30 anos do ET de Varginha: fato histórico ou fenômeno cultural?

Caso que marcou 1996 volta ao debate com documentário da Globo, documentos oficiais e análises históricas

15:00 | Jan. 10, 2026

Por: Carolina Passos
Caso ET de Varginha completa 30 anos e volta aos holofotes (foto: Reprodução/ Instagram @memorialdoet)

Trinta anos depois de entrar para o imaginário nacional, o chamado "Caso ET de Varginha" segue como um dos episódios mais emblemáticos da história recente do Brasil.

Em 2026, a história voltou aos holofotes com a estreia, nesta terça-feira, 6, do documentário “O Mistério de Varginha”, produção da TV Globo em três episódios.

Leia Também | STM divulga dados de inquérito sobre ET de Varginha: 'Caso fruto de engano e boatos'

A obra revisita os acontecimentos registrados em janeiro de 1996, no Sul de Minas Gerais, e revigora o debate entre versões oficiais, relatos de testemunhas e interpretações históricas.

ET de Varginha: como aconteceu

O episódio iniciou na tarde de 20 de janeiro de 1996, quando Kátia Andrade Xavier, Valquíria Silva de Fátima e Liliane Santana relataram ter visto uma criatura estranha em um terreno baldio no bairro Jardim Andere, em Varginha.

Segundo os depoimentos, o ser era de baixa estatura, tinha pele marrom e oleosa, olhos grandes e avermelhados, protuberâncias na cabeça semelhantes a chifres e exalava um cheiro forte.

O relato se espalhou rapidamente e passou a ser associado a outros acontecimentos considerados incomuns.

Nos dias seguintes, moradores relataram movimentações atípicas do Exército Brasileiro, com circulação de viaturas militares pela cidade e menções ao isolamento de áreas.

Também surgiram versões sobre a captura de uma criatura não identificada e a suposta participação de militares em operações sigilosas.

Caso exibido no Fantástico

A repercussão nacional ocorreu em 4 de fevereiro de 1996, quando o “Fantástico”, programa dominical da TV Globo, exibiu uma reportagem especial sobre o caso, levando o episódio ao conhecimento do público em todo o País.

Com a projeção nacional, a situação ganhou atenção internacional. Veículos estrangeiros passaram a tratar Varginha como um dos mais intrigantes relatos de objetos voadores não identificados da América Latina.

O Wall Street Journal se referiu ao suposto ser como o “fedorento extraterrestre”, em alusão ao odor descrito pelas testemunhas.

Exército se pronunciou sobre o caso

Ao longo dos anos, documentos oficiais passaram a contestar a versão extraterrestre.

Um Inquérito Policial Militar (IPM), instaurado em março de 1997 sob responsabilidade da Escola de Sargentos do Exército, concluiu que não houve envolvimento de militares em qualquer operação relacionada à suposta criatura.

Segundo o Superior Tribunal Militar (STM), a investigação aponta que o episódio pode ter sido resultado de uma interpretação equivocada das testemunhas, que teriam confundido a cena com a presença de um homem com transtornos mentais conhecido na cidade. Os autos do IPM estão disponíveis para consulta pública.

Para o historiador Gustavo Uchôas Guimarães, membro do Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural (Codepac) de Varginha, o caso pode ser compreendido a partir de duas dimensões.

“Eu acho que dá para tratar o caso do ET de Varginha tanto como um fato histórico quanto como um fenômeno cultural. O fato histórico é que houve uma movimentação na cidade em torno de um mistério. Já o que foi feito a partir disso é o fenômeno cultural, construído ao longo do tempo”, opina o historiador.

Ao revisitar as fontes de 1996, Uchôas afirma que há elementos comprováveis, mas também lacunas que permanecem sem explicação objetiva.

“É comprovável a movimentação no Hospital Regional de Varginha, a presença de membros do Exército Brasileiro e a movimentação no Parque Novo Horizonte em torno de um mistério. Agora, que mistério foi esse, já fica no terreno da especulação”.

Segundo o historiador, o que resiste a uma análise histórica rigorosa são os registros institucionais, enquanto a descrição da criatura permanece no campo do relato oral.

“O que sobrevive a uma análise histórica é a movimentação em torno de um mistério. Já a descrição do extraterrestre não passa pelo crivo de uma análise histórica com método e pesquisa documental. O que existe é relatoral, e o relatoral é muito subjetivo”.

Uchôas também afirma não descartar a possibilidade de acobertamento institucional, independentemente da natureza do que teria sido encontrado.

“Eu não duvido de acobertamento institucional. Tudo que é muito secreto e muito escondido acaba por atiçar a imaginação das pessoas. Acredito que houve um acobertamento institucional por parte do Hospital Regional e do Exército Brasileiro”, declara. 

Caso virou quadro em programa de TV e museu na cidade de Varginha:

Com o passar das décadas, o episódio ultrapassou o campo investigativo e se consolidou como símbolo cultural.

No fim dos anos 1990, o “Casseta & Planeta, Urgente!”, também da TV Globo, levou o ET de Varginha ao humor televisivo, ajudando a fixar o episódio no imaginário popular. A cidade passou a incorporar o personagem como marca identitária.

Essa apropriação também se materializou em equipamentos culturais. Em novembro de 2022, foi inaugurado o Memorial do ET, no alto da Vila Paiva.

O espaço reúne exposições, documentos, réplicas da criatura, jornais da época e um acervo dedicado à ufologia, além de um planetário com sessões regulares. A visitação é gratuita.

Para Gustavo Uchôas Guimarães, o caso revela características profundas da sociedade brasileira.

“O brasileiro é muito aberto ao mistério e transforma isso em parte da sua identidade cultural. Ao mesmo tempo, revela uma certa desconfiança em relação às instituições, vistas muitas vezes como responsáveis por abafar o mistério”, comenta Gustavo Uchôas.

Trinta anos depois, entre documentos oficiais, memória coletiva e novas produções audiovisuais, o Caso ET de Varginha permanece sem consenso definitivo, mas consolidado como um dos maiores enigmas da história cultural brasileira.