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Novas críticas de Ciro a Lula aprofundam incômodo na relação entre PT e PDT Ceará

Posicionamento duro do ex-ministro contra Lula irritou tanto parlamentares de ala mais radical do PT quanto militantes e filiados do partido no Ceará. Debate defende um posicionamento de menos "subserviência" entre Ferreira Gomes e PT
18:37 | Jan. 24, 2022
Autor Filipe Pereira
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Filipe Pereira Repórter de Política
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Tipo Notícia

Membros da cúpula cearense do PT manifestaram incômodo com as fala de Ciro Gomes durante o lançamento da sua pré-candidatura à Presidência da República na última semana. A aliança entre petistas e pedetistas no estado entra em novo teste de resistência após o ex-ministro lançar duras críticas ao ex-presidente Lula ao responder uma pergunta em que acusa o site Brasil 247 de "não ser um órgão de imprensa" e de ser "um panfleto do Lula, pago com dinheiro sujo".

Neste domingo, 23, uma nota de repúdio do PT foi assinada pela deputada federal Luizianne Lins, pelo deputado federal José Airton e pelo deputado estadual Elmano de Freitas. Entusiasta da aliança entre PT-PDT no Ceará, o deputado José Guimarães não assinou o documento. "É lamentável a manifestação de agressão injusta, manipulação de fatos e falta de percepção dos desafios para o povo brasileiro que o pré-candidato Ciro insiste em expressar", inicia o texto. 

Na sua resposta ao jornalista Luís Costa, o presidenciável fez uma exposição sobre seus apoios à esquerda e a Lula no passado e, depois de avaliar a candidatura do PT em 2018 como fracasso, disse: “Capricho do lupo-petismo, nunca mais. Anote isso aí [dirigindo-se ao jornalista Luís Costa Pinto] para não fazer mais esse tipo de pergunta… E o 247, Lula, desculpe, não é um órgão de imprensa. É um panfleto do Lula. Pago com dinheiro sujo”.

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Ao avaliar que Ciro representa "o mais absurdo sectarismo", o documento destaca que o PDT de Leonel Brizola não merece uma representação "divisionista e descompromissada". "Ciro sugere viajar novamente a Paris. Tamanha diferença explica um pouco porque, em 2002, Brizola desistiu de Ciro e manifestou seu apoio a Lula nas eleições presidenciais", desenvolve o documento. 

A relação entre os partidos no Ceará e o tratamento de Ciro aos petistas no âmbito nacional também vem sendo motivo de questionamentos entre militantes e filiados petistas no estado. O ex-deputado Mário Mamede, coordenador do Núcleo Américo Barreira do PT Fortaleza, criticou duramente o ex-ministro ao considerar que o pedetista "não sabe fazer um trabalho de construção partidária". 

"Há muito tempo que o Ciro vez agredindo o PT. Ele não sabe fazer um trabalho de construção partidária. Ele entra para dentro do partido, deixa seus quadros, rompe e vai ocupar outro partido. Ele tem que ficar permanente disputando e criando inimigos em outros partidos e expressões políticas", avaliou Mamede. Segundo o petista, em sua quarta campanha ao Planalto, Ciro não vem conseguindo tingir um "intuito messiânico" de se tornar presidente. 

"É a quarta campanha dele e não passa dos 12%. Ele não consegue o intento messiânico dele. Ele tem um hiper ego que é maior do que ele, então ele tenta se colocar como um cara de centro-esquerda, primeiro negando o PT e escolhe como alvo o Lula. Toda a movimentação dele foi completamente errada, porque a dimensão humana do político e do ser humano Lula é muito maior do que a pequenez do Ciro", completou o ex-deputado. 

Ao criticar Ciro, o petista também destaca que filiados do partido têm manifestado incômodo diante da relação de "subserviência" entre PT-PDT no Ceará. Ao endossar uma carta pública divulgada pelo Núcleo Américo na última semana, Mário criticou a recente nomeação de Ilário Marques para o cargo de secretário de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da gestão José Sarto (PDT), o que viria a desobedecer o posicionamento de oposição do PT Fortaleza ao governo de José Sarto (PDT). 

"É lamentável, porque somos um partido que cada vez no Ceará, ao invés de atingir uma capacidade maior no estado, estamos nos mediocrizando pelo domínio dos Ferreira Gomes. O Ilário está numa área que ele não tem a menor instrução, não tem articulação política nacional nem local, nem o conhecimento de gestor, e no primeiro estalar de dedos aceita o convite?", questionou Mamede. "A gente faz parte de um partido da dimensão histórica e não consegue ter opinião sobre nada. Qual a opinião do PT nas grandes discussões do Ceará?" continuou. 

Mário acusa os Ferreira Gomes de "habitar vários partidos" através de um único tipo de comportamento. "Eles assumem o partido, ocupam os principais poderes de mando, tomam a direção e depois rompem, deixam o partido arrebentado e o prejudicam enormemente. Os Ferreira Gomes hoje têm quadros de militantes em vários partidos servindo seus interesses", disse. 

O debate tangencia ainda outra questão já pensada por outra ala petista no Ceará: o lançamento de um nome petista para disputar o governo estadual. "O PT deve ter candidatura própria. Não pode ter negado esse direito. Vamos negociar uma relação no projeto onde o PT vai ter direito de fala e não apenas balançar a cabeça como calango. O PT tem candidato no primeiro turno, pode ir pro segundo turno, ou não, mas nesse caso os Ferreira Gomes e seus aliados vão precisar negociar com o PT com atitudes mais respeitosas", completou Mamede. 

Nesta segunda, o deputado estadual Acrísio Sena (PT) atentou para a necessidade de o PT Ceará retomar o diálogo com as bases políticas e demais filiados no estado. Em nota, o petista defendeu as 12 filiações de prefeitos ao partido - ação também criticada por militantes e filiados - como parte das articulações do governador Camilo Santana para o fortalecimento partidário. Porém, ele confessou a importância de um gesto de maior ampliação das discussões partidárias.

"É lamentável e reprovável a fala do ex-ministro Ciro Gomes sobre o nosso presidente Lula e sobre o PT. É claro que essa postura dificulta a aliança, já que qualquer projeto político em comum pressupõe respeito mútuo entre os seus participantes", critica a vereadora Larissa Gaspar. A parlamentar avalia que, no âmbito estadua, o PT tem o desafio de promover um debate interno as forças políticas para garantir o fortalecimento da candidatura de Lula no estado para impedir uma vitória da "extrema direita bolsonarista repesentada pelo Wagner" 

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