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Escultura "Mulher Rendeira" reaparece e obra será restaurada

Professor que resgatou os pedaços da escultura do lixo, afirma que a levou para casa porque não queria vê-la descartada no lixão do Jangurussu. Obra de Corbiniano Lins ficou aos pedaços

Demitri Túlio
16:30 | 01/06/2020
Pedaços da escultura
Pedaços da escultura "Mulher Rendeira", do pernambucano José Corbiniano Lins. Obra de arte, no Banco do Brasil da Praça do Carmo, em Fortaleza, foi destruída (Foto: José Viana da Silva/WhastApp O POVO)

Atualizada às 19h20min do dia 2/6 

A escultura da “Mulher Rendeira” reapareceu. Graças ao professor e construtor de brinquedos José Viana da Silva, 39, ela será restaurada e recolocada na agência do Banco do Brasil da Praça do Carmo, no Centro de Fortaleza. Na manhã desta segunda-feira, 1/6, José Viana procurou a gerência do banco, onde a obra de arte foi destruída na sexta-feira passada, 29, para comunicar que havia resgatado os pedaços da estátua em container. Ela seguiria para o lixão do Jangurussu.

Após uma reunião, entre José Viana e a gerência da agência do Carmo, ficou acertado que o Banco do Brasil (BB) e José Viana sentariam com a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) para iniciar a restauração da obra de arte. A “Mulher Rendeira”, trabalho do escultor pernambucano José Corbiniano Lins, foi instalada no cruzamento das avenidas Duque de Caxias com Barrão do Rio Branco em 1966.

“Não sumi com a estátua, como andam me criticando nas redes sociais. Apenas a resgatei do lixo. Na sexta-feira passada, estava passando de bicicleta pela Duque de Caxias quando vi que a ‘Rendeira’ estava sendo destruída. Parei, expliquei aos operários que se tratava de uma obra de arte e fui retirá-la do container”, esclareceu José Viana que é um microempreendedor, dono da Fortaleza Brinquedos.

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Após convencer os operários que a escultura não poderia ir para o lixo, Viana foi em casa, pegou a Kombi e resgatou as partes dilaceradas da escultura feita em ferro e alumínio fundido. “Primeiro, de bicicleta, levei a cabeça dela. Depois, sozinho, fui transportando pernas, braços e tronco da Rendeira. Não foi fácil, minha Kombi quase não suporta mil quilos e uma estátua de quase 1,80 metro, mas levei. Era o que deveria ter sido feito naquela hora”, conta o também professor de educação física.

Os pedaços da “Rendeira” foram levados para um dos vãos da casa de José Viana, no bairro Benfica. De acordo com o professor, como no final de semana não poderia entrar em contato com o Banco do Brasil, esperou a segunda-feira para procurar a agência bancária e iniciar a conversa sobre o restauro e a recolocação da “Mulher Rendeira” do lugar de onde não deveria ter saído como saiu.

“Acredito que houve uma sequência de ruídos de comunicação entre o Banco do Brasil e a construtora que realizava a obra de reforma. E, de repente, chegou um recado mal dado que deu na quase destruição definitiva da obra de arte”, avaliou o construtor de brinquedos.

Em nota, Fabiano Piúba, secretário da Cultura do Ceará, informou que Alênio Carlos, coordenador de Patrimônio Cultural da Secult, conversou com o José Viana para iniciar o processo de restauração da escultura.

“O Banco do Brasil também já vem tomando providências. A Secult tem o interesse de fazer o restauro e, caso o BB não tenha mais condições de assumir a obra, o Estado solicitará a doação. Um lugar interessante que pensamos seria a praça Luiza Távora (Ceart), mas sabemos que o lugar da “Mulher rendeira” é no jardim da agência do banco na Duque de Caxias”, escreveu Fabiano Piúba.

A Coordenaria de Patrimônio Cultural e Memória da Secult dispôs a Escola de Artes e Ofício Thomaz Pompeu Sobrinho para tocar o restauro. O banco, de acordo com José Viana, financiará a reparação da obra que será orçada pelo próprio professor.

E nota enviada ao O POVO, a gerência do Banco do Brasil da Praça do Carmo informou que "está em contato com autoridades e intervenientes e estuda meios de restaurar a obra - considerando os aspectos legais e artísticos envolvidos". E que adotará ações para a reinstalação da escultura.

Como o jornal havia antecipado, a gestão do BB responsabilizou a empresa de ArtFlex Engenharia por ter "indevidamente danificada e removida do local" a obra de arte do escultor pernambucano Corbiniano Lins.

"A reforma é realizada pela empresa Artflex Engenharia, contratada pelo BB a partir de processo licitatório, tendo como engenheiros responsáveis Lorena Bougleux e Rafael Lyra da ArtFlex, cabendo ao BB a fiscalização desse serviço".

De acordo com a gerência da instituição bancária, "a retirada da escultura, que está registrada no patrimônio do BB, é resultado de erro de execução no projeto de engenharia, que previa a remoção da escultura durante as obras exatamente para protegê-la, com sua posterior reinstalação".

Segundo o comunicado da Diretoria de Marketing e Comunicação da instituição bancária, "o Banco do Brasil lamenta profundamente o erro de execução da empresa contratada na realização da reforma. Assim, tão logo tomou ciência dos fatos, o BB iniciou os procedimentos administrativos cabíveis para apurar as devidas responsabilidades, tanto internamente quanto junto à empresa contratada". 

Na última segunda-feira, o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Jefferson John Lima da Silva,  protocolou "pedidos de fiscalização e abertura de processos éticos no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-CE) e no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA-CE)". Ele quer que se apure sobre a conduta dos profissionais envolvidos no ocorrido no Banco do Brasil. 

O POVO enviou perguntas, por e-mail, para os engenheiros da ArtFlex Engenharia. Até agora, a empresa (sediada em Brasília) não se pronunciou sobre o episódio que deu na destruição e descarte no lixo da escultura da "Mulher rendeira". 

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Três esculturas

O pernambucano José Corbiniano Lins, falecido em 2018, aos 96 anos em Recife, é autor de três esculturas públicas expostas em Fortaleza. De acordo com o jornalista Gilmar de Carvalho, além da “Mulher Rendeira”, Corbiniano esculpiu a estátua de “Martins Soares Moreno e Iracema”, que está na avenida Beira-Mar e o “Monumento ao Vaqueiro” exposto na praça da antiga entrada do aeroporto Pinto Martins.

A “Iracema”, de Corbiniano Lins, foi inaugurada em 1965 com a presença do presidente Castelo Branco, no início da ditadura militar no Brasil (1964-1985), na gestão do prefeito Murilo Borges.

De acordo com o livro “O artista Zenon Barreto e a arte pública na cidade de Fortaleza”, de Sabrina Albuquerque, também em 1965 foi instalado o “Vaqueiro” onde hoje o cearense chama de aeroporto velho. E no ano seguinte, a “Mulher Rendeira”.

O artista 

José Corbiniano Lins nasceu em Olinda, em 1924, e faleceu em março de 2018 após sofre um infarto. Ele iniciou nas artes como pintor no Atelier Coletivo de Olinda. Na década de 1950, militou no movimento de arte moderna de Recife ao lado de Abelardo da Hora, Reynaldo Fonseca, Samico e Celina Lima Verde.

Na praça General Abreu Lima, em Recife, está uma de suas obras mais importantes. Um painel de azulejos que retrata três marcos históricos ocorridas em Pernambuco. O 1817, (Revolução Pernambucana), o 1824 (Confederação do Equador) e o 1848 sobre a Revolução Praieira.