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Opinião: Os indefensáveis negócios armamentistas com a Arábia Saudita

11:08 | 06/12/2018
Da Arábia Sauidita, armamentos alemães acabam nas mãos de jihadistas  tudo dentro da legalidadeA Alemanha suspendeu tardiamente as exportações de armas para Riad. No entanto firmas nacionais seguem lucrando com a matança no Iêmen. É hora de acabar com a hipocrisia, opina Matthias von Hein.Há três anos e oito meses, a mais rica nação da Península Árabe devasta a mais pobre da região. A intervenção da Arábia Saudita e da coalizão forjada por Riad na luta interna pelo poder no Iêmen não colocou o país nem um pouco mais perto de uma solução pacífica. Mas precipitou a maior catástrofe humanitária do mundo.

Caso sejam necessárias cifras: desde a entrada da coalizão saudita nessa guerra, em 2015, morreram 85 mil crianças de subnutrição, segundo dados da ONG Save the Children; quase 60 mil pessoas foram vítimas diretas das armas de fogo.

Paradoxalmente, foi necessário o atroz assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul, para que finalmente se tematizasse o sofrimento de milhões e as dezenas de milhares de mortes no Iêmen. E a participação do Ocidente, que, com bilionários fornecimentos de armas, mantém em funcionamento a máquina de guerra saudita.

Também a Alemanha participou disso – e lucrou – por longo tempo. Embora os políticos do país gostem de se gabar dos supostamente ultrarrigorosos controles de exportações de armamentos; embora supostamente não se venda para regiões de tensão; embora até mesmo do contrato de coalizão governamental exclua a venda de equipamento bélico a Estados diretamente envolvidos na guerra do Iêmen.

Foi só sob o efeito do assassinato de Khashoggi que Berlim se manifestou por uma suspensão – temporária – dos negócios armamentistas alemães com a Arábia Saudita. No entanto, já é objeto de apostas em que momento vai expirar a data de validade da vergonha, e as equipagens alemãs voltarão a aportar no reino dos xeiques do petróleo.

E empresas alemãs – como, por exemplo, a maior fabricante de armamentos do país, a Rheinmetall – seguem aproveitando as lacunas das leis sobre comércio externo e armas de guerra. Através de subsidiárias, elas continuam fornecendo armas e munição a Riad, ajudando, assim, a manter a guerra em movimento.

O escândalo não é apenas que, por exemplo, a Rheinmetall participe da matança no Iêmen, em nome dos lucros de seus acionistas, mas também o fato de, até o momento, não se perceber nenhum esforço para fechar as lacunas da legislação.

Parte da verdade é também que as exportações da Alemanha são muito mais importantes para a Arábia Saudita do que sugerem as cifras - moderadas, em comparação, com as dos Estados Unidos ou do Reino Unido. Pois grandes equipamentos como aviões de combate costumam ser fabricados em cooperação europeia.

E quando a Inglaterra abastece a Força Aérea saudita com dúzias de Eurofighters, estão incluídos nesse negócio cerca de 30% de exportações alemãs – por exemplo na forma de canhões de bordo. Tais vendas não necessitam de licença, e sequer aparecem no relatório de exportações de armamentos como transações com Riad.

É hora de se livrar de algumas mentiras bem intencionadas. As leis alemãs de exportação de armas são rigorosas, porém só são impostas e aplicadas quando parece politicamente oportuno. As declarações de destino final, com que os compradores se comprometem a não passar os equipamentos para terceiros, muitas vezes não valem o papel em que são impressas.

No fim de novembro mesmo, uma pesquisa da DW mostrou que, com tais declarações de destino, armas vendidas à Arábia Saudita ou lá fabricadas sob licença foram entregues por Riad a diversas milícias jihadistas no Iêmen. E quando se afirma que as exportações para os sauditas são justificadas para fortalecer uma estrategicamente importante "âncora de estabilidade na região", aí chegou mesmo a hora de duvidar.

A destruição do Iêmen, o bloqueio ao Catar em 2017, o sequestro do primeiro-ministro libanês Saad Hariri, as décadas de disseminação incessante do retrógrado wahabismo mostram: a Arábia Saudita pode ser incomensuravelmente rica e capaz de comprar grande influência, mas está longe de ser uma "âncora de estabilidade". E negócios armamentistas com esse "parceiro" são indefensáveis, e devem ser proibidos, consequentemente, em toda a União Europeia.

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Autor: Matthias von Hein

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