Relação de Toffoli com resort e condução do caso Master pressionam o ministro e o STF
Cunhado de Vorcaro seria dono de um fundo de investimentos, gerido por empresa investigada, que comprou a participação de dois irmãos do ministro em um resort localizado no Paraná
Conforme a investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master e as fraudes financeiras avança, novos desdobramentos da operação são evidenciados, incluindo a relação do fundador da instituição bancária, Daniel Vorcaro, com nomes da política e da Justiça brasileira. A relatoria do caso está sob a responsabilidade do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que, em meio a decisões consideradas controversas e à conexão entre parentes de Vorcaro e Toffoli, vem sendo alvo de fortes críticas.
O episódio mais recente envolve um resort localizado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná. Informações do jornal Estado de São Paulo mostraram que o empresário e pastor Fabiano Zetter, cunhado de Vorcaro, seria o dono de um fundo de investimentos que comprou a participação de dois irmãos de Toffoli no resort Tayayá. O fundo é gerido pela Reag Investimentos, investigada na Operação Compliance Zero.
No dia 14 de janeiro, Zettel chegou a ser preso temporariamente após ter sido detido no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, durante a segunda fase da operação. Apesar de não ter participação direta no resort, Toffoli teria frequentado o local em diferentes ocasiões. Em um vídeo que seria de 2023 e divulgado pelo Metrópoles nesta quinta, o ministro aparece no resort recebendo empresários e banqueiros. Entre eles, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e o empresário Luiz Pastore.
Reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do site Metrópoles mostraram que Toffoli continua a visitar o resort com os irmãos, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, e outros familiares, mesmo após a venda do controle do Tayayá para o advogado Paulo Humberto Costa, em fevereiro de 2025.
Seguranças que atendem o STF teriam passado ao menos 134 dias no Tayayá Resort, entre janeiro de 2022 e novembro de 2025, conforme indicam as diárias pagas a esses profissionais. As diárias dos seguranças que atenderam autoridade do STF custaram R$ 548,9 mil aos cofres públicos. O total pode ser calculado a partir da prestação de contas do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região, de São Paulo, que deslocou equipes de segurança para atender ao Supremo nas viagens ao Paraná. Os dados foram divulgados pelo portal Metrópoles e confirmados pelo Estadão.
A condução do caso feita por Toffoli também tem sido criticada. Em dezembro, após a prisão de Vorcaro, o ministro puxou a investigação para o Supremo. A Corte atua em processos que envolvem autoridades com foro privilegiado e um dos documentos apreendidos pela PF citaria o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). No entanto, ministros estariam avaliando o envio do caso à primeira instância.
Além disso, Toffoli impôs sigilo absoluto na investigação. O ministro ainda determinou que todos os bens, documentos e eletrônicos apreendidos fossem levados ao Supremo para serem mantidos lacrados e sem acesso à internet. Porém, após pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), Toffoli reconsiderou e autorizou que o material fosse enviado ao órgão.
Em novembro de 2025, o ministro do STF viajou para o Peru, onde assistiu à final da Libertadores, no mesmo jatinho de um dos advogados de um investigado no caso.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) acionou a PGR para solicitar a investigação de possíveis conflitos de interesse e impedimentos de Toffoli. Outros parlamentares, como a senadora Damares Alves (Republicanos), também questionaram a atuação e pediram pela suspeição ou impedimento do ministro. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, arquivou um pedido para a retirada de Toffoli da relatoria do caso Master.
Mesmo com as fortes críticas e a repercussão para o Supremo, Toffoli já demonstrou não ter a intenção de deixar o caso. De acordo com a Folha de São Paulo, o ministro disse a interlocutores que não teria motivo para abdicar do processo, pois não se enquadra nas hipóteses de impedimento previstas e não tem motivo de foro íntimo para se declarar suspeito.
Fachin defende Toffoli
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, saiu em defesa do ministro Dias Toffoli nesta quinta-feira, 22, afirmando que ele atua em "regular supervisão judicial" dos casos sob sua relatoria, assim como os demais ministros da Corte.
Em nota, o ministro afirmou que o STF "não se curva a ameaças ou intimidações". "Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito", ressaltou.
As ponderações constam de nota oficial divulgada pelo STF nesta noite. No texto, Fachin não cita a investigação sobre o Banco Master, diretamente, mas afirma que "situações com impactos diretos sobre o sistema financeiro nacional exigem resposta firme, coordenada e estritamente constitucional das instituições competentes".
O ministro chegou a citar as "competências" de cada uma das instituições relacionadas ao caso, como a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Também citou o Banco Central, ressaltando que o mesmo tem o "dever jurídico de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, a continuidade das operações bancárias essenciais, a proteção dos depositantes e a prevenção de riscos sistêmicos". "Tais competências, de natureza técnica e indelegável, devem ser exercidas com plena autonomia e sem ingerências indevidas", pontuou.
Fachin sustenta que "nenhuma pressão política, corporativa ou midiática" pode revogar o papel da Corte máxima. "A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça", ressaltou.
Ao classificar como legítima a atuação dos ministros durante o recesso, Fachin ainda anotou que "eventuais vícios ou irregularidades alegados serão examinados nos termos regimentais e processuais".
Também assentou que as decisões proferidas pelos ministros durante o recesso - inclusive as de Toffoli - "serão, oportunamente, submetidas à deliberação colegiada, com observância do devido processo constitucional, da segurança jurídica e da uniformidade decisória". "A colegialidade é método", completou.