Em ano eleitoral, saúde de Bolsonaro volta a virar arena de embates políticos

Segundo cientista político, apesar de desgastado, o presidente ainda vê margem eleitoral confortável que possa credilibilizar suas estratégias de popularidade. Opositores aproveitam internação para reforçar críticas ao chefe do Executivo

16:30 | Jan. 04, 2022

Por: Filipe Pereira
Michelle publicou foto de Bolsonaro caminhando em hospital  (foto: Reprodução/Twitter)

Neste domingo, 2, o presidente Jair Bolsonaro (PL) foi internado no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, com um quadro de obstrução intestinal. Após ser vítima do famoso atentado a faca, em 2018, ainda quando atuava como então candidato ao Planalto, o mandatário precisou ser hospitalizado sete vezes. As internações foram realizadas para tratar complicações que envolvem as áreas afetadas do ataque.

Novamente, aliados e filhos do presidente corroboraram com a narrativa de que, no episódio da facada, Adélio não agiu isoladamente. As suspeitas são levantadas mesmo com a constatação da Polícia Federal de que o acusado agiu sem cúmplices. O caso de "exploração política" do acontecido em 2018, então, ficou novamente no topo dos noticiários brasileiros.

Por parte da extrema-direita bolsonarista, a tentativa é de vitimizar o presidente, colocá-lo como mártir do sentimento de ódio da oposição e associar o problema ao atentando praticado pelo "ex-militante do Psol". "Graças a Deus meu pai passa bem! Cada vez que ele passa por isso é impossível não se indignar com a mentira de que Bolsonaro tem discurso de ódio, quando na verdade ele é a vítima do ódio de um ex-militante do Psol e de mal amados hipócritas desejando sua morte", lembrou, nesta segunda-feira, 3, o senador Flávio Bolsonaro. 

A cada internação, enquanto acompanham o presidente, integrantes da família Bolsonaro fazem questão de entrar nas redes sociais e seguem como uma espécie de boletim médico opinativo. Desta vez, ao lado do esposo, a primeira-dama Michelle Bolsonaro agradeceu as mensagens recebidas pela internação e reforçou que a internação é decorrente da facada que Bolsonaro sofreu em 2018 e que o episódio causou "sequelas" pelo resto da vida do mandatário. 

Em ação conjunta, aliados de primeira ordem de Bolsonaro cobraram na noite de segunda-feira, 3, horas após a hospitalização do ex-capitão, ações do Supremo Tribunal Federal (STF) contra quem usa as redes sociais para desejar a morte do presidente. O grupo de bolsonaristas classificaram postagens que celebram a internação do presidente e desejam que ele não se recupere  como uma "ameaça à vida" de Bolsonaro.

Postagens de apoio ao presidente e de politização da internação vêm de nomes já conhecidos, entre eles o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), o pastor e deputado Marco Feliciano, o ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, e a deputada Carla Zambelli (PSL-SP). Esta última tem classificado os ataques como "ódio do bem", menção às críticas feito ao presidente e apoiadores sobre eles disseminarem discursos de ódio. 

Ao expor suas fragilidades nas redes sociais, internado, Bolsonaro busca apoio e empatia da população. É o que defende o cientisa político Uribam Xavier. "Eu não vejo nenhuma mudança no comportamento, ele [Bolsonaro] sempre usou o dia a dia como simulacro e espetáculo. O Bolsonaro o tempo todo utiliza desse expediente. A questão é que é um expediente que está tão usado, então, até onde isso pode funcionar?", avalia. 

Segundo o pesquisador, embora desgastado, o presidente ainda se apoia numa competitividade válida nas pesquisas eleitorais que oferece margem de dois dígitos, atrás apenas do ex-presidente Lula. Seu embate em torno da terceira via se concretiza somente com a ameaça do ex-ministro Sérgio Moro. "O Bolsonaro aposta nisso, no apoio de pessoas que não importa o que ele faça, sempre vão o apoiar, com perfil conservador. Esse conjunto de gente tá fazendo ele estar nesse patamar dos 20%. Isso é muito confortável para ele", ressalta Uribam. 

Portanto, o cientista acredita que, apesar da população ter chegado ao limite do esgotamento com as ações e omissões do presidente, um número considerável de apoiadores ainda o apoiam em quaisquer circunstâncias, o que inclui as situações de fragilidade. Porém, ele destaca que o mesmo comportamento ressalta a revolta dos setores de oposição ou que se arrependeram do apoio ao bolsonarismo. 

Durante os últimas dias, as redes sociais se dividiram sobre o estado de saúde de Bolsonaro. Em suas publicações, diversos internautas ironizaram seu estado de saúde e trocaram mensagens e cobranças em relação à omissão de sua gestão sobre as enchentes que assolam o sul da Bahia. Setores da esquerda, por exemplo, minimizaram a real gravidade da hospitalização do presidente e até desejaram a morte dele. 

Nas redes sociais, internautas ironizaram que Bolsonaro "meteu um atestado” para não ir trabalhar no 1º dia útil de 2022. Opositores brincaram e criticaram o fato do chefe do Executivo ter aproveitado, até o momento, todas as suas férias saudável em Santa Catarina. “Que prazer que sinto ao saber que o filho da puta passa mal. Mata seu povo por omissão e leva castigo de volta: que exploda em merda”, debochou o ator José de Abreu. 

A fala rendeu, inclusive, um embate político entre Abreu e o vereador Carlos Bolsonaro. O parlamentar indagou, em tom de ironia, membros do STF e “checadores do Twitter” se o comentário de Abreu seria mais um exemplo do “ódio do bem”. “Só gostaria de ler a resposta para a questão! Nada farão?”.