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Quem é a única mulher indígena eleita no Ceará

O município de Aratuba elegeu a única mulher vereadora índígena do Estado. Elky Barroso (DEM) pertence à comunidade dos Kanindé de Aratuba. O outro único indígena eleito no Estado é Weibe Tapeba (PT), em Caucaia

14:36 | 04/12/2020
Elky Barroso foi uma entre os 45 indígenas candidatos este ano no Ceará e a única eleita (Foto: ARQUIVO PESSOAL)
Elky Barroso foi uma entre os 45 indígenas candidatos este ano no Ceará e a única eleita (Foto: ARQUIVO PESSOAL)

Aratuba fica a 158 km de Fortaleza e faz parte do Maciço de Baturité. O nome do Município possui origem na língua tupi e significa o "ajuntamento dos pássaros". As terras que rodeiam a cidade também abrigavam índios de origem tupi-guarani, como os Kanindé, por exemplo. E é dos Kanindé de Aratuba que descende a única mulher vereadora indígena eleita nas eleições municipais de 2020. Neste ano, 45 indígenas se candidataram para cargos no executivo municipal. Destas, 43 foram para o cargo de vereador. Elky Barroso (DEM) foi a única mulher eleita. Além dela, foi reeleito Weibe Tapeba (PT), em Caucaia.

Elky nasceu e se criou em Aratuba, na comunidade Fernandes, que também abriga a comunidade indígena dos Kanindé de Aratuba. Como outros tantos cearenses, aos 17 anos ela se mudou para Fortaleza, com objetivo de trabalhar e estudar. Ficou na Capital até 2014, quando retornou à comunidade.

"Na minha comunidade já havia uma moça, casada com um primo meu, que trabalhava com política e não pôde ser (candidata). Pela necessidade de ter um representante da comunidade, eu acabei indo pelo fato de ser da comunidade, conhecer o pessoal e ser uma mulher indígena. Minha campanha foi feita de casa em casa na localidade dos Fernandes e na sede, em Aratuba."

Elky é casada com Carlos Alberto Colares Menezes, que foi candidato à prefeitura do município pelo PSD. Ele ficou em segundo lugar e perdeu por 44 votos de diferença.

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Os Kanindé

No ano de 1993 foi realizada uma assembleia dos povos indígenas do Estado do Ceará com representantes dos povos Kanindé, Pitaguary e Tremembé. Foi o primeiro contato dos Kanindés de Aratuba com outras etnias. Foi nesse encontro que os Kanindé começaram a reafirmar sua identidade. No entanto, havia medo de se autodeclararem, segundo Elky. Medo de serem mortos, pois eram perseguidos por posseiros que viviam pelas extremidades dos seus locais de moradias. Hoje, os Kanindés são reconhecidos como etnia pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que está a delimitar o território desse povo em 1.793,01 hectares.

"Quando o movimento começou, eu tinha uma tia, a tia Teresa Barroso, que me levava pros torés, pras danças. A partir daí eu fui conhecendo e entendendo sobre minhas origens. Eu ainda me culpo hoje pois, devido aos anos de ausência que tive da comunidade, eu não estive presente em boa parte do movimento, pois estava em Fortaleza atrás dos meus objetivos."

Hostilidades na campanha

Na campanha, Elky acabou sendo vítima de calúnias disparadas pelo Whatsapp. "Já levei nome de rapariga, imbecil… Fizeram um documento com fotos minhas de passeios e fizeram um arquivo, criaram uma conta no Whatsapp e espalharam esse arquivo que dizia que eu era prostituta em Fortaleza. Quando entrei na política me falaram pra me preparar pra tudo, mas nunca pensei que chegaria a passar por isso." O documento em questão tinha fotos da vereadora na praia com uma frase em letras garrafais escrito "a garota de programa em Fortaleza quer ser vereadora em Aratuba." Sobre esse caso, foi feita denúncia ao Ministério Público Eleitoral (MPE).

Ela também passou por outras manifestações de preconceito. "Teve gente que disse: "Ah, de onde que são índios?'. Porque, para algumas pessoas, ser índio é estar no meio do mato e aqui no interior existem pessoas que não aceitam, que acham que a nossa luta é frescura… Infelizmente, ser índio é uma luta diária, principalmente para as lideranças que ainda lutam pelo próprio espaço da comunidade."