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A Praça é Nossa: lembre história e curiosidades da "Praça da Alegria"

"A Praça é Nossa", comandado por Carlos Alberto de Nóbrega há 35 anos, é inspirado em "A Praça da Alegria"; saiba curiosidades sobre os dois programas
10:00 | Mai. 28, 2022
Autor Clara Menezes
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Tipo Notícia

Manoel de Nóbrega (1913 - 1976) estava em uma viagem por Buenos Aires, na Argentina, quando se deparou com uma cena que marcaria o futuro de sua carreira. Da janela de seu hotel, percebeu que um idoso sempre sentava em um banco para ler o jornal. Sua leitura, entretanto, era interrompida quando o desconhecido começava a conversar com figuras diferentes que passavam pelo lugar. Era um homem curioso por novas histórias. Pouco tempo depois, o radialista, jornalista, ator, escritor e humorista retornou ao Brasil e decidiu criar um programa baseado naquele estranho.

"Da janela do hotel, ele começou a notar os tipos diferentes que, diariamente, se aproximavam para conversar com um senhor que ficava sentado num banco de uma praça. Percebeu então, que num cenário único, poderia reunir vários personagens engraçados e muito diferentes entre si", disse Carlos Alberto de Nóbrega, filho de Manoel de Nóbrega, em texto institucional do SBT.

Assim surgiu “A Praça da Alegria” em 1956, mas que teve sua primeira veiculação no ano seguinte pela TV Paulista. Sentado em um banco, um idoso, interpretado pelo próprio Manoel de Nóbrega, dialogava com pessoas com histórias e personalidades diferentes. A paisagem que integrava a cenografia se assemelhava a muitos lugares do País. Aqueles personagens poderiam estar no interior do Ceará ou na capital de São Paulo que o local pareceria o mesmo.

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Manoel de Nóbrega comandou 'A Praça da Alegria' durante quase duas décadas
Manoel de Nóbrega comandou 'A Praça da Alegria' durante quase duas décadas (Foto: Reprodução/ www.al.sp.gov.br)

Durante as duas décadas seguintes, até o início de 1970, os episódios ficavam sob responsabilidade de seu criador. No período, “A Praça da Alegria” também foi exibido nas emissoras TV Rio e TV Record, sempre no formato de conversas e com simplicidade na produção.

Apesar dessas mudanças, personagens e atores foram consagrados pela televisão brasileira. Uma delas é a Velha Surda, interpretada por Roni Rios (1936 - 2001). Bizantina Scatamacchia Pinto - assim se apresentava - era caracterizada com um casaco de lã, uma longa saia, seus cabelos grisalhos, maquiagem excessiva e um guarda-chuva. Ela, porém, tinha deficiência auditiva. Por isso, sempre que falava com Apolônio (Viana Junior), um velho conhecido, interpretava as frases da maneira errada.

Outro nome que recebeu atenção foi Pacífico (vivido por Ronald Golias), que popularizou o bordão “Ô Cride, fala pra mãe”. Alguns humoristas também se tornaram conhecidos por causa do programa, como Dedé Santana, Renato Aragão, Mussum e Zacarias. Jô Soares já tinha experiência em TV e fez parte do elenco da Praça.

“A Praça da Alegria”, entretanto, teve uma pausa de sete anos e somente retornou em 1977, como uma forma de homenagear Manoel de Nóbrega, que havia falecido por causa de um câncer. Naquele ano, com os direitos autorais adquiridos pela TV Globo, o programa contou com direção de Carlos Alberto Loffer e redação final de Carlos Alberto de Nóbrega, filho do criador.

Dedé e Didi

Dedé Santana trilhava seus primeiros passos na televisão quando se encontrou com Renato Aragão, mais conhecido como Didi, pela primeira vez. O momento foi organizado por Arnaud Rodrigues, que se tornou o responsável pelo primeiro encontro da dupla que marcaria a comédia brasileira. Na época, o cearense já era conhecido em seu estado, mas ainda um estranho no eixo Rio-São Paulo.

Juntos, os dois atuaram em alguns papéis famosos. Mas foi apenas em “A Praça da Alegria” que eles viraram um fenômeno. Em entrevista para o apresentador Danilo Gentilli, em 2018, Dedé defendeu que a dupla de comediantes talvez não tivesse existido se não fosse pelo programa.

Na década de 1970, Carlos Alberto costumava mentir para o próprio pai, afirmando que tinha provas na escola, para que o carioca pudesse contracenar com o cearense. “Quem era meu assistente de direção era Carlos Alberto de Nóbrega. Se não fosse Carlos Alberto, a dupla Dedé e Didi talvez não existisse”, afirmou.

Depois disso, os dois protagonizaram “Os Trapalhões”, ao lado de Mussum (1941-1994) e Zacarias (1934-1990). O programa, que passou pela Rede Tupi e pela Rede Globo, viria a ser um dos maiores sucessos da televisão brasileira.

“A Praça É Nossa”

Carlos Alberto de Nóbrega, filho de Manoel, retomou o trabalho do pai com o nome “A Praça É Nossa”, em 1987. Com objetivo de manter viva a memória do apresentador de televisão, o programa continua a ser exibido no SBT.

Dezenas de nomes conhecidos já se sentaram no banco para divertir os espectadores: Pelé, Clodovil, Gugu Liberato, Dercy Gonçalves, Fagner, Fábio Jr., Daniel, Zezé di Camargo e Luciano, Kelly Key, Celso Portiolli, Jota Quest, Charlie Brown Jr e Lula são alguns deles. O dono da emissora, Silvio Santos, também já fez uma aparição.

Há alguns anos, o programa ainda começou a dar espaço para artistas de stand up. Um dos nomes recentes e que integra o elenco fixo é Matheus Ceará, humorista nascido em Fortaleza que faz o papel de um personagem caricato do Nordeste.

No momento, outros quadros são mantidos com regularidade. Marlei Cevada, por exemplo, interpreta uma criança de seis anos, que sempre aparece acompanhada de um cachorro de pelúcia. Com perguntas típicas da infância, ela deixa adultos em uma saia justa.

Outro protagonista é João Plenário, vivido por Saulo Laranjeira. O personagem faz uma sátira à típica imagem do político brasileiro. Com um discurso sem sentido, dá desculpas mentirosas e destaca as falhas da política no País.

Mais sete quadros também são recorrentes. São eles: Sangue, Porpetone, O Saideira, Os Malandros, A Ciumenta, El Curandeiro e Os Milionários.

Apesar das transformações, “A Praça É Nossa” permanece uma profissão de família. Agora, conta com contribuição e direção do artista Marcelo de Nóbrega, filho de Carlos Alberto e neto de Manoel.

Conversas com a TV Globo

No passado, “A Praça É Nossa” esteve em negociação para sair do SBT e entrar na programação da TV Globo novamente. Entretanto, o programa continuou na emissora de Silvio Santos depois de uma tentativa de imposição do produtor Boni.

Carlos Alberto de Nóbrega explicou em entrevista ao Danilo Gentilli: “Eu disse que, se eu fosse, iria todo mundo comigo, até meu camareiro. E ele (Boni) disse: 'só não quero um, a Velha Surda'. E a referência, até hoje, da 'Praça da Alegria' e 'A Praça é Nossa', é a Velha. Então eu falei: 'se o Roni não vier, não vem ninguém’”.

O responsável por “A Casa é Nossa” indicou que preza pela liberdade criativa: “Se eu estivesse em outra emissora eu jamais faria 35 anos de carreira com a Praça. Silvio (Santos) me deu liberdade".

De acordo com ele, em entrevista à Folha de S. Paulo, em 2020, a TV Globo nunca apostou em “A Praça da Alegria”, originalmente de Manoel de Nóbrega. “A Globo nunca engoliu (A Praça da Alegria). Nunca, nunca. Até que começaram a botar a mão. Queriam fazer com padrão global e eu comecei a ficar irritado e chateado, porque estava fugindo da proposta original”, disse.

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Memória de Manoel de Nóbrega

Aos 86 anos, Carlos Alberto de Nóbrega continua atuando nos bastidores e na linha de frente de “A Praça É Nossa”. “Na minha cabeça, enquanto houver a Praça, não vão esquecer do meu pai. Eu luto pra manter a Praça no ar. É o único programa de humor desse gênero", disse em conversa para o programa de Eliana em abril deste ano.

Ele também mantém o próprio podcast, que faz durante a semana. “Gravo na quarta, edito na quinta. Esse programa vai ser sonorizado. Na segunda-feira, eles mandam pra mim o programa pronto. Sou centralizador, não espalha pra ninguém”, explica.

Quando questionado sobre aposentadoria, afirmou que já está “tirando o pé do acelerador”. Mas, para o humorista, trabalhar em “A Praça é Nossa” permanece o objetivo de sua vida. “Se Deus me permitisse, eu queria morrer fazendo ‘A Praça’. Eu não quero morrer em uma cama, eu quero morrer trabalhando, aquele banco é meu".

Onde assistir

Além das exibições no SBT (às quintas, 23h15min), “A Praça É Nossa” tem um canal no Youtube que reúne mais de quatro milhões de inscritos. No espaço virtual, conteúdos são adicionados diariamente.

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