Dia do Quadrinho Nacional: uma arte que ajuda a contar o Brasil
Celebrado em 30 de janeiro, o Dia da HQ Nacional destaca arte brasileira, suas origens, desafios enfrentados pelos artistas e crescente diversidade de narrativas
Resumo
A primeira HQ brasileira, 'As Aventuras de Nhô-Quim', foi publicada em 30 de janeiro de 1869.
Artistas apontam dificuldades como distribuição, remuneração e reconhecimento da profissão.
A produção atual é diversa, abrangendo humor, autobiografia, política e representação social.
A representatividade e a diversidade de narrativas têm crescido nos últimos anos.
O Dia do Quadrinho Nacional, comemorado em 30 de janeiro, marca a valorização de uma linguagem artística que acompanha a história do Brasil desde o século XIX e que, ao longo das décadas, se reinventou entre jornais, revistas, livros, feiras independentes e, mais recentemente, as plataformas digitais.
A data chama atenção para a produção autoral brasileira, seus desafios estruturais e a diversidade de narrativas que hoje compõem o cenário dos quadrinhos no País; confira a seguir.
A escolha do dia não é aleatória, remete à publicação de “As Aventuras de Nhô-Quim” ou “Impressões de uma Viagem à Corte”, considerada a primeira história em quadrinhos do Brasil, lançada em 30 de janeiro de 1869, no periódico Vida Fluminense.
A obra é assinada pelo ítalo-brasileiro Angelo Agostini, um dos pioneiros da ilustração e da imprensa ilustrada nacional. Atualmente, os quadrinhos nacionais abrangem uma produção plural, que vai do humor gráfico às narrativas autobiográficas, passando por histórias infantis, políticas, experimentais e de representação social.
Apesar da ampliação do acesso por meio da internet e do crescimento de eventos especializados, artistas ainda apontam dificuldades relacionadas à distribuição, à remuneração e ao reconhecimento da atividade como profissão forma, questões que atravessam gerações e seguem presentes no debate contemporâneo.
A origem do Dia do Quadrinho Nacional
A criação da data como forma de celebração e valorização dos quadrinhos brasileiros remonta a 1984, quando a Associação dos Quadrinistas e Cartunistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP) tomou a iniciativa de instituir a data.
Desde então, o dia 30 de janeiro passou a ser adotado por artistas, editoras e coletivos em todo o País como um momento de reconhecimento da história e da diversidade da produção de histórias em quadrinhos nacionais.
No ano seguinte, em 1985, a AQC-ESP realizou a primeira edição do Prêmio Angelo Agostini, uma premiações dedicadas aos profissionais brasileiros da nona arte, reforçando a ligação entre a data comemorativa, a memória da inovação de Nhô-Quim e o reconhecimento dos criadores.
Mais recentemente, a relevância da data também tem ganhado trâmite legislativo: em 2026, um projeto de lei no Senado Federal propõe transformar oficialmente o Dia do Quadrinho Nacional em data reconhecida no calendário formal brasileiro, destacando a luta e o papel cultural dos quadrinistas e cartunistas no País.
O data não marca apenas um feito histórico do passado, mas reforça a permanência de uma linguagem que segue viva graças a artistas que insistem em contar histórias.
Fazer quadrinhos no Brasil: entre paixão, resistência e trabalho
Se a história dos quadrinhos no Brasil atravessa mais de um século, o cotidiano de quem produz HQs hoje ainda é marcado por entraves estruturais que vão além do ato de desenhar ou escrever.
Com quase 30 anos de carreira, o quadrinista e arte-educador Daniel Brandão, 50, de Fortaleza, avalia que alguns obstáculos permanecem praticamente inalterados ao longo do tempo.
“Hoje em dia, um grande desafio ainda é o de distribuição. Quem consegue lançar material impresso tem muita dificuldade de chegar aos leitores de uma maneira massiva, barata e acessível”, afirma. O problema se agrava pelas dimensões do País, que “sempre teve sérios problemas de distribuição”.
Segundo Brandão, as redes sociais, que durante anos abriram portas para artistas independentes, passaram a impor novos limites. “O algoritmo não entrega mais. As big techs não têm muito interesse em arte pensante, crítica. É uma luta contra gigantes para conseguir atingir os leitores”, diz.
A dificuldade de viver exclusivamente de HQs aparece também no relato da quadrinista Milene Correia, 33, criadora de Emylle Sobre Rodas. Natural de Caucaia (CE) e residente em Natal (RN), ela destaca que conciliar diferentes atividades profissionais acaba sendo parte da rotina de muitos artistas.
“Além de viver única e inteiramente de HQ, eu diria que o maior desafio é ter ânimo pra continuar criando”, afirma.
"Se a gente não consegue viver só de desenho, quadrinhos, arte, tem que encontrar outras formas, outros trabalhos, e conciliar tudo isso é desafiador."
Milene Correia, quadrinista cearense
Para a quadrinista, ilustradora e professora Blenda Furtado, 42, de Fortaleza, a desvalorização do trabalho também passa pela falta de compreensão do público sobre o processo criativo.
“Existe uma desvalorização por falta de conhecimento em relação ao processo da produção. Parece algo mágico, quando, na verdade, tem muito suor envolvido”, afirma. Segundo ela, a lógica de consumo rápido de conteúdo entra em choque com o tempo necessário para criar uma boa história em quadrinhos.
O futuro dos quadrinhos nacionais
Se os desafios estruturais seguem presentes, a produção de quadrinhos no Brasil também é marcada por reinvenção constante, diversidade de narrativas e pela insistência de artistas que continuam criando, mesmo em um cenário adverso.
Para Blenda, o avanço da representatividade nos últimos anos é perceptível, especialmente em relação ao gênero, à regionalidade e à coragem de abordar histórias mais próximas da realidade.
“Hoje tem bem mais mulheres fazendo quadrinhos, pessoas LGBTQIAP+ sendo vistas e muitas boas histórias sendo contadas”, afirma. O desafio agora é fazer com que essas produções ultrapassem as bolhas tradicionais de circulação.
"Seria muito interessante que os quadrinhos deixassem de ser vistos apenas como coisa para criança e pudessem chegar mais a escolas, bibliotecas e feiras."
Blenda Furtado, quadrinista, ilustradora e professora
Na visão de Milene, o impulso para esse futuro começa no gesto mais simples: criar. “Comece hoje. Faça uma tirinha hoje. Se não uma tirinha, faça uma ilustração, crie o personagem, comece”, diz. A continuidade é tão importante quanto o ponto de partida: “Depois que começar, continua”.