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Analise

Filme sobre adolescente trans, "Alice Júnior" conquista público no Festival de Vitória

Premiere Brasil do 26º Festival de Vitória, produção de Curitiba é estrelado pela atriz trans pernambucana Anne Celestino e foi calorosamente aplaudida após a exibição

29/09/2019 18:43:32
Cena do longa
Cena do longa "Alice Júnior", de 2019 (Foto: REPRODUÇÃO)

Alice Júnior é uma youtuber trans cercada de liberdades e mimos. Depois de se mudar com o pai para uma pequena cidade onde a escola parece ter parado no tempo, a jovem precisa sobreviver ao ensino médio e ao preconceito para conquistar seu maior desejo: dar o primeiro beijo.

Quando eu me deparei com essa sinopse antes da exibição do longa “Alice Júnior” (2019), que fez a sua première nos cinemas no 26º Festival de Cinema de Vitória, vi um tema muito importante a ser debatido, mas sem acreditar tanto no potencial da obra. Ledo engano. Não apenas eu, mas praticamente todo o cineteatro Glória, em Vitória (ES), recebeu a comédia do jovem cineasta Gil Baroni com calorosos aplausos ao final de sua projeção.

“Estreamos em um bom momento, dentro de um país sufocado por um governo autoritário, e que insiste em restringir os direitos de pessoas como a minha protagonista. Temos uma mensagem muito clara de resistência, e Alice Júnior é um filme que está resistindo e existindo, a partir do olhar de uma adolescente trans, nesse país que tem essas anomalias, e nós precisamos deixar o recado da importância da diversidade no Brasil”, expôs o diretor da obra, Gil Baroni.

O diretor do longa, e sua produtora Andréa Tomeleri tinham um desafio de encontrar uma adolescente trans para o longa, e conseguiram encontrar a sua protagonista através de uma seleção na web.

“Mandei uns vídeos e fui selecionada por Gil (Baroni) e (Luiz) Bertazzo (o roteirista), que foram mestres para mim, sempre muito abertos a receber dicas e conselhos meus. Houve até alteração no roteiro depois que tivemos o nosso laboratório de preparação para o filme. Diálogos foram inseridos em apoio à causa trans, pois no filme tudo é muito leve, mas era necessário que algumas frases existissem, precisávamos externar isso, e o público recebeu de forma extremamente calorosa”, relembra a jovem atriz Anne Celestino.

Ela também apontou semelhanças entre a personagem e a sua vida. “Tem muito de mim em Alice e tem muito de Alice em mim, as histórias se encontram. Alice é uma garota privilegiada, pois tem apoio do pai, e eu sou uma garota privilegiada pois também tenho apoio dos meus pais, eu já tinha blog, fazia vídeos, ela é toda blogueira, youtuber, então acho que foi o encontro perfeito”, finaliza.

O filme de Gil Baroni é leve, levanta uma questão importante – as dificuldades de aceitação da sociedade com uma garota trans – mas não perde a piada por nada. Mas é importante ser dito, tudo é tratado de maneira delicada, por vezes até ingênua, mas que dialogam perfeitamente com a geração retratada em tela.

“Me coloquei numa relação com Anne (Celestino) de ouvir, do que se pode falar, do que não se pode falar com uma trans, levei vários puxões de orelha dela... Eu pude aprender com as novas gerações que estão aí. O processo do filme foi construído com ela, pois ela está no lugar de fala dela, e demos voz para uma causa necessária. E nós usamos as metáforas, camadas e subjetividades que só o cinema é capaz de dar. E pela reação do público, acho que conseguimos”, completa.

“Alice Júnior” é muito mais que um lacre. É uma obra que, ao exaltar a sua própria pluralidade de forma leve, consegue versar sobre uma história de resiliência e a resistência de corpos numa sociedade padronizadora e conservadora do Brasil. E apresentá-lo num tom fabular, colorido e pulsante, deixa ainda mais acessível. Uma obra bem resolvida e divertidíssima, que merece ser recebida de braços abertos por um grande público nos cinemas.

Depoimento da mãe da atriz protagonista do filme

Daniel Herculano é jornalista, membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), vice-presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine) e crítico da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci). O jornalista viajou a convite do Festival de Cinema de Vitória.

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