PUBLICIDADE
Coronavírus
NOTÍCIA

43 crianças e adolescentes morreram por Covid-19 no Ceará, segundo plataforma IntegraSUS

Embora crianças e adolescentes tenham, na maioria das vezes, quadros assintomáticos da Covid-19, o surgimento de reações inflamatórias após a infecção tem deixado pediatras e infectologistas em alerta

Ismia Kariny
14:32 | 09/07/2020
Vista do trabalho recente do artista Eduardo Kobra "Coexistência", que mostra crianças usando máscaras faciais devido ao novo coronavírus, Covid-19, portando símbolos de diferentes religiões (da esquerda para a direita) Islã, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)
Vista do trabalho recente do artista Eduardo Kobra "Coexistência", que mostra crianças usando máscaras faciais devido ao novo coronavírus, Covid-19, portando símbolos de diferentes religiões (da esquerda para a direita) Islã, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)

Pelo menos 43 crianças e adolescentes de até 19 anos morreram por Covid-19 no Ceará, segundo dados da plataforma IntegraSUS. Conforme a última atualização, na manhã desta quinta-feira, 9, foram confirmados 10.081 casos da doença entre pessoas de até 19 anos, desde o início da pandemia. A faixa de até quatro anos de idade é onde foi registrado o maior número de mortes: 17 casos observados.

LEIA MAIS | "Foi um guerreiro, filho", diz mãe sobre criança de um ano que morreu por Covid-19 em Tamboril nesta semana

Segundo o boletim, depois da faixa etária de zero a 4 anos, adolescentes de 15 a 19 anos tiveram mais mortes, com 16 óbitos registrados na plataforma. Entre 5 e 9 anos de idade, houve cinco mortes por infecção com o novo coronavírus. De 10 a 14 anos, morreram quatro pessoas.

Os jovens fazem parte do grupo que apresenta quadros clínicos leves da Covid-19, e, por vezes, são assintomáticos, segundo explica o infectologista Robério Leite. Entre os que apresentam alguma complicação, os sintomas percebidos são febre, diarreia, dor abdominal, e, eventualmente, o surgimento de manchas no corpo de aspecto variado, que lembram urticárias e outras doenças que causam erupções na pele.

Apesar disso, situações mais graves da doença podem acometer qualquer grupo durante a pandemia. Uma condição que tem alarmado pediatras e infectologistas, é o surgimento de casos da síndrome inflamatória multissistêmica em crianças.

No Ceará, este sintoma foi percebido cerca de quatro ou seis semanas desde o pico da pandemia, comenta Robério Leite. “Essa doença lembra outra já conhecida entre pediatras, que é a Doença de Kawasaki. É uma doença reativa a um processo inflamatório bem disseminado, principalmente envolvendo pequenas artérias e médias artérias, que levam a um quadro febril”, descreve.

O quadro febril, segundo Robério, pode ser acompanhado de alterações como vermelhidão nos olhos, manchas no corpo, muita dor abdominal seguida de diarreia, e, em casos mais graves, queda da pressão arterial na criança, que pode até levá-la ao choque. “Esse quadro é o que tem aparecido mais frequentemente, não como uma condição da Covid-19 na fase aguda, mas como se fosse uma doença reativa”, explica Robério.

Ele esclarece que a criança, por exemplo, pode ter a infecção com o coronavírus, sem apresentar sintomas. E, semanas depois, pode ter uma reação tardia, por parte do sistema imunológico, que desencadeia esse processo inflamatório. “Isso é o que a gente tem que ter cuidado nesse momento, em relação às crianças, principalmente acima dos seis anos de idade”.

Esse casos da doença de Kawasaki também são apresentados em crianças com idade inferior a dois anos. “É como se a infecção pela Sars-CoV-2 funcionasse como um gatilho para aquelas crianças que têm uma predisposição genética para isso. Não é uma condição comum, mas como a intensidade do número de infeções é tão grande, provavelmente esse despertar para o gatilho está mais comum”, acrescenta.

Segundo o infectologista, esses casos foram observados na Europa, Estados Unidos, e se tornaram mais comuns no Brasil recentemente. Além da síndrome inflamatória, outra preocupação destacada por Robério são as condições respiratórias crônicas, em crianças que já tem problemas estruturais, no pulmão, por exemplo. “Crianças abaixo de um ano, e aquelas com complicações pulmonares e outras comorbidades, são as de maior risco”, frisa.

A queixa de perda do olfato e do paladar são menos frequentes nas crianças, conforme o médico. “Talvez por ser um sintoma mais complexo para a criança expressar verbalmente. Uma redução importante do apetite pode estar associado com isso também”, salienta. De acordo com Robério, se a criança apresentar desconfortos respiratórios, mais acelerados, com dor abdominal e diarreia, ela deve ser levada imediatamente ao médico.

Em relação à síndrome inflamatória, se a criança apresentar febre por mais de dois dias, ou manchas na pele, também deve ser levada para avaliação. “Felizmente, as emergências pediátricas não estão cheias. O teleatendimento pode fazer uma boa triagem dos casos que não precisam de avaliação presencial nesse momento”, indica Robério. Outra recomendação do pediatra, é para os pais e responsáveis aproveitarem o momento para conversar e inserir, sem muita pressão, hábitos de higiene na rotina dos filhos.