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Política
NOTÍCIA

Huck e Amoedo desistem: quais são as chances da "terceira via" em 2022?

Cientistas políticos ouvidos por O POVO analisam as margens de crescimento de candidaturas alternativas à polarização entre Lula e Bolsonaro e as chances de cada uma em particular

Carlos Holanda
18:31 | 17/06/2021
Ciro, Mandetta e Doria tentam cativar o eleitorado antipático tanto ao presidente Lula como a Bolsonaro (Foto: O POVO/Agência Brasil/Agência Brasil)
Ciro, Mandetta e Doria tentam cativar o eleitorado antipático tanto ao presidente Lula como a Bolsonaro (Foto: O POVO/Agência Brasil/Agência Brasil)

O apresentador televisivo Luciano Huck e o presidente do Novo, João Amoedo, largaram a corrida presidencial muitos antes de seu início. Ambos compunham um espaço político que, na perspectiva eleitoral de 2022, se propõe como terceira via, ou seja, um caminho de voto alternativo a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Jair Messias Bolsonaro (sem partido).

Os que sobraram seguem no jogo de conversas, frequentando salas de reunião, jantares e videoconferências, dentro de um esforço de acomodar pretensões muitas vezes conflitantes. A última grande reunião aconteceu na casa do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, do DEM, na zona nobre de Brasília.

Enquanto ex-ministro da Saúde, o político tenta florescer na cena eleitoral basicamente como a antítese do negacionismo de Jair Bolsonaro (sem partido) no manejo da crise sanitária. É uma estratégia também adotada por João Dória (PSDB) a partir do Palácio dos Bandeirantes.

O governador de São Paulo ainda não conseguiu, porém, extrair dividendos políticos da CoronaVac, resultado da parceria do Instituto Butantan (do estado de São Paulo) com a chinesa Sinovac. Ele ainda vai enfrentar prévias contra o senador Tasso Jereissati (CE) e o governador Eduardo Leite (RS).

Pela centro-esquerda, Ciro Gomes (PDT) mira em Lula e em Bolsonaro, como que para seduzir os desencantados com cada lado. Vem do alto de três campanhas presidenciais cuja posição final sempre foi a mesma: terceira colocação.

Na cada de Mandetta estiveram ACM Neto, presidente do DEM. O antigo PFL se define sobre se vai ou não apresentar um candidato, e se será Mandetta. Presidente e representantes do PSDB, PV, Podemos e Cidadania estiveram presentes à ocasião. Carlos Lupi, presidente do PDT, foi convidado, assim como Luciano Bivar, dirigente do PSL. Ambos não foram.

Sociólogo e cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), Rodrigo Prando observa que Ciro (“há tempos firma sua candidatura”) e Dória (“busca transformar a vacinação no seu Plano Real”) são os nomes com maior potencial de furar a polarização estabelecida entre Bolsonaro e Lula. Mas ainda estão distantes disso, avalia o professor.

“Nem para Ciro e nem para Dória haverá facilidade, porque eles estão longe, por exemplo, de 20% de intenção de votos. A grande força neste momento (são dos dois primeiros nas pesquisas), e aí os partidos e os atores políticos acabam de maneira gravitacional chegando ao Lula ou ao Bolsonaro”, afirma Prando, segundo quem ambos têm “enorme rejeição”, mas “partem de patamares bastantes consolidados”.

Prando pondera que este é o cenário caso nenhum outsider apareça, o que pode alterar o quadro do momento. Ele diz não enxergar o ex-ministro Mandetta com fôlego político para se cacifar internamente. “Até porque o DEM, depois da expulsão do Rodrigo Maia, se parece mais com um partido auxiliar, nesse momento, das teses bolsonaristas". 

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Doutora em Ciência Política e pesquisadora pelos laboratórios SCNLab (Mackenzie) e Doxa (Iesp-Uerj), Carolina Botelho nota haver certa falta de direção na denominada terceira via. A pesquisadora ainda não viu efeitos nas críticas cada vez mais fortes que o postulante do PDT faz ao ex-presidente do PT.

No caso de Dória, Carolina reflete que ele não conseguiu converter a vacinação no seu trunfo eleitoral. Para ela, isso é resultado da eficácia da artilharia do movimento bolsonarista da qual ele é alvo e das próprias escolhas do político. Dória atrelou o nome ao do então candidato Bolsonaro em 2018, inclusive literalmente: “BolsoDória”.

Carolina também concorda com a tese de que o elemento “medo” surge como fator de dificuldades para candidaturas que estão fora da polarização. O temor de que um governo radical prossiga no poder, e o de que um de centro-esquerda retome-o, podem nortear o eleitor a escolher os mais fortes, ainda que não sejam os preferidos.

Diretor-executivo do Livres, o cientista político Magno Karl diz que existem três candidaturas na rua, impondo, por questão de tempo, dificuldades às demais que vierem: Bolsonaro, Lula e Ciro.

Para Karl, Ciro faz ataques ao PT movido por uma constatação que julga óbvia: “O aceno para o eleitorado antipetista, inclusive de Ciro Gomes, vem de uma percepção um pouco óbvia, mas que Ciro Gomes anteriormente se recusava a enxergar, a de que o eleitorado petista pertence ao PT". 

O observador analisa, por outro lado, que a centro-direita será resistente às investidas de Ciro Gomes. É um segmento da sociedade que simpatiza com a economia de mercado, mas olha atravessado para os impulsos antidemocráticos do presidente. “Seria possível por exemplo para a candidatura o PSDB pegar esse eleitorado, mas o PSDB está atrasado”, ele diz sobre a legenda que ainda vai abrir processo de definição no formato de prévias.

Magno ainda adiciona, por fim: "O que poderá definir a campanha é se esse eleitorado que rejeita Bolsonaro e que também é antipetista é volumoso o suficiente para colocar um candidato no segundo turno, para tirar Lula ou Bolsonaro desse hipotético segundo turno, porque hoje é a tendência que se desenha". 

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