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Cronica

Crônica: Escrito de quarentena

O isolamento social - não obrigatoriamente imposto pelos meses de quarentena motivada pela pandemia do coronavírus - ganhou novos significados e contornos para a juíza estadual Socorro Bulcão. Em forma de crônica, ela reflete sobre os aprendizados do período

14:04 | 28/07/2020
Autorretrato de Socorro Bulcão com a filha Isadora aos 4 anos. Pintura em aquarela foi produzida em maio deste ano, durante o isolamento social (Foto: Reprodução)
Autorretrato de Socorro Bulcão com a filha Isadora aos 4 anos. Pintura em aquarela foi produzida em maio deste ano, durante o isolamento social (Foto: Reprodução)

Mais uma noite de insônia. Logo eu, que sempre me orgulhei de ter invejável sono. Se é da idade? Não creio. Tenho uma certa juventude na alma, embora o corpo já padeça por motivo estranho ao meu tempo de existência.  Minha insônia não é “privilégio” de quarentena... Ou talvez seja, mas não desta. Ela antecede esses tempos da Covid-19. Data de um ano, exato; tempo em que descobri trazer dentro do meu peito, literalmente, um inimigo: um câncer de mama. E dormir com o inimigo não é auspicioso. Desde então a insônia, como um fantasma com procuração da morte, dá seu ar da graça ou da desgraça. Prefiro pensar na graça e da desgraça fazer um giro.

A insônia, naturalmente, veio junto a um distanciamento social imposto pela baixa da imunidade provocada pelo tratamento. Nada mais adequado que adotar tal medida como estratégia para vencer o inimigo. Na verdade, o afastamento social se tratava mesmo de uma prescrição médica.

Ai como senti falta! Falta de tantas pessoas, de tantos afazeres, programas, atividades, passeios, viagens; dos cafés com amigos, encontros, tarefas, da antiga rotina, da boa comida, da rua e da liberdade.
Tudo então se voltava para o cumprimento do protocolo médico. Isso envolvia sessões imediatas de quimioterapia, seguidas da cirurgia de mastectomia, mais sessões de quimio e depois de radioterapia. Além disso toda uma mudança na alimentação e suas restrições.

“Ainda bem que viajamos para a Austrália e Nova Zelândia”.

Retorna-me a fala do meu marido, tentando me confortar.

“É verdade”. Respondi.

Depois de ter feito essa viagem, de ter conhecido dois países tão deslumbrantemente lindos, minha vista se turvava diante daquele diagnóstico que me veio logo após o nosso casamento, três meses depois de retornarmos ao Brasil.

“Foi nossa lua-de-mel adiantada...”, completei minha fala.

Olhamo-nos com olhos amorosos.

Nossos sonhos haviam sido interrompidos, mas tínhamos fé de que os resgataríamos mais à frente, quando eu tivesse atravessado o caminho a trilhar, necessário a esse enfrentamento. Chegou o dia em que me submeti ao procedimento cirúrgico, seguido do tempo de convalescença. Essa experiência me leva a afirmar que por mais que se esteja amparado e rodeado de parentes, amigos e também do companheiro ou companheira de vida – e eu felizmente estava –, esse momento é de uma solidão tamanha que, muitas vezes, nem quem passa por isso no corpo e na carne consegue colocar em palavras o peso dessa travessia; travessia que cassa o verbo e em seu lugar impõe um silêncio cravado no peito e na alma. É a experiência com o Real que não pode ser tocado.

Dessa forma o meu prazer pela escrita foi capturado e enclaustrado. Escrever fora sempre a minha fuga, meu regaço. O que me viria em lugar desse refúgio?  Um dia tocou o telefone. Era uma amiga a me propor fazer um curso de pintura com a artista plástica Sandra Montenegro.

Lembrei então de uma experiência da infância com minha mãe e meu irmão mais velho, exímio desenhista, enquanto eu só reproduzia os seus desenhos. Datava desse remoto tempo a minha experiência com imagens, desenhos, pinturas. Mas o bom nisso era o meu irmão, não eu. Lembrei das minhas aulas de artes no colégio, também desses remotos tempos. Lembrei da minha mãe pintando; dos dias em que nossa mãe nos levou a um curso de pintura o qual não aconteceu porque o professor ali não apareceu.

Lembrei do quanto esse episódio aparentemente bobo me frustrou enquanto criança. Lembrei da minha Tia Olenka com quem tive aulas de artesanato, do crochê que me fora ensinado pelas avós, do tricô tardiamente aprendido e também abandonado. Lembrei de ter realizado a decoração do aniversário de dois anos da minha filha com a ajuda e sob a orientação de uma amiga artista plástica, e de que o resultado fora tão bonito, tão satisfatório! Lembrei do quanto eu gostava de dançar e do quanto quis tocar um instrumento. E pensei que disso tudo, de toda a arte que pulsava dentro de mim durante toda a vida, eu tinha realizado tão pouco, quase nada, e me senti em dívida comigo mesma.

Todas essas lembranças me vieram entre o convite de minha amiga e minha resposta afirmativa. E já na semana seguinte eu iniciava minhas aulas de pintura em aquarela, uma técnica difícil de dominar.
Eu tinha pressa em aprender, porque eu, que nunca tivera medo da morte ou ao menos não vivia a pensar nessa hipótese, já não tinha garantias ilusórias de quanto tempo iria viver. Precipitava-se ali a certeza de que um dia eu iria morrer, não mais importando se cedo ou tarde. E nada me assegurava que a morte chegaria mais tarde e me concederia a graça de ter mais tempo para adiar meus desejos. Era já ou nunca!
Passei a ter aulas de pintura uma vez por semana, às quartas-feiras. Às quintas eu fazia quimioterapia. E mesmo nesses dias, movida pela incrível força do desejo, eu chegava em casa, descansava o corpo e ia pintar. Pintar o quê? Meus queridos, meus amores, meus inspiradores: filha, neto, marido, mãe, enteada, amigos, minha cadela Amelie, James Joyce, Freud e Lacan, e outros... E eu mesma, meus autorretratos. São todos retratos da minha vida e dos meus quereres.

Dei-me tarefas quase diárias, de forma que, como Sheerazade, que a cada dia tinha uma história para contar e assim ludibriava o seu algoz, eu tivesse a cada desafio, a cada pintura realizada, um motivo para crer que só um desejo como esse seria capaz de me fazer driblar a morte e adiar o dia de deixar este planeta.

Não contava, todavia, que no meio disso tudo, eu ainda tivesse que enfrentar essa pandemia da Covid-19. Esse tempo de distanciamento social parece-nos uma experiência surreal, pois jamais nos passou pela cabeça que um dia teríamos que nos afastar dos nossos entes mais queridos, sem previsão de quando e mesmo se voltaremos a ter aquela vida normal.

Muitos se perderam nesse caminho e outros serão ainda vitimados. No Brasil já passam das 82 mil mortes e não vislumbramos o fim da pandemia. Eis aí o motivo para continuarmos suportando a agruras do distanciamento social, já que essa é a medida mais eficaz para evitar a disseminação do coronavírus.
Não, não é fácil. Manter-se em isolamento é uma a tarefa difícil, mas necessária. E não é só um gesto de altruísmo e de respeito para com o outro. É, antes de tudo, um gesto de amor próprio e de respeito para consigo mesmo. É também uma afirmação do desejo de resistir para sobreviver ao inimigo.

No meu isolamento social que aniversaria este mês eu cuidei em me proteger, e foi durante ele que eu pude ter esse encontro com um desejo que estava fadado a nunca brotar, pois no ritmo em que eu vinha levando a minha vida, jamais teria encontrado tempo para deixar florescer a semente daquilo que se tornou um norte e uma motivação para sonhar com uma vida longa.

Às vezes é preciso parar. E se não paramos, é a vida que nos para. E se não é a vida a nos parar, com certeza há de ser a morte, essa parada definitiva.

Maria do Socorro Montezuma Bulcão é juíza estadual