PUBLICIDADE
NOTÍCIA

Artistas com deficiência visual inauguram galeria de arte em Fortaleza

Cerca de cem pessoas estiveram presentes na inauguração de uma das primeiras galerias de artistas com deficiência visual do Ceará, no Instituto Hélio Góes

17/09/2019 16:10:07
Souza Ana expondo um de seus quadros. A inauguração aconteceu na manhã desta terça-feira, 17, no Instituto Hélio Góes.
Souza Ana expondo um de seus quadros. A inauguração aconteceu na manhã desta terça-feira, 17, no Instituto Hélio Góes.(Foto: Gabriela Feitosa/ ESPECIAL PARA O POVO)

“A arte mudou muita coisa. Eu achava que não poderia fazer mais nada depois de perder a visão. Com a vinda do curso, não tenho dúvidas que a gente pode fazer”. A fala de Souza Ana mostra uma das transformações que o curso Cores da Alma tem trazido para os participantes. Souza Ana é uma das artistas com deficiência visual que inauguraram, na manhã desta terça-feira, 17, uma galeria de arte no Instituto Hélio Góes - conhecido como Instituto dos Cegos. O curso foi criado em 2018 pelo artista Dias Brasil.

Clique na imagem para abrir a galeria

São sete artistas com deficiência visual na equipe do curso. É dessa forma, aliás, que os pintores se reafirmam: artistas invisuais. A ideia partiu de Dias Brasil, atual curador da galeria, que acompanha a turma desde agosto do ano passado. “Acho essa palavra pesada - deficiente visual. A primeira coisa que fiz foi criar nomes artísticos para eles, para as pessoas tratarem eles como artistas. Não como deficiente, cego”.

Até chegar à inauguração da exposição “Atreva-se a viver” - título que faz referência à música Dare To Live, de Laura Pausini (uma das inspirações para a equipe) -, Dias Brasil precisou realizar um trabalho sistemático adequado à realidade dos alunos. A metodologia de ensino teve que ser desenvolvida do zero, pois, no início do curso, os estudantes não possuíam referências artísticas. Foram realizadas aulas de teoria e história da arte apenas com materiais sonoros, além de visitas a exposições artísticas com recursos de acessibilidade.

"Tem como principal objetivo identificar, despertar, desenvolver as potencialidades artísticas dos invisuais. Esperando que as suas inserções no mundo da arte possam transformar, de alguma forma, suas vidas", destaca Sebastião de Paula, artista cearense que escrever uma crítica ao projeto. Além dele, cerca de cem pessoas - entre estudantes, familiares e outras pessoas atendidas pelo Instituto Hélio Góes - estiveram presentes.

Parte do método desenvolvido por Dias envolve, inclusive, o uso de memórias anteriores à perda de visão. Muitas das pinturas dos sete artistas trazem essa temática. Ariel, que também estava expondo na manhã, relembrou rostos de sua infância para criar figuras humanas. Para ela, a arte é uma maneira de elevar a autoestima, com o reconhecimento recebido pelo trabalho.

O pintor Marcos Soares traz em suas obras temas relacionados ao mar. O artista, que perdeu a visão há 10 anos, conta que esteve a vida inteira próximo de marinas e barcos, escolhendo, portanto, retratar velas de jangadas em suas pinturas. Assim como Ariel, Soares pretende continuar aperfeiçoando sua técnica e levar adiante a carreira artística.

É também o caso de Souza Ana. A professora de educação física participa de outros cursos da instituição. Mas foi nas artes visuais que ela encontrou aquilo que "não acreditava ter": dom para a pintura. "Por mais que seja difícil a deficiência, a gente é capaz de fazer algo. Eu não quero parar. Tenho o sonho de fazer faculdade de dança". Na inauguração, Souza Ana esteve bastante emocionada, recebendo com carinho quem apreciava suas obras.

Organizadores do evento apontaram que a galeria é pioneira no Ceará em relação à inclusão e possibilidade de desenvolver independência e autoestima nos artistas. A exposição segue aberta em um dos prédios do Instituto Hélio Góes, localizado na avenida Bezerra de Menezes, 892, bairro São Gerardo. A visitação é gratuita, mas estão à venda alguns objetos como cartão postal e xícaras estampadas com as obras da galeria. Os cartões custam R$ 10 e as xícaras R$ 25. Alguns quadros também podem ser comprados pelo valor de R$ 150.

Você também pode gostar: