Qual o impacto da guerra entre Israel e Irã para o Brasil

Conflito entre Israel e Irã e ameaça de bloqueio no Estreito de Ormuz elevam preço do petróleo e geram temores de crise econômica global

00:03 | Jun. 24, 2025

Por: DW
Serviços de emergência e agentes de segurança israelenses buscam vítimas nos escombros de um prédio atingido por um míssil iraniano em no sul de Israel (foto: JOHN WESSELS / AFP)

Escalada entre Israel e Irã, possível fechamento do Estreito de Ormuz e envolvimento dos EUA aumentam risco de crise energética mundial. A intensificação do conflito entre Israel e Irã, com envolvimento direto dos Estados Unidos, reacende preocupações sobre uma crise energética global.

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A tensão na região pressiona os preços do petróleo e levanta temores de um efeito cascata sobre cadeias produtivas estratégicas, impactando diretamente economias como a brasileira.

O governo do Brasil condenou os ataques recentes e afirmou acompanhar “com forte preocupação” os desdobramentos da ofensiva israelense. Ainda em 2024, quando as tensões estavam em patamar inferior, o Ministério de Minas e Energia já havia alertado sobre os riscos de desabastecimento, caso o conflito se ampliasse.

Infraestrutura energética no alvo

Os recentes ataques israelenses ao território iraniano atingiram, além de instalações militares, infraestruturas críticas de energia, como o complexo South Pars — um dos maiores campos de gás natural do mundo — e refinarias de petróleo no sul do país.

Embora não haja confirmação de danos diretos à capacidade produtiva de combustíveis fósseis, o temor de agravamento já foi suficiente para impactar os mercados.

Desde a véspera dos primeiros ataques, os preços do barril de Brent subiram 19%, aproximando-se dos picos observados durante a invasão da Ucrânia pela Rússia. Nesta segunda-feira (23), o barril atingiu US$ 77,10 (cerca de R$ 419), reflexo da possível entrada formal dos EUA na ofensiva e da decisão do parlamento iraniano de fechar o Estreito de Ormuz.

Estreito estratégico em risco

Com apenas 33 quilômetros de largura, o Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e é rota de 20% da produção mundial de petróleo — cerca de 19 milhões de barris por dia.

Por ali passa ainda um terço do petróleo transportado por via marítima, originado em países como Irã, Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã, dos quais cinco estão entre os dez maiores produtores globais.

Além do petróleo, o estreito é rota essencial para a exportação de gás natural liquefeito, produtos químicos e fertilizantes.

O Irã, por exemplo, foi o oitavo maior fornecedor de ureia ao Brasil em 2025, com US$ 20 milhões em vendas. Apesar de ser produtor, o Brasil ainda depende de importações: em 2023, 22% do petróleo importado pelo país veio da Arábia Saudita.

Mesmo rotas alternativas, como o Mar Vermelho, são consideradas arriscadas. Segundo Bruno Cordeiro, analista da StoneX, a presença de rebeldes houthis apoiados pelo Irã torna essa via igualmente vulnerável.

Impacto em alimentos, fretes e exportações

O possível fechamento de Ormuz ainda depende do aval do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, mas sua mera possibilidade já alimenta especulações e pressiona os custos globais. A elevação dos preços do petróleo e do gás também aumenta os custos de frete e seguros, o que, em cadeia, pode elevar os preços dos alimentos.

Segundo o geógrafo e pesquisador da Unicamp Gustavo Glodes Blum, o Brasil não é fortemente dependente das economias de Israel ou Irã, mas está inserido em uma rede interdependente que pode ser abalada.

“Um conflito pode desencadear restrições à circulação de recursos financeiros e produtos”, explica. Ele lembra que, além do Irã, outros países do Golfo podem ser afetados, o que comprometeria exportações brasileiras de grãos, carnes e açúcar.

Em 2024, o Brasil exportou US$ 10,6 bilhões em produtos para Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

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Mercado financeiro reage

A instabilidade já gera reflexos no mercado. A Bolsa de Valores brasileira (Ibovespa) acumula quedas nos últimos cinco dias, refletindo a aversão ao risco.

Em entrevista ao UOL, o assessor internacional da Presidência, Celso Amorim, alertou para o risco de combinação entre conflito militar e guerra comercial: “Se somar ao cenário a guerra tarifária, acho que o mundo está correndo o risco de afundar como eu nunca vi.”

Análise do banco JPMorgan aponta que o aumento dos preços de energia pode reduzir a confiança dos investidores e provocar fuga para ativos mais seguros, como ouro e dólar — o que contribuiria para a desvalorização do real.

Alternativas e riscos para o Brasil

Apesar do cenário, analistas acreditam que o mercado atual tem mais mecanismos para reagir a choques do que no passado. A Opep+ possui capacidade ociosa, e os EUA demonstraram flexibilidade para ampliar sua produção. O próprio Brasil pode se beneficiar, a médio prazo, de uma eventual redução na oferta iraniana.

“Não no curto prazo, mas o Brasil poderia ampliar o escoamento de petróleo para países asiáticos que hoje dependem do Oriente Médio”, afirma Cordeiro, da StoneX.

No entanto, Karine Fragoso, gerente da Firjan, alerta para a fragilidade das reservas nacionais: “Hoje temos menos de 13 anos de reserva de petróleo, o que nos coloca em desvantagem frente a outras economias.”

(Texto de: Gustavo Queiroz - DW)