O perigo da corrida nuclear do Irã sob ataque 'existencial' israelense
Os ataques Israelenses sob o Irã podem, de certa forma, acelerar o programa iraniano e fazer o regime dos aiatolás perceber que as bombas atômicas são a única salvação para seu poder
O aumento recente dos bombardeios israelenses às instalações nucleares iranianas, como Natanz, Fordow e Isfahan, mudou radicalmente o panorama estratégico. Ao atingir centros fortificados, Israel elevou de modo explícito o risco de um “breakout” nuclear iraniano.
Sob pressão crescente, o Irã pode acelerar o enriquecimento de urânio acima dos 90%, passos necessários para a construção de uma arma nuclear como forma de sobrevivência geopolítica.
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Se considerarmos a lógica do regime iraniano, essa corrida nuclear — feita de forma emergencial — representa uma resposta quase natural a uma ameaça existencial percebida. Desde 2018, com a retirada dos EUA do acordo nuclear e sanções intensificadas, o Irã vinha calculando tempos e respostas.
Agora, ao ser bombardeado diretamente, Teerã enfrenta um dilema: ceder ou acelerar seu programa nuclear sem previsão para negociações moderadas.
Tal aceleração poderia ser um instrumento de dissuasão. O Irã poderia anunciar que entrou na “capacidade nuclear militar” como estratégia de pressão política e diplomática para desencorajar tanto Israel como seu principal aliado, os Estados Unidos.
Diferentemente de um ataque direto — que seria suicida —, o gesto de informar ao mundo que possui ogiva, mesmo sem utilizá-la, é classicamente uma arma no arsenal de dissuasão.
Conceder esse salto nuclear, porém, não é isento de riscos. Em primeiro lugar, a resposta israelense seria imediata: segundo estimativas militares, qualquer sinal concreto de bomba levaria a um ataque massivo — convencional ou nuclear tático. Já em segundo lugar, o isolamento internacional, mesmo aliados, Rússia e China, ficariam reticentes em apoiar o Irã.
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Além disso, esse movimento nacionalista gera tensão interna. A pressão das sanções, a crise econômica e o descontentamento popular tornam cada ação governamental delicada. A decisão de acelerar o programa nuclear exigiria um consenso político raro, unindo forças conservadoras e pragmáticas no regime.
Paradoxalmente, quanto mais o Irã tenta se proteger construindo uma dissuasão, mais incentiva Israel a planejar uma ação preventiva nuclear. A chamada “não-aceitação nuclear iraniana” é, para eles, uma linha vermelha — e Israel já demonstrou estar disposto a cruzá-la, mesmo ciente do risco de retaliação.
Esse impasse leva a um jogo de ameaças mútuas: o Irã busca mostrar que pode explodir, e Israel reúne meios para impedir que isso se consolide. O que antes era um programa oculto, agora ganha transparência estratégica, entrando diretamente na dinâmica de poder regional.
Entretanto, o Irã considera essa decisão com cuidado. Ainda que agora pressuponha o risco existencial, ativar o arsenal nuclear "pré-show" pode ser a forma mais racional de evitar sua destruição. É um conceito "terror estratégico": ameaçar o nível máximo sem alcançar o ponto de não-retorno.
Resta saber até onde o diálogo internacional (UE, EUA, ONU) conseguirá reverter essa lógica. Sanções novas, convites a prorrogar inspeções, diplomacia de emergência podem atrasar esse processo, mas até quando funcionará sob bombardeio?
A escalada militar diretada em junho de 2025 mostrou que a era das sabotagens (como Stuxnet) já não é suficiente. Israel foi além: decidiu atingir alvos profundos. O Irã, por sua vez, está diante de uma encruzilhada geopolítica — essa não é apenas uma escolha militar, é existencial.
No entanto, a estratégia de dissuasão nuclear tem efeito limitado. Não impede sanções, ofensivas indiretas (terrorismo, milícias aliadas) ou ataques convencionais. Resolvem o risco nuclear, não a guerra por procuração que segue acuando o regime.
A concretização de um Irã com capacidade nuclear abriria caminho para uma perigosa corrida armamentista no Oriente Médio. Países como Arábia Saudita, Turquia e Egito já demonstraram em momentos anteriores interesse em desenvolver seus próprios programas nucleares caso o Irã obtivesse a bomba, o que elevaria exponencialmente o risco de um confronto nuclear na região.
A Arábia Saudita, principal rival regional do Irã e aliada próxima dos Estados Unidos, já firmou acordos de cooperação nuclear com países ocidentais e sinalizou que não aceitará uma mudança no equilíbrio estratégico. Autoridades sauditas indicaram que, caso o Irã se torne uma potência nuclear, o reino buscará imediatamente acesso à mesma capacidade como forma de dissuasão.
Além disso, a oficialização de um Irã nuclear poderia levar Israel, que historicamente adota uma política de ambiguidade sobre seu arsenal atômico, a declarar publicamente sua condição de potência nuclear. Essa mudança seria uma forma de reforçar sua postura dissuasória e justificar, em fóruns internacionais, eventuais ações unilaterais para impedir a proliferação nuclear entre seus vizinhos.
A geopolítica em fluxo – Israel, Irã, Turquia e Arábia Saudita
A geopolítica do Oriente Médio em 2025 gira essencialmente em torno de quatro atores centrais: Israel, Irã, Turquia e Arábia Saudita – unidades de poder que representam e instigam diferentes eixos regionais e rivalidades religiosas e políticas.
Israel mantém uma postura de dissuasão velada e alianças estratégicas com EUA, Reino Unido e França. A recente ofensiva direta no Irã mostra seu compromisso em impedir qualquer avanço atômico. Suas capacidades tecnológicas e militares são usadas preventivamente, sem hesitar em ultrapassar fronteiras tradicionais da guerra.
O Irã, por outro lado, se posiciona como centro do “eixo da resistência”. Financia Hezbollah no Líbano, Hamas na Faixa de Gaza e milícias xiitas na Síria, Iraque e Iêmen. Essa influência vem sendo usada para projetar poder contra Israel e Arábia Saudita — embora tudo isso hoje corra risco, dado o cerco militar e diplomático.
A Turquia, sob Recep Tayyip Erdogan, tenta equilibrar interesses. Membro da Otan, mantém relações pragmáticas com EUA e Europa, mas, ao mesmo tempo, busca renegociar seu poder, atuando como mediador – porém ambíguo – entre Irã e Arábia Saudita, além de apoiar grupos sunitas na Síria.
Já a Arábia Saudita vive um processo de reconciliação com o Irã: depois de anos de confrontos regionais, passou a dialogar com Teerã e compartilha objetivos econômicos (Opep) e de segurança. Mas a rivalidade persiste, baseada em antagonismos religiosos (sunita vs xiita) e disputas por influência regional.
A queda do regime de Bashar al-Assad na Síria transforma drasticamente esse arranjo: sem um colaborador comum ao Irã (Assad), o eixo de resistência pode ruir. O Irã se torna militarmente vulnerável e politicamente isolado sem seus proxies sírios.
Nesse contexto, a Arábia Saudita pode reavaliar a conexão com Teerã. O pragmatismo econômico (petróleo, comércio) pode frear a rivalidade — mas apenas se o Irã mantiver sob controle o programa nuclear e não reabra hostilidades ativas na região.
A Turquia, de sua vez, pode assumir o lugar da Síria como mediador principal. Elevando seu poder diplomático entre sauditas e iranianos, se tornaria peça chave em acordos energéticos, comerciais e de segurança, deslocando um eixo tradicional de influência internacional.
Se o Irã avançar nuclearmente, porém, a Arábia Saudita será pressionada a retomar todas as alianças anti-iranianas — inclusive com Israel. Essa reviravolta trará fraturas internas na monarquia saudita, entre reformistas pragmáticos e conservadores alinhados ao golfo Sunni.
Por fim, o risco reside na fragilidade do Irã. Isolado, acuado e com economia falida, o regime pode optar por desespero nuclear. Mas isso pode custar sua existência. O ciclo de desconfiança entre Teerã e Riad, e entre Teerã e Tel Aviv, coloca toda região à beira de um colapso estratégico.