Mulheres negras enfrentam câncer de mama mais agressivo

Mulheres negras enfrentam câncer de mama mais agressivo

A mortalidade de mulheres negras por câncer de mama é 40% superior à de mulheres brancas
Autor NeilaFontenele
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Mulheres negras apresentam uma prevalência maior de câncer de mama triplo-negativo, considerado o subtipo mais agressivo da doença. Diante desse cenário, as taxas de mortalidade chegam a ser 40% superiores às registradas entre mulheres brancas. Detalhe: isso acontece, apesar da incidência de câncer de mama em geral entre pessoas negras ser 5% inferior à observada em mulheres brancas.


Esses dados foram apresentados pela oncologista Ana Amélia Viana durante encontro promovido pela farmacêutica MSD, em Salvador, aberto pela diretora médica da companhia, Datz Abadi.

Ana Amélia destaca que, no caso das mulheres negras, além da maior incidência de tumores agressivos, há graves dificuldades no rastreamento da doença em função do racismo — muitas vezes manifestado como um "viés implícito".

Médica oncologista Ana Amélia Viana
Médica oncologista Ana Amélia Viana Crédito: Arquivo pessoal

As causas dos adoecimentos são multifatoriais, mas os problemas para os tratamentos sofrem a influência de questões que envolvem do conhecimento sobre o próprio corpo ao menor acesso a cuidado especializado e à centralização de exames em grandes centros urbanos. Na avaliação da especialista, a situação exige uma mobilização para reforçar a rede de exames e um esforço educativo para desconstruir preconceitos enraizados.

“O racismo mata. Os problemas não são apenas biológicos, mas também de acesso aos tratamentos”, reflete ela. Segundo a médica, o “racismo implícito” apresenta-se de forma disfarçada por meio de máximas que prejudicam o atendimento. Entre tais máximas, por exemplo, há as falsas crenças de que pessoas negras seriam mais resistentes à dor — o que as faz esperar mais por atendimento — e a ocorrência de consultas mais curtas e superficiais.

A oncologista reforça que esses vieses são manifestações do racismo estrutural na saúde. “A estrutura social brasileira é refletida nos cuidados médicos. Pacientes negros podem receber um tratamento inferior sem que haja uma intenção consciente do profissional, mas o impacto é real e grave”, complementa.

A médica enumera diversas barreiras enfrentadas por esse público: acesso desigual a exames de rastreio; demora para início do tratamento; e dificuldades na manutenção de terapias prolongadas devido à menor rede de apoio. O resultado é dramático e gera um efeito cascata na sociedade. “Isso implica um maior número de crianças órfãs, com profundas consequências sociais e econômicas”, alerta.

Por fim, Ana Amélia destaca a falta de representatividade: apenas 3% dos médicos no Brasil se autodeclaram negros, e apenas 1% são oncologistas. Para ela, é urgente um esforço de empatia e uma abordagem inclusiva e equitativa. “Precisamos de profissionais preparados para acolher a diversidade da população brasileira”, conclui.

* A jornalista viajou a Salvador a convite da MSD

 

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