Janeiro Roxo: Campanha busca conscientizar sobre hanseníase e combater estigma
Janeiro reforça a importância do diagnóstico precoce da hanseníase, doença endêmica no Brasil que tem tratamento gratuito pelo SUS. Veja sinais de alerta
Resumo
Conhecida na Bíblia como “lepra”, a hanseníase é uma das doenças mais antigas da humanidade, que atinge a pele e os nervos periféricos.
Apesar do avanço científico e da existência de um tratamento eficaz e gratuito, a enfermidade ainda carrega um forte estigma social e enfrenta o desafio da desinformação, contribuindo para o diagnóstico tardio e a manutenção da cadeia de transmissão.
Visando ampliar a conscientização e incentivar o diagnóstico precoce, o Ministério da Saúde oficializou, em 2016, a campanha Janeiro Roxo, mês dedicado ao enfrentamento da hanseníase. A ação ganha ainda mais força no dia 25 de janeiro, data reconhecida como o Dia Mundial de Combate à Hanseníase, quando todos os países endêmicos, como o Brasil, realizam atividades em alusão à data.
Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em setembro de 2025, o Brasil é o segundo país com o maior número de novos diagnósticos, somando cerca de 22 mil casos registrados em 2024. No Ceará, o último balanço contabilizou 1.102 registros da doença.
Para a pesquisadora Aymée Rocha, do NHR Brasil (Netherlands Leprosy Relief), organização brasileira ligada a uma ONG holandesa que atua no combate à hanseníase e outras doenças tropicais negligenciadas, a campanha é essencial para dar visibilidade ao tema.
“Tem aquele ditado: o que não é visto não é lembrado. O Janeiro Roxo é um chamado para que não esqueçamos da hanseníase”, afirma.
Transmissível, mas com cura, a hanseníase tem seu tratamento disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Uma vez iniciado, o paciente deixa de transmitir a doença, tornando o diagnóstico precoce uma das principais estratégias para interromper a cadeia de contágio e evitar sequelas graves.
Hanseníase: uma doença socialmente silenciada
A hanseníase é causada por uma bactéria descoberta há mais de 150 anos, a Mycobacterium leprae. Porém, o tratamento realmente eficaz, a poliquimioterapia, só foi incorporado amplamente entre as décadas de 1980 e 1990.
“Esse atraso histórico contribuiu para a alta proliferação, para as medidas extremas adotadas no passado e para a consolidação do preconceito que persiste”, diz Aymée. Uma das discussões atuais propõe substituir o termo “doença negligenciada” por “doença socialmente silenciada”.
A trajetória da hanseníase foi marcada por práticas de isolamento e segregação. Durante décadas, pessoas acometidas pela doença foram rotuladas como “leprosas” e submetidas a internações compulsórias, violando os direitos humanos.
Importância do Janeiro Roxo
Apenas a partir da década de 1970, uma legislação passou a proibir o uso do termo “lepra” por profissionais de saúde e a existência de “leprosários”.
A mudança de nomenclatura para hanseníase, em referência ao médico norueguês Gerhard Hansen, que identificou a bactéria, simboliza uma virada na forma de encarar o problema.
Hoje, o termo reforça que se trata de uma enfermidade com tratamento eficaz e cura, diferente do cenário do passado.
Aymée também chama a atenção para a redução das campanhas educativas nas últimas décadas e para a invisibilidade do tema nos ambientes acadêmicos. O estigma ainda impacta diretamente o atraso no diagnóstico, já que muitas pessoas relutam em aceitar a doença ou em revelar a condição à família.
“É aí que entra o Janeiro Roxo. A campanha reforça que a hanseníase é uma doença infecciosa como qualquer outra, que tem tratamento e cura. Para evitar sequelas, é fundamental o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno. Além disso, é essencial que a família e a comunidade apoiem as pessoas que estão passando pelo processo de diagnóstico.”
Hanseníase: sinais de alerta e importância do diagnóstico precoce
Um dos principais desafios no combate à hanseníase é o reconhecimento dos sintomas iniciais. Em muitos casos, a doença começa apenas com manchas na pele que não coçam, não doem e não incomodam, mas apresentam alteração de sensibilidade. Por parecer algo simples, a pessoa costuma adiar a procura por atendimento médico.
A hanseníase, porém, afeta primariamente os nervos periféricos e o dano neural pode ocorrer antes mesmo do surgimento das lesões visíveis. “Quando a mancha aparece com perda de sensibilidade, isso já indica que houve um dano neural causado pela bactéria”, explica a pesquisadora.
As lesões neurais conferem à doença alto poder de gerar deficiências físicas e figuram como o principal responsável pelo estigma e pela discriminação. O contágio só acontece após longos períodos de exposição à bactéria, sendo que apenas uma pequena parcela da população infectada realmente adoece.
Entre os sinais de alerta estão:
- manchas claras ou avermelhadas com perda ou diminuição da sensibilidade;
- formigamento, dormência ou fisgadas, principalmente nas mãos e nos pés;
- fraqueza muscular e dificuldade para segurar objetos ou caminhar.
Quanto mais cedo o diagnóstico, menores são os riscos de incapacidades físicas permanentes, como perda de força e mobilidade. Após a confirmação da doença, é realizada uma avaliação neurológica simplificada, que identifica possíveis alterações motoras e sensitivas e orienta medidas de prevenção.
“O ideal é que a pessoa seja diagnosticada em grau zero de incapacidade. Mas, mesmo quando já existem sequelas, há estratégias para melhorar a qualidade de vida”, explica Aymée.
Informação, acolhimento e apoio
Além do tratamento médico, o apoio da família e da comunidade é fundamental para garantir a adesão ao tratamento e reduzir os impactos psicológicos da doença.
“Quanto mais a pessoa se sente acolhida, maiores são as chances de completar o tratamento e enfrentar a doença com menos sofrimento emocional”, afirma a pesquisadora.
A hanseníase tem cura, o tratamento dura de seis a doze meses e, iniciado precocemente, evita sequelas e interrompe a transmissão.
“O Janeiro Roxo reforça que informação de qualidade, combate ao preconceito e acesso ao diagnóstico são os principais caminhos para que uma doença milenar deixe de ser, finalmente, um problema de saúde pública no país”, finaliza.
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