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Saúde
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Faceapp: a brincadeira do envelhecimento pode provocar roubo de dados?

00:06 | 22/07/2019
Normalmente, todos querem distância da própria velhice – mas não com esse aplicativo. Mas termos de uso vagos e o fato de desenvolvedor ter sede na Rússia vêm despertando a desconfiança de políticos e especialistas.Cabelos grisalhos, rugas profundas, a pele que cede à força da gravidade: esse é um destino que aguarda a todos, mais cedo ou mais tarde. A vida na idade avançada é algo sobre o qual especialmente os jovens preferem não pensar. No momento, porém, parece que muita gente mal pode esperar até ver o próprio corpo definhar. O aplicativo Faceapp faz seus usuários envelhecerem décadas em questão de segundos, bastando uma foto e alguns cliques. As redes sociais estão cheias de rostos enrugados. Celebridades de todo o mundo participam, desencadeando uma euforia global da qual quase ninguém parece conseguir escapar. De repente, o DJ David Guetta parece ter uma carreira de 60 anos, e a banda Jonas Brothers se vê projetada diretamente ao ano 3000. Porém um teste pessoal mostra que o aplicativo não funciona espantosamente bem apenas com gente famosa: minha versão futura tem uma assustadora semelhança com meu pai e avô. Assim, o Faceapp dispensa também um exame de paternidade. Passado o primeiro susto, logo vem o segundo: o app é um ótimo exemplo de como hoje em dia se pode manipular imagens de forma imperceptível. Por trás dele está uma inteligência artificial que conhece as fases do processo de envelhecimento e pode ser aplicada a qualquer rosto. Mas isso não é tudo: ele também permite simular uma aparência mais jovem, experimentar um novo penteado ou ganhar uma barba mais cheia. Só que de início os usuários têm que se contentar com uma franja virtual ou uma barba hipster: mudanças maiores exigem maiores investimentos, e outras funções, como um bigode, só estão disponíveis mediante uma assinatura anual – de 44 ou 20 euros, para usuários europeus. Ao que tudo indica, milhões simpatizaram com as funções do Faceapp, que ocupa o primeiro lugar nas listas mundiais de downloads, para Apple ou Android. Para a desenvolvedora russa Wireless Lab, trata-se de um sucesso total. Embora tardio, pois o programa está há cerca de dois anos no mercado. Parece puro acaso os famosos do mundo o terem descoberto agora. Mas em meio à euforia do Faceapp nas lojas de apps e às redes sociais também despontam as primeiras vozes críticas. A Wireless Lab tem sede em São Petersburgo, na Rússia, como consta das condições de uso do programa. Fora isso, nada mais se sabe sobre a empresa. E quem lê com mais atenção as condições e a cláusula de proteção de dados pessoais, logo perde o prazer de brincar: o aplicativo não apenas coleta os dados dos usuários, como também armazena as fotos. Os críticos temem que o Estado russo possa vir a utilizá-las. Mas o que Vladimir Putin vai querer com fotos de milhões de pessoas enrugadas? Nada, assegura o chefe do Wireless Lab, Yaroslav Goncharov, só as imagens disponibilizadas pelo usuário são carregadas e manipuladas. A rigor, isso também seria possível no próprio aplicativo, admite, mas o desempenho do algoritmo de processamento melhora se as fotos se encontram na "nuvem". Segundo ele, os servidores encarregados não estão na Rússia, mas nos Estados Unidos, Cingapura ou Irlanda, e pertencem à Amazon ou ao Google. Além disso, a maioria das imagens é apagada dentro de 48 horas, diz Goncharov, e os metadados não são passados para terceiros além dos parceiros de publicidade. Isso não seria nada de novo, diz, pois também Facebook ou Google empregam dados de seus usuários ou os passam adiante. Mas os críticos não confiam cem por cento nas declarações do empresário russo. Dados pessoais importantes poderiam cair em mãos erradas, adverte o comissário federal alemão para proteção de dados, Ulrich Kelber; as condições de uso também são vagas demais. Uma empresa russa que coleta dados e armazena fotos? Nos EUA soam todos os alarmes, diante da ideia. A política nacional está em estado de alerta, desde que a Rússia interferiu nas eleições de 2016, que colocaram Donald Trump na Casa Branca. Assim, talvez em breve o Departamento Federal de Investigação (FBI) esteja se ocupando do Faceapp. Em carta às autoridades americanas, o democrata Chuck Schumer apelou para que o FBI, em conjunto com o Departamento de Proteção Financeira do Consumidor (CFPB), investigue se os programadores transmitem a terceiros os dados de cidadãos americanos. Afinal, se exige que os usuários concedam "acesso total, irrevogável a suas fotos pessoais de dados". O senador considera "profundamente alarmante" que "uma potência inimiga, que pratica cibercrimes contra os EUA", possa obter dados pessoais. Os democratas urgem seus candidatos presidenciais a eliminar imediatamente o app. No entanto, depois que arrefeceu a primeira onda de indignação, especialistas começaram a se manifestar, alertando sobre um pânico exagerado. Sob o pseudônimo "Elliot Alderson", um especialista em segurança francês conferiu se os dados são transferidos furtivamente: de fato, só são carregadas as fotos que o usuário escolhe, afirmou ao jornal inglês The Guardian. Assim, ele rebateu assertivas anteriores, nas redes sociais, de que o Faceapp se apoderaria de todas as imagens guardadas nos smartphones. De resto, o programa só transfere o modelo e número de série do aparelho, dados que a maioria dos aplicativos já registra, para fins de análise de utilização. O medo do programa só se deve ao fato de a firma responsável estar sediada na Rússia, disse "Alderson". Apesar de tudo, segue em aberto se as fotos dos usuários não são usadas para outros fins, sem que eles percebam. E ainda está em aberto se o Faceapp é realmente capaz de predizer a aparência de seus usuários na idade avançada. ______________ A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | App | Instagram | Newsletter Autor: Patrick Grosse (av)

Fonte: DW | dw-world.de

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