Guia para um Carnaval seguro: cuidados com álcool e outras drogas

Guia fornece dicas valiosas e orientações para quem quer curtir o Carnaval com responsabilidade e redução de danos. Veja pontos de atenção e procedimentos

06:04 | Fev. 13, 2026

Por: Mateus Brisa
Foto de apoio ilustrativo. O álcool deve sempre ser acompanhado de hidratação e alimentação adequadas, além de cuidados com o Sol quente do Ceará (foto: FERNANDA BARROS)

Carnaval no Brasil é sinônimo de folia e euforia, que podem ser expressas em fantasias, mela-mela, dança e canto, encontros e afetos, mas também a partir do consumo de álcool e outras drogas. Por isso, o período deve incorporar autoconhecimento e noção dos usos corretos destas substâncias.

No guia a seguir, veja dicas para consumo recreativo responsável e orientações do que fazer em caso de mal-estar ou outras situações.

Álcool: cuidados e fatores alarmantes

As bebidas alcoólicas estão presentes em diversas atividades de lazer da população. E no Carnaval não é diferente. A questão, segundo o psiquiatra Helder Gomes, está no uso excessivo, tendo em vista que o período carnavalesco compreende mais de um dia de folia e festas.

“O Carnaval muitas vezes junta um quadro alarmante de privação de sono, desidratação e excessos, o que propiciar o agravamento de transtornos”, explica o profissional. “Em relação à saúde mental, há uma clara associação entre o álcool e questões psicológicas, como a ansiedade.”

A frequência de uso do álcool, conforme Helder, pode ser um sinal de alerta: “Quando a pessoa começa a usar de forma mais reiterada do que deveria, ou num padrão mais abusivo, com quantidade maiores do que o adequado”.

“Isso pode causar intoxicação e, no período posterior, chamado popularmente de ‘ressaca’, é possível haver sensações psiquiátricas negativas. Pacientes depressivos, por exemplo, têm pensamentos negativos acentuados. Há riscos psiquiátricos e clínicos nisso”, detalha.

Há problema em misturar álcool e energético?

De acordo com Helder Gomes, o energético é uma substância estimulante, enquanto o álcool tem efeito sedativo. Quando misturados, “podem estimular a sensação de coração acelerado e a piora de quadros ansiosos”.

Ainda, o energético pode aumentar a agitação do consumidor, levando-o a ingerir uma quantidade ainda maior de bebida alcoólica.

Quais são as recomendações durante o consumo de álcool?

  • Primeiro e mais importante, é necessário beber um copo de água para cada copo de bebida alcoólica. Isso porque o álcool é diurético e a desidratação intensifica a ressaca e o risco de coma alcoólico;
  • Também é importante jamais beber de estômago vazio. Carboidratos complexos e proteínas ajudam a retardar a absorção de álcool pelo fígado, impedindo uma embriaguez exagerada e rápida;
  • No melhor dos cenários, é recomendado carregar a própria bebida para o bloco. Caso não seja possível, orienta-se ter cuidado com drinks coloridos aleatórios e bebidas “doadas” por estranhos, além da origem dos produtos que são adquiridos.

Outras drogas: foco na moderação

Nem só com bebidas alcoólicas curtem os foliões carnavalescos. Para além das drogas lícitas, como o cigarro, os bloquinhos podem presenciar o consumo de substâncias ilícitas. Cocaína, crack, maconha e inalantes como o “loló” são muito comuns neste período, conforme o psiquiatra Helder Gomes.

Segundo ele, o uso destas drogas incide em riscos de overdose, arritmia, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e agravamento de quadros psiquiátricos. “O paciente pode ficar delirante, ter alucinações, crer em coisas que não aconteceram, escutar vozes”, enumera.

O foco deve ser na redução de danos, um conjunto de estratégias destinadas a minimizar as consequências negativas associadas ao uso de drogas, reconhecendo que este uso acontecerá, sem julgamentos.

“O conselho principal para quem quer curtir o Carnaval é a moderação”, pontuou Helder. “As festas estão aí e quem gosta de festejar e socializar deve comparecer, sim. É algo muito importante, pois a socialização importa.

“No caso das substâncias, devem ser usadas com moderação. E lembrando de ingerir alimentos e água.”

Quais as estratégias para redução de danos?

Além das recomendações a seguir, é importante lembrar que, independente da droga utilizada, o consumo de alimentos e água segue extremamente necessário, assim como o uso de preservativos durante as relações sexuais.

Ainda, nenhum uso de substância é recomendado se o usuário não conhecer seus limites ou não estiver acompanhado de pessoas de confiança. É totalmente desaconselhado se estiver tomando algum remédio de uso contínuo, como antidepressivos. Amigos e familiares devem ser informados sobre o que foi consumido.

Conforme cartilha sobre drogas e redução de danos do Ministério da Saúde, algumas das recomendações em prol da redução de danos são:

1. Álcool

  • A principal estratégia é nunca dirigir após o consumo.
  • Evite bebidas de fabricação caseira ou não fiscalizada, que apresentam alto risco de envenenamento não-intencional.
  • O álcool reduz reflexos e a coordenação motora, além de causar falsa sensação de segurança, o que aumenta o risco de acidentes e violência.
  • O uso excessivo pode levar à liberação da censura, sendo essencial manter o uso de preservativos.

2. Cocaína

  • Utilize preferencialmente canudos de plástico individuais em vez de notas de dinheiro ou papéis comuns.
  • Jamais compartilhe o canudo, pois a cocaína causa vasoconstrição e sangramentos nasais que facilitam a transmissão de doenças (como hepatites e HIV).
  • Após o uso, limpe as narinas com soro fisiológico para reduzir danos às mucosas.

3. Ecstasy (MDMA) e drogas ingeridas

  • Os maiores riscos são desidratação e hipertermia (aumento excessivo da temperatura corporal), que podem ser fatais. Beba água e procure locais frescos.
  • O uso concomitante com álcool pode causar reações inesperadas, síncopes (desmaios) e "apagões" (perda de memória).
  • Evite misturar com sildenafil (Viagra), pois a combinação pode causar desmaios e ereções prolongadas com lesões musculares.

4. Maconha (Cannabis)

  • Evite compartilhar “baseados” com pessoas desconhecidas, pois a saliva também é compartilhada e pode causar transmissão de doenças.
  • Embora apresente riscos menores comparados ao crack e cocaína, o usuário deve ser informado sobre prejuízos e estimulado a monitorar/diminuir o uso.
  • Para alguns usuários, a maconha é utilizada estrategicamente para diminuir a "fissura" por drogas mais pesadas, como o crack.

5. Inalantes e solventes (loló, lança-perfume, cola)

  • Evite misturar com qualquer substância sedativa (álcool, maconha ou calmantes), pois há um risco gravíssimo de potencializar os efeitos depressores e causar parada respiratória.
  • Procure utilizar garrafas de vidro para o consumo, não de plástico, pois micro-plásticos podem ser inalados no processo.

6. Crack

  • Utilize cachimbos de madeira ou vidro para evitar o uso de latas e copos plásticos, que liberam resíduos tóxicos de metal e plástico ao serem queimados.
  • Não compartilhe o cachimbo ou, no mínimo, use bocais de plástico removíveis e individuais para evitar a transmissão de doenças por feridas na boca.
  • Use cremes ou protetores labiais para evitar rachaduras que servem de porta de entrada para infecções.

Mais orientações

Uma realidade do Carnaval de 2026, não prevista pela cartilha supracitada, são os canabinoides sintéticos (K2, K9, Spice), que têm efeitos devastadores e imprevisíveis, muito diferentes da maconha natural.

Mesmo em doses baixas, essas substâncias têm altíssimo potencial de causar convulsões e paradas cardiorrespiratórias imediatas. O risco de “bad trips” violentas também é muito maior que com a maconha natural.

Muitos foliões também usam vapes enquanto bebem. O uso de vapes e pods, os cigarros eletrônicos, durante o esforço físico do Carnaval aumenta drasticamente a desidratação das mucosas e a sobrecarga pulmonar.

Por fim, o uso de substâncias altera a percepção de limites. Uma pessoa alcoolizada ou drogada não tem capacidade legal de dar consentimento. Foliões devem proteger suas amigas e amigos de situações de assédio.

Quais são os sinais de alerta?

Ainda conforme Helder Gomes, um amigo de folia pode indicar sinais de que precisa de auxílio ao demonstrar “comportamentos muito hostis, disruptivos, num padrão diferente do convencional”.

Ter atitudes que não teríamos se não tivéssemos sob efeito é um sinal de extrapolação”, complementa o psiquiatra.

“É sempre importante que possamos escutar nossos amigos e familiares que estão na folia, quando eles dão um alerta. Às vezes, a pessoa externa pode ter uma percepção melhor do que a nossa sobre qual é o limite.”

O diretor técnico do Samu 192 Ceará, Jefferson Oliveira, acrescenta que é preciso “observar se os sinais são diferentes da embriaguez por si só”.

Por isso, ele reforça a importância de transparência no consumo. É preciso tomar conhecimento do que o colega está consumindo, para auxiliar no socorro.

“Na dúvida, aciona o Samu, discute o caso, esclarece. Se apropria das informações todas para tentar passá-las de forma fidedigna”, orienta.

O profissional enfatiza que “historicamente, acidentes de trânsito são campeões de ocorrências no Carnaval”, por isso as regras de trânsito devem ser reforçadas, desde o uso do cinto de segurança até o respeito às sinalizações.

Ainda, Jefferson lembra do calor do Ceará, que potencializa a desidratação da população festeira. “A insolação age sinergicamente com o uso de bebidas: ambos potencializam a desidratação. Isso acentua a gravidade do paciente.”

O que fazer se alguém passar mal ao seu lado?

Conforme Jefferson Oliveira, um erro comum que deve ser evitado ao socorrer alguém é oferecer líquidos e alimentos, ou dar banho gelado. “O paciente desmaiado, com alguma secreção na boca, deve ficar lateralizado. Isso evita que a secreção vá para as vias aéreas e cause um engasgo.”

No meio da folia, saber agir rápido pode evitar complicações graves. Se um amigo (ou desconhecido) apresentar sinais de intoxicação, siga este protocolo:

  • Retire o indivíduo da aglomeração e leve-o para um local arejado, à sombra e mais silencioso. O excesso de estímulos (som alto, calor e empurra-empurra) pode agravar quadros de ansiedade ou mal-estar;
  • Se a pessoa estiver muito zonza ou desacordada, nunca a deixe deitada de costas. Coloque-a deitada de lado (decúbito lateral). Isso evita que ela se asfixie caso venha a vomitar — uma das maiores causas de morte por intoxicação alcoólica;
  • Jamais force a ingestão de líquidos ou comida se o indivíduo estiver semiconsciente, pois há risco de engasgo e aspiração para o pulmão;
  • Nada de café ou banho gelado: isso não acelera a desintoxicação do fígado e o banho frio pode causar choque térmico;
  • Nunca deixe o indivíduo sozinho. O quadro de intoxicação pode evoluir rápido para uma convulsão ou parada respiratória. Tente identificar o que ele consumiu, pois isso será vital para os médicos.

Quando chamar o Samu 192?

Durante os bloquinhos e eventos carnavalescos, é crucial identificar onde estão os Postos Médicos Avançados ou ambulâncias logo que chegar ao local.

“Em grandes eventos de rua, a multidão pode ser uma barreira para a entrada ou saída de uma equipe de saúde”, sinaliza Jefferson. “A dica é: fique atento ao ambiente que você está. Se tiver alguma equipe de socorro, dê passagem.

“Seja parceiro e se organize com quem está com você. Porque um tempo perdido ali pode ser precioso para a vida de alguém.”

Não hesite em buscar ajuda profissional se notar:

  • Desmaio ou dificuldade para acordar.
  • Vômitos incessantes.
  • Pele muito pálida, fria ou azulada.
  • Respiração muito lenta ou irregular.
  • Convulsões.