Mostra de Cinema de Tiradentes: curta cearense 'Faísca' é destaque na programação
Exibição ao ar livre reuniu filmes sobre ancestralidade, identidade e cultura popular, com destaque para o cearense "Faísca"
11:09 | Jan. 28, 2026
A sessão de curtas-metragens exibida na praça, na noite desta segunda-feira, 26, integrou a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e reuniu produções de diferentes regiões do país, que abordam temas como ancestralidade, identidade, cultura popular e espiritualidade.
Assistidos ao ar livre, os filmes dialogaram diretamente com o público ao propor narrativas centradas em vivências pessoais e coletivas, muitas delas atravessadas por questões de pertencimento e memória.
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Entre os títulos exibidos, o curta cearense “Faísca”, dirigido por Bárbara Matias Kariri e realizado na zona rural de Lavras da Mangabeira, ganhou destaque pela abordagem sensível das relações familiares e da ancestralidade feminina.
O filme acompanha quatro mulheres de uma mesma família, de gerações diferentes, que se reencontram após um conflito e acabam revelando um segredo ancestral.
A narrativa se constrói a partir de silêncios, rituais, sonhos e da relação com a natureza, elementos que conduzem as personagens por um processo de reconexão, cura e reconstrução de laços.
Também presente na sessão, “Hacker Leonília”, de Gustavo Fontele Dourado, apresenta uma história ambientada no futuro, protagonizada por uma hacker idosa e negra que precisa enfrentar traumas pessoais para escapar de uma realidade virtual.
Inspirado na história da avó do diretor, o projeto discute afetos, liberdade e tecnologia, propondo um deslocamento dos imaginários tradicionais da ficção científica ao colocar uma personagem idosa no centro da narrativa.
O curta integra um projeto maior, que também possui versão em longa-metragem em desenvolvimento.
Já o documentário “Recife Tem um Coração”, dirigido por Rodrigo Sena, acompanha o cantor de brega Silvo Silva, que mobiliza seguidores em uma transmissão ao vivo para conseguir comprar uma nova caixa de som.
A partir desse gesto, o filme apresenta um retrato do cotidiano de um artista popular e da cena do brega recifense, destacando a relação do personagem com a música desde a juventude.
Ao longo do curta, Silvo relembra o primeiro disco que comprou aos 17 anos e cita influências como Elvis Presley, referências que se refletem em sua trajetória e estética.
Com um recorte voltado à espiritualidade e à tradição, “Banzeiro e Maresia”, de Pablo Monteiro, se passa no Litoral Ocidental Maranhense e retrata práticas de pajelança e cura associadas à territorialidade Bantu.
O filme acompanha Dona Benedita Cadete e o Caboclo Urubatã, combinando elementos documentais e sensoriais para apresentar saberes ancestrais ligados à fé, à cura e à resistência cultural na região.
Encerrando a sessão, "Fronteriza", dirigido por Nay Mendl e Rosa Caldeira, acompanha Lucca, um homem trans da periferia de São Paulo, em viagem à tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina em busca do pai que nunca conheceu.
O curta aborda temas como identidade, abandono e pertencimento, destacando a fronteira como espaço de encontro e troca cultural, e não apenas de separação.
A sessão de curtas na praça reforçou o caráter plural da programação da 29ª Mostra de Tiradentes, reunindo filmes que, a partir de diferentes linguagens e territórios, apresentam recortes diversos do cinema brasileiro contemporâneo e ampliam o diálogo entre realizadores e público em um dos espaços mais simbólicos do festival.