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Cinema brasileiro em risco

| Ancine | Profissionais ligados ao audiovisual comentam declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre a possibilidade de extinguir o órgão, caso não se adapte às propostas de mudanças sugeridas pelo Governo

21/07/2019 23:45:24

O presidente Jair Bolsonaro afirmou na última sexta-feira, 19, que pretende transformar a Agência Nacional do Cinema (Ancine) em uma secretaria vinculada a algum dos ministérios do Governo e disse que ela terá "filtros culturais" para a seleção do que será fomentado pelo órgão.

Bolsonaro tem usado o filme Bruna Surfistinha (de Marcus Baldini), ao qual se refere como "pornográfico", para justificar mudanças na Agência Nacional do Cinema (Ancine). "Eu não, pô. Vou perder tempo com Bruna Surfistinha? Tô com 64 anos de idade. Se bem que, tenho uma filha de oito anos, sem aditivos", disse em tom de brincadeira durante coletiva de imprensa.

Pouco antes, ele voltou a considerar a possibilidade de extinguir a Ancine, caso a agência pública não se adapte às regras impostas pela atual gestão. "Dinheiro público não vai ser usado para fazer filme pornográfico e ponto final. Acho que ninguém pode concordar com isso. A Ancine acho que é no Leblon (bairro do Rio de Janeiro)? Virão para Brasília", afirmou. "Estamos estudando a possibilidade, tem que ser lei, de voltar a ser agência ou quem sabe extingui-la. Deixa para a iniciativa privada fazer filme", disse ainda o presidente.

Após as declarações de Jair Bolsonaro, o Vida&Arte ouviu profissionais da área do audiovisual que repercutiram as expectativas sobre o cenário. Bete Jaguaribe, diretora da escola Porto Iracema das Artes, acredita que as intervenções do presidente, caso sejam concretizadas, podem impulsionar a crise do desemprego no País. "Acabar com a Ancine significa destruir um campo de emprego. O audiovisual é a economia mais potente do mundo. Num momento em que o Brasil está vivendo uma crise de emprego. Aí, o cara quer acabar com uma industria que gera 300 mil empregos. Isso é uma loucura", dispara. "Ele não vai conseguir destruir isso. Precisamos reagir", provoca.

Lenildo Gomes, gestor cultural, define o atual Governo como "autoritário". "O presidente Bolsonaro está acabando com a autonomia dos processos criativos. Acho que ele não conhece e não respeita o que é um processo criativo. Essa tentativa de controle do Estado é muito séria. A gente luta para que a arte seja autônoma. E a declaração do presidente coloca nossa luta numa situação difícil", afirma. Lenildo complementa: "Se a Ancine não acabar, ela vai passar por uma reestruturação muito grande. Não vejo com bons olhos. Isso afeta diretamente nossa cultura do audiovisual de forma muito ruim", aposta.

O cineasta Rosemberg Cariry avalia o controle de conteúdo como uma "proposta de censura". "Essa censura é, portanto, inconstitucional. Esse cenário que estão tentando instalar nos lembra os tempos da ditadura. Vivemos tempos obscuros. A possibilidade de extinção da Ancine pode representar um grande desastre para a cultura e para a economia brasileira. A destruição dessa indústria tão importante para o desenvolvimento econômico e a construção identitária da nação, representa uma ação danosa aos nossos interesses", declara. (Com agências)

Mercado intenso

Logo no início de Bruna Surfistinha, filme de 2011 estrelado por Deborah Secco, o que surge na tela preta são as logos das empresas que possibilitaram a concretização da obra. Aparecem as das empresas privadas - produtora, coprodutora, distribuidora... - e, então, as da Agência Nacional do Cinema e do Fundo Setorial do Audiovisual. Cada filme feito no Brasil leva por volta de uma dezena desses logos, ora mais, ora menos. As que mais se repetem são as de apoio e patrocínio público. E que bom! Cada presença de cada logo, entre as públicas e as privadas, significa um sem-número de empregos diretos e indiretos surgindo, de reais circulando desde a pré-produção até a exibição nas salas. Bruna Surfistinha foi criticado pelo presidente Jair Bolsonaro, que afirmou que "não admitiria" que filmes como aquele sobre a ex-garota de programa fossem feitos com apoio da Ancine. A justificativa seria contra o "ativismo" e em "defesa da família". Circula nas redes sociais uma imagem que reúne informações facilmente comprováveis sobre o longa: ele levou mais de 2 milhões de brasileiros ao cinema, fez mais de R$ 20 milhões de bilheteria, gerou mais de 400 empregos diretos e indiretos; há ainda a estimativa de que ele movimentou mais de R$ 10 milhões em impostos diretos e indiretos. Não precisaríamos estar defendendo filme "A" ou "B" pelos seus dados numéricos ou impacto financeiro. Filmes lidam com o simbólico, o intangível. Há aqueles que não movimentam milhões nem na produção, nem na bilheteria, e são importantes da mesma maneira para o cinema brasileiro. Até o discurso contrário a Bruna Surfistinha pela "defesa da família", porém, também é enviesado. Assistindo ao filme, veja só, entende-se que família é um dos principais temas tratados na obra. Dica: ele está disponível na GloboPlay, TelecinePlay e na Netflix.

(João Gabriel Tréz, Jornalista)

Bárbara Bezerra

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