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Política
NOTÍCIA

"Se o presidente fosse o Haddad, eu não teria nenhuma chance de ser o indicado", diz Cândido

Na Casa José de Alencar, O POVO entrevistou Cândido Albuquerque, novo reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC)

20:13 | 28/08/2019
Cândido Albuquerque, novo reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Cândido Albuquerque, novo reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC)(Foto: Mauri Melo/Mauri Melo)

Há sete dias empossado como reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cândido Albuquerque não despacha da Reitoria, mas sim de dentro da biblioteca da Casa José de Alencar, no bairro Messejana. O terreno é uma das áreas da UFC. Lá, inclusive, dois seguranças guardam a entrada da porta. Ao O POVO, fonte ligada ao novo responsável direto pela instituição disse que, num dos dias ocupando o novo cargo, ele se dedicou às atribuições a partir do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), na avenida da Abolição, no bairro Meireles.

Segundo o mesmo informante, Albuquerque alega temer pela integridade física. Na Casa José de Alencar, O POVO solicitou entrevista a membro da equipe do professor. A reportagem entra na biblioteca cerca de 20 minutos depois.

O POVO - Hoje ocorrem consultas para as direções dos centros e faculdades da UFC. O senhor pretende nomear os primeiros colocados ou isso vai variar? Se sim, como?

Cândido Albuquerque - Não. Eu não parei para pensar sobre isso. Mas, lembre-se que desde que sou candidato a reitor eu critico esse processo. Nenhuma universidade do mundo adota eleição direta. Por que? Porque a eleição direta leva a disputas ideológicas que são prejudiciais à produção de tecnologia, prejudiciais à ciência, não é? Mas, não parei para pensar ainda, vou esperar o resultado para pensar. O que eu quero é que a comunidade identifique os melhores gestores, que o voto não seja ideológico, porque nós não estamos disputando, não é partido político, é uma universidade que precisa produzir ciência. Se você fizer uma análise de que nenhuma universidade adota o princípio da eleição direta e que no Brasil nós estamos transformando uma mera consulta em eleição e que isso tem provocado profundas divisões dentro da universidade, extremamente prejudiciais, se nós começarmos a pensar assim nós vamos repensar esse processo (eleitoral). Por que é que as universidades de ponta não fazem eleição (direta)? Porque ela sabe que vai gerar divisão, vai ter debate ideológico, como é hoje no Brasil. Hoje, no Brasil, temos claramente divisão ideológica nas disputas para reitor e isso não é bom para universidade. Então, nós temos que repensar nosso processo. Quem gosta da universidade, quem tem carinho, respeito, entende o papel da universidade, não defende a eleição direta, mas eu não estou dizendo que tomei posição com relação à lista que vai ser apresentada. Quero analisar e devemos fazer o que for melhor para a universidade.

O POVO - Quando o senhor concluir o método que adotará para a escolha dos diretores, ele se aplicará a todos os centros?

Cândido Albuquerque - Não sei, não parei pra pensar nisso.

OP - Hoje, o que lhe impede de despachar na Reitoria?

Cândido Albuquerque - Há um grupo de pessoas de fora da universidade, inclusive as manifestações foram convocadas por um vereador que não tem nenhuma relação com a universidade, não é aluno, não é servidor. O que eu vi lá foram bandeiras de Lula Livre, MST (Movimento dos Sem Terra), CUT (Central Única dos Trabalhadores). Acho que o debate não pode ser esse, temos que respeitar autonomia universitária. A universidade tem um processo através do qual fui indicado o reitor. O reitor assumiu, está conduzindo a universidade, a universidade está funcionando normalmente. Não é possível que 50, 60 pessoas, insatisfeitas, somando pessoas de fora da universidade, venham atrapalhar o processo. Então, o que eu quero é dialogar com essas pessoas, mostrar e buscar o melhor caminho para a universidade.

OP - Quer conversar inclusive com esses setores aos quais o senhor se referiu, intitulados progressistas?

Cândido Albuquerque - Com todos os setores! A universidade é plural. Se eu dissesse que não queria conversar com eles eu estaria sendo intolerante como eles estão sendo intolerantes comigo. Ao invés de vir conversar comigo, tentaram impedir que eu assumisse a reitoria: isso é intolerância. A universidade não tem espaço pra esse tipo de comportamento. Na universidade, temos que conviver com a esquerda, com o centro e com a direita.

OP - Pessoas críticas à escolha de Bolsonaro pelo seu nome estabelecem separação entre legalidade e legitimidade. Se por um lado a lista tríplice não implica a escolha do primeiro colocado e, portanto, sua indicação é legal, por outro, o senhor foi o menos votado, com 4,6% dos votos na consulta, o que caracterizaria a ilegitimidade. Como o senhor responde isso?

Cândido Albuquerque - Eu respondo que quando me candidatei eu já sabia que não ficaria no primeiro lugar da lista, mas minha proposta é de mudança. Quando você faz a pergunta como você está fazendo, você está esquecendo que o próprio processo tem dividido a universidade. Nossas universidades precisam evoluir, precisam, inclusive, repensar esse processo, porque tem dividido muito a universidade, tem criado profundas divisões. Eu acompanho a universidade há 32 anos. A cada processo de consulta você percebe o aprofundamento de divisões. Eram pesquisadores que trabalhavam junto que deixam de trabalhar, pesquisadores que trabalhavam junto que deixam de trabalhar, amigos que deixam de falar. Por isso que as grandes universidades não adotam esse processo. A maior legitimidade que alguém tem é o presidente da República, que ganhou, e é quem mantém a universidade, que poderia, em princípio, indicar. A legitimidade está na indicação do próprio presidente. Se você for falar de legitimidade, a legitimidade estaria aí. Por que esse pessoal de esquerda que você está falando ficou 14 anos no poder e não mudou a legislação? Porque eles sabiam que seria ainda mais prejudicial.

OP - Mas havia uma tradição de se nomear o primeiro.

Cândido Albuquerque - Uma tradição criada nos governos de esquerda.

OP - Quais são as melhores práticas que poderiam ser adotadas para escolha de novo reitor?

Cândido Albuquerque - As melhores práticas do mundo são a criação de comitês. Nem sei por que você está me perguntando isso. Isso é prática comum no mundo. Toda universidade tem um comitê. Por exemplo, tem alguns países na Europa que o comitê que indica o reitor é formado por 50% de pessoas de fora da comunidade acadêmica. Por que? Porque é a sociedade que banca a universidade. Aqui no nosso processo, no Consuni, só quatro representantes da sociedade. Isso está errado.

OP - Como é que o senhor pretende atenuar o aparente estresse na relação entre reitor e alunos, professores e demais servidores?

Cândido Albuquerque - Em primeiro lugar, eu acho que você está equivocado quanto a estresse, porque o número é muito pequeno. Hoje a insatisfação pode estar aí, talvez, em menos de 1%, enquanto que 90% aceita. Todas as pessoas que convidei para integrar a equipe aceitaram, o que mostra a legitimidade a partir daí. Então, não há esse estresse.

OP - Não há?

Cândido Albuquerque - Há um grupo pequeno, muito pequeno, de fora da universidade, o que é mais grave, que não está respeitando a autonomia da universidade. Veja bem, há um processo. Por que é que a esquerda, que esteve no poder por tanto tempo, não mudou o processo? Então, ela não tem autoridade para, agora, reclamar do processo. O processo é legal e a legitimidade está na indicação do presidente. A insatisfação que você fala não atinge 1% da universidade.

OP - Uma aluna membro do Comitê em Defesa da Autonomia na Universidade Federal do Ceará (UFC) afirmou que, se o senhor recuar da ideia de adesão ao Future-se, uma assembleia deliberará pelo diálogo ou não com o senhor.

Cândido Albuquerque - Lamento profundamente que os estudantes não tenham conseguido fazer uma eleição para o DCE (Diretório Central dos Estudantes). Hoje os estudantes estão sem uma representação institucional porque eles não conseguiram fazer uma eleição. Isso é profundamente lamentável, é preciso que a gente investigue o que está acontecendo para saber por que os nossos alunos estão sem legitimidade, isso sim, na sua representação. Segundo ponto é que a aluna ao fazer essa afirmação ela está equivocada, completamente equivocada. O programa Future-se é apenas uma ideia que está sendo formada. No momento, ninguém pode ser nem contra nem a favor do Future-se. Tem que trabalhar o Future-se, tentar projetá-lo. Eu já vi na ideia do Future-se ideias que são maravilhosas e que precisam ser trabalhadas, aperfeiçoadas, e outras com as quais eu não concordo. Mas, eu não posso ser contra uma ideia, a universidade não pode ter medo de uma ideia. Nós temos que melhorar o programa, tendo por base alguns princípios que precisam ser bem estudados. Por exemplo, a autonomia universitária tem que ser preservada, a liberdade de cátedra tem que ser preservada. São pontos que nós temos que discutir dentro do projeto. Já vi no projeto algumas coisas que vou estudar a constitucionalidade. As pessoas devem trabalhar para o aprimoramento e, aliás, é isso que o governo está pedindo. Está em consulta pública: vamos apresentar sugestões.

OP - Quais seriam pontos positivos e negativos do Future-se?

Cândido Albuquerque - Seria uma discussão muito longa. Não vou entrar nessa discussão agora.

OP - Uma avaliação do senhor sobre os primeiros passos que o governo Bolsonaro tem dado na área da educação.

Cândido Albuquerque - Essa questão está sendo tratada de maneira muito ideológica, está sendo um debate que, acho, não está na hora. Não vou me posicionar. Vou primeiro acomodar minha casa, ver como está a universidade, ver como é que o governo pode nos ajudar, o que é que nós queremos do governo. Agora, como gestor, tenho que ter uma visão de futuro sobre ela, e é isso que tenho que fazer.

OP - Alunos estão programando para sexta-feira sair em marcha do campus do Pici para a Reitoria. Como o senhor interpreta esse tipo de movimentação?

Cândido Albuquerque - Eu estou disposto ao diálogo, nós precisamos conversar, dialogar, essa é que é a questão. Quando você se opõe a algo sem a possibilidade do diálogo, isso é intolerância. Quem gosta da Universidade, quem quer o bem da Universidade, deve estar aberto ao diálogo. O que eles estão querendo fazer? Com relação ao Future-se, é um equívoco. Porque as pessoas estão sendo contra uma coisa que eles não conhecem. Então, estou procurando toda a comunidade para o diálogo.A universidade está funcionando normalmente, é bom que você saiba. O número que está participando é muito pequeno. A universidade não vai parar sexta-feira, até porque não há motivo.

OP - O senhor foi nomeado no último dia 19. Porém, sabia que seria antes disso? Quais foram os bastidores da sua nomeação?

Cândido Albuquerque - A minha nomeação se deu dentro do processo legal estabelecido há anos. Ele (Bolsonaro) simplesmente atendeu ao processo legal, e a legitimidade está aí. Porque tem uma legislação posta, há anos não se mexe na legislação. Quem participou do processo, sabia que a regra era essa: vai uma lista tríplice e o presidente pode indicar quem ele quiser. Ele tem indicado, já, eu não sou o primeiro. Qual é a dúvida? Agora, o presidente ganhou e não pode estabelecer, tem que fazer do jeito que a esquerda quer? Pera aí! Veja bem, se o presidente fosse o Haddad, eu não teria nenhuma chance de ser o indicado, eu nem concorreria. Eu estou num processo de mudança, quero que a Universidade mude, independente do governo que está lá. Eu tomei conhecimento da minha indicação por terceiros, um amigo me ligou pra saber.

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