT) e de sua esposa, que testaram positivo para a doença recentemente. Profissionais da saúde se preocupam com o relaxamento das medidas de prevenção por parte das pessoas e alertam para o risco de um novo pico de casos.

Médico infectologista do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), Ivo Castelo Branco relata ter observado um aumento na procura de pacientes com sintomas gripais na última semana. O hospital onde trabalha realiza atendimento ambulatorial e encaminha, quando necessário, os pacientes para outras unidades.

“Trabalho há 41 anos nesta área. Infelizmente os números [oficiais] têm sempre um retardo, geralmente de duas semanas, quando temos essas tendências. No [feriado do ] 7 de setembro houve uma probabilidade de aumento de contágio, principalmente nos mais jovens. São pessoas que vão ter a Covid-19 sem maiores complicações, mas transmitindo para outras que podem ter complicações”, adverte.

Segundo o médico, não se pode descartar a possibilidade de uma segunda onda de casos no Ceará. “Nada está controlado. A Covid-19 é uma doença a qual não estamos imunes. Temos relatos de pessoas recontaminadas com vírus de cepas diferentes”, alerta. O Ceará acumula hoje 258.479 casos de infecção pelo coronavírus e 9.126 óbitos, segundo a plataforma IntegraSUS, do governo estadual.

Na visão da enfermeira intensivista Gizelly Castelo Branco, as pessoas “perderam o medo da doença” e isso fica claro nas aglomerações registradas em praias, restaurantes e outros estabelecimentos.

“Em relação ao serviço de emergência as pessoas têm procurado sim, mas a procura reduziu. A tendência é que aumente. Acredito que é possível, sim, acontecer uma segunda onda”, considera.

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Variáveis envolvidas

 

Quem também concorda que não há motivos para relaxar as medidas de prevenção é o médico infectologista do Hospital São José, Keny Colares. Para ele, é possível que ações como o uso de máscara e o distanciamento social ainda precisem ser adotadas por até um ano.

De acordo com Colares, também pesquisador e coordenador do Grupo de Pesquisa em Virologia, da pós-graduação da Universidade de Fortaleza (Unifor), além do comportamento das pessoas, outros fatores que podem contribuir para o aumento de casos são o clima do local e a imunidade temporária de pessoas já infectadas. Contudo, essas variáveis ainda estão em estudo para validação científica.

“Talvez com o passar dos meses tenhamos uma queda da imunidade das pessoas [que já tiveram Covid-19] e um aumento de casos. Talvez não esteja acontecendo agora porque as pessoas ainda estão protegidas. Outra variável ainda sem consenso científico é o clima. Sabemos que essas doenças respiratórias se transmitem mais entre março e maio no Ceará”, explica.

Se o fator da imunidade temporária tiver influência de fato, tomando como exemplo o caso da Espanha, que teve o pico de casos entre março e abril e agora vê novo aumento nos índices,  o infectologista analisa que o Ceará poderá observar uma nova alta no seu quadro epidemiológico em novembro ou dezembro.

Apesar de observar que existe uma tendência de estabilização nas internações decorrentes por Covid-19, a médica infectologista Glaura Fernandes se preocupa com o fato de muitas pessoas ainda não aderirem ao uso de máscara, item obrigatório no Estado, e à lavagem de mãos. “Já percebemos que muitas pessoas não fazem mais isso. Não estamos nesse patamar de segurança”, avisa.

Ela trabalha no Hospital Leonardo da Vinci, referência para pacientes com o coronavírus, que chegou a ter os sete andares voltados para pessoas diagnosticadas com a Covid-19 no começo da pandemia, quando foi inaugurado.

“Atualmente existe uma proposta para o hospital modificar seu perfil, sem deixar de contemplar pacientes da Covid-19. Mas não temos a mesma quantidade de pacientes regulados que tínhamos há dois meses”, afirma.

Na UPA do bairro Pirambu, na Capital, que chega a atender uma média de 100 pessoas durante o plantão da noite, a enfermeira assistencial Karine Porfírio acredita que os casos de pessoas sintomáticas diminuíram bastante desde o pico de casos de infecções pelo Sars-Cov-2. Contudo, ela acredita que existem cenários diversos na conjuntura da pandemia.

“Acho que [os casos] vêm aumentando principalmente entre as autoridades, na classe alta e média. Na classe baixa muita gente já teve. Tivemos uma demanda enorme aqui na UPA e as pessoas nunca foram de ficar em casa”, completa.

A enfermeira também se preocupa com as aglomerações causadas pelas atividades eleitorais nas ruas, principalmente no interior do Estado onde ela ressalta que muitos municípios, como da região do Cariri, ainda não alcançaram estabilidade.

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Resumo da pandemia no Ceará

 

De acordo com o último boletim epidemiológico publicado pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), em 24 de setembro, na comparação das últimas semanas, as regiões de Saúde de Fortaleza e do Norte apresentaram redução de mortes e aumento de casos.

Enquanto isso, o Litoral Leste do Estado teve queda nos dois índices. Já o Cariri registrou aumentos. No Sertão Central houve aumento de casos novos e estabilidade nos óbitos.

Por sua vez, a Capital registrou queda de casos e óbitos entre as Semanas Epidemiológicas (SE) 34 e 37 (-13,4%; - 3,0%). O interior do Estado, apesar de diferentes cenários entre as regiões, também apresentou redução de casos e óbitos suspeitos e confirmados para Covid-19 (-13,2%; -15,2%).

A taxa de mortalidade passou de 96,5 para 97,6 óbitos por 100 mil habitantes, em sete dias, considerando a data de divulgação do boletim. A média de óbitos por dia nos meses de maio, junho, julho, agosto e setembro foi de 124,5, 66,7, 39,4, 21,8 e 14,3, respectivamente, sendo

O POVO questionou a Sesa se são trabalhadas previsões sobre algum novo aumento de casos de Covid-19 no Ceará e de que forma o atraso da notificação dos números poderia impactar na identificação de uma segunda onda no Estado.

Em nota, a pasta disse que “planeja e executa as ações de enfrentamento à pandemia com base em indicadores técnicos e estatísticos” e que “os dados referentes ao atual cenário epidemiológico da Covid-19 estão disponíveis no IntegraSUS, plataforma de transparência da Saúde do Estado.”