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Mulher Barbada retoma o contato com a infância em espetáculo virtual

"Cartas para minha criança-viada" ganha transmissão na próxima segunda-feira, 29 de março, às 19 horas, no canal do Youtube do Pandêmica Coletivo Temporário

17:21 | 23/03/2021
Mulher Barbada apresenta espetáculo 'Cartas para minha criança-viada' nesta segunda-feira, 29 de março (Foto: Divulgação/ Peixe-Mulher)
Mulher Barbada apresenta espetáculo 'Cartas para minha criança-viada' nesta segunda-feira, 29 de março (Foto: Divulgação/ Peixe-Mulher)

Se você pudesse conversar com seu “eu” do passado, o que diria? Caso tivesse a oportunidade de escrever um texto para sua versão criança, o que acha que ela deveria saber? Existem várias maneiras de retornar no tempo e entrar em contato com suas memórias infantis. Alguns fazem isso a partir de álbuns de fotografias, outros adentram o universo dos sonhos para reencontrar épocas anteriores.

No caso da Mulher Barbada, esse processo de reflexão resultou no espetáculo “Cartas para minha criança-viada”, que estreia na segunda-feira, 29 de março, às 19 horas, no canal do Youtube do Pandêmica Coletivo Temporário. Rodrigo Ferrera, que dá vida à drag queen, percorre lembranças que permanecem vivas em seu imaginário.

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A obra, que tem direção de Juracy de Oliveira e texto de Henrique Fontes, mistura os testemunhos de várias pessoas. “Uma coisa que queríamos desde o começo era tratar de muitas memórias, que não fossem só minhas. Procuramos amigos, parceiros e colegas de trabalho que pudessem trocar com a gente suas histórias e, assim, conseguir juntar realidades diferentes, mas encontrar pontos que são comuns entre essas infâncias”, explica.

As dores de crescer fora do padrão, as alegrias de ser LGBTQIA+, as opressões enfrentadas e as formas de diversão entre amigos são alguns dos temas que abordará. “Eu não olho com dor ou rancor para o meu passado. Então, foi bastante doce retomar as recordações da escola, das brincadeiras com as meninas, das coreografias das aulas de arte, até mesmo de momentos de medo e insegurança”, afirma Rodrigo.

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Para o artista, a narrativa propõe um diálogo com os espectadores, porque atravessa experiências coletivas. Natais em família, brigas no colégio e brincadeiras com bonecos, por exemplo, são vivências compartilhadas entre várias pessoas.

“Esse espetáculo tem sido uma tentativa de encontrar as palavras para esse reencontro (entre o Rodrigo do presente e o do passado). E eu ainda não descobri exatamente o que dizer”, indica Ferrera. Ele acredita que todas as suas experiências - positivas e negativas - foram responsáveis por moldar sua personalidade e trajetória.

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“Ao mesmo tempo que queria ter dito para mim que confiasse no meu desejo e na minha força de vontade, que eu falasse mais sobre o que penso e o que sinto, acabei me tornando o adulto que sou por conta de todas essas memórias e cicatrizes. Então, talvez minha força venha disso”, reflete.

O artista afirma que o espetáculo será diferente do que o público está acostumado. “Vai ser diferente me ver sob essa ótica depois de tanto tempo longe de papéis que não fossem a própria Mulher Barbada, no contexto do coletivo As Travestidas. Será interessante trocar com o público que me conhece agora, uma pesquisa que não vem de hoje, mas que ficou guardada por bastante tempo”, diz.

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O conteúdo surgiu de reflexões com Juracy de Oliveira. Após morarem juntos por alguns meses no Rio de Janeiro, em 2019, eles começaram a firmar uma parceria para próximos projetos. “Nos primeiros meses de pandemia, Juracy se debruçou sobre trabalhos virtuais. Entramos em um processo de montagem de uma peça sobre a arte drag. Tudo ainda no campo do desejo, sem tanto direcionamento”, recorda Rodrigo.

Entre suas conversas, decidiram focar na infância. “A drag, muitas vezes, é uma realização de uma infância privada de signos femininos. Ela é a boneca que as crianças viadas sempre sonharam em ter, como numa fantasia infantil desse universo feminino’, explica.

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Além disso, o processo de construção do espetáculo está sendo registrado para um futuro documentário. Na obra audiovisual, ele conversa com outros gays sobre suas infâncias e como seus passados reverberam nos adultos que se tornaram. “Isso é tão novo que eu queria dividir o que foi construir esse trabalho. Sem pretensões de criar algo inovador, mas de dividir o meu processo para que as pessoas pudessem ver para além do espetáculo”, afirma.

De acordo com o artista, o trabalho está sendo construído de forma orgânica, a partir de ensaios e reuniões. “Tem uma ‘entrevista’ com minha mãe, que é particularmente especial. Será bonito dividir as ideias de uma mulher tão tranquilamente transgressora quanto ela”, revela.

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O experimento cênico, produzido pela Peixe-Mulher, terá apresentação única na internet. Entre performances, maquiagens e perucas, Mulher Barbada investiga as descobertas sobre si na infância. Projeto conta com apoio da Secretaria Estadual da Cultura do Ceará (Secult-CE), por meio da Lei Aldir Blanc.

Cartas para minha criança-viada

Quando: segunda-feira, 29 de março, às 19 horas
Onde: Youtube do Pandêmica Coletivo Temporário

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