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Coronavírus
NOTÍCIA

Covid-19: uso de máscara diminui chance de complicações e pode dobrar casos assintomáticos, aponta estudo

Artigo publicado no The New England Journal of Medicine, pesquisadores da Universidade da Califórnia reforçam eficácia do equipamento

Lais Oliveira
14:50 | 09/09/2020
Uso de máscara para proteção contra o novo coronavírus. (Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC)
Uso de máscara para proteção contra o novo coronavírus. (Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC)

Enquanto a Covid-19 avança no mundo, é possível que uma das medidas de prevenção ao coronavírus - o uso da máscara facial - possa ajudar a reduzir a gravidade da doença e assegurar que até o dobro da proporção de novas infecções seja assintomática. É o que aponta um artigo publicado no The New England Journal of Medicine nessa terça-feira, 8. 

A publicação é assinada por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA). Atuaram no estudo especialistas do Centro de Pesquisa em Aids, Divisão de HIV, Doenças Infecciosas e Medicina Global (Departamento de Medicina), e da Divisão de Doenças Infecciosas e Epidemiologia Global, (Departamento de Epidemiologia e Bioestatística).

De acordo com o artigo, investigações epidemiológicas realizadas em todo o mundo - especialmente em países asiáticos que se habituaram ao uso da máscara durante a pandemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) de 2003 - sugeriram que existe uma forte relação entre a máscara e o controle da pandemia.

Além disso, dados recentes de Boston, também nos EUA, demonstram que as infecções pelo novo coronavírus diminuíram entre os profissionais de saúde após a implementação da utilização de máscaras nos hospitais municipais, ainda no fim de março.

"Se esta hipótese se confirmar, o 'mascaramento universal' poderia tornar-se uma forma de 'variolação' que geraria imunidade e assim retardaria a propagação do vírus nos Estados Unidos e em outros lugares, enquanto se aguarda uma vacina", avaliam os pesquisadores

A variolação mencionada foi praticada até a introdução da vacina contra a varíola, que acabou por erradicar a doença. Nela, se usava material de um paciente com varíola para dar imunidade a outra pessoa. Em uma pessoa variolada, a doença se manifestava de maneira mais suave.

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Referências utilizadas pelo artigo

O artigo do The New England Journal of Medicine, nessa terça-feira, 8, menciona alguns estudos mais recentes realizados ao redor do mundo para embasar o que traz.

Dentre eles está um experimento em que doses mais elevadas de vírus administrados levaram a manifestações mais graves de Covid-19 num experimento com hamsters.

A partir desse modelo, observou-se que a carga viral inoculada poderia ter influência na gravidade da infecção pelo Sars-CoV-2, e as máscaras funcionam exatamente como uma espécie de barreira a essa exposição.

"Uma vez que as máscaras podem filtrar algumas gotículas contendo vírus (com capacidade de filtragem determinada pelo tipo de máscara), a máscara pode reduzir o inóculo que uma pessoa exposta inala", descreve.

Se essa teoria se confirmar, conforme os pesquisadores, o uso de máscara em nível universal pode contribuir para aumentar a proporção de infecções do Sars-CoV-2 assintomáticas.

A taxa típica de infecção assintomática da Covid-19 foi estimada em 40% pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos em meados de julho. No entanto, as taxas de infecção assintomática são relatadas no experimento citado como sendo superiores a 80% em ambientes com máscara facial universal, o que fornece evidência observacional para esta hipótese.

Ainda de acordo com o artigo, dados virológicos, epidemiológicos e ecológicos recentes levaram à hipótese de que a máscara facial pode também reduzir a gravidade da doença entre as pessoas infectadas.

Em dois surtos recentes em fábricas de processamento alimentar nos EUA, onde todos os trabalhadores receberam máscaras todos os dias e foram obrigados a usá-las, a proporção de infecções assintomáticas entre as mais de 500 pessoas que foram infectadas foi de 95%, com apenas 5% em cada surto com sintomas leves a moderados.

Enquanto isso, os pesquisadores apontam que taxas de óbitos em países com máscaras obrigatórias em toda a população permaneceram baixas, mesmo com o ressurgimento de casos após o fim de lockdowns.

Medida sugerida desde março

Uma motivação importante para o uso da máscara facial em toda a população ficou evidente ainda em março, "quando começaram a circular relatórios descrevendo as elevadas taxas de disseminação do vírus Sars-CoV-2 pelo nariz e boca de pacientes que eram pré-sintomáticos ou assintomáticos - taxas de disseminação equivalentes às dos pacientes sintomáticos", acrescenta a publicação.

Por isso, a utilização em massa do Equipamento de Proteção Individual (EPI) facial universal parece ser uma forma possível de prevenir a transmissão de pessoas infectadas assintomáticas desde então.

"A forma mais óbvia de poupar a sociedade aos efeitos devastadores do Covid-19 é promover medidas para reduzir tanto a transmissão como a gravidade da doença", alertam os autores da publicação.

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Necessidade de mais estudos

Apesar dos exemplos citados no estudo, os pesquisadores sugerem a necessidade de mais análises "comparando a taxa de infecção assintomática em áreas com e sem mascaramento universal" para comprovar que o uso de máscara pode ter efeito direto em evitar complicações da Covid-19 e em aumentar casos assintomáticos.

Além disso, seria preciso análises que comparassem "a força e durabilidade da imunidade a células T específicas do Sars-CoV-2 entre pessoas com infecção assintomática e aquelas com infecção sintomática, bem como de uma demonstração do abrandamento natural da propagação do Sars-CoV-2 em áreas com uma elevada proporção de infecções assintomáticas".