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Ucrânia adia evacuação do porto de Mariupol e acusa Rússia de violar cessar-fogo

Russos anunciaram prazo para evacuação segura de civis, mas ucranianos dizem que país vizinho tem descumpido o acordo
09:53 | Mar. 05, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

As autoridades ucranianas adiaram a retirada planejada para este sábado, 5, dos habitantes do porto estratégico de Mariupol, cercado pelas forças russas, que acusaram de violar um cessar-fogo temporário que deve permitir que os civis escapem de uma das principais zonas de combate do conflito.

O prefeito de Mariupol, Vadim Boichenko, afirmou que a cidade, que em um período normal tem 450.000 habitantes, está submetida a um "bloqueio", sem energia elétrica, alimentos, água, gás e transportes. As forças separatistas pró-Rússia e o exército de Moscou anunciaram que a localidade está cercada.

Depois que o ministério russo da Defesa declarou um cessar-fogo para a "abertura de corredores humanitários", a prefeitura do porto estratégico do Mar de Azov anunciou que a evacuação começaria antes do meio-dia (horário local, 6 horas de Fortaleza).

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Mas a retirada dos civis "foi adiada por razões de segurança" porque as forças russas "continuam bombardeando Mariupol e seus arredores", afirmou poucas horas depois a prefeitura no Telegram. 

O município pediu aos civis que estavam reunidos nos pontos de saída da cidade que "retornem para os refúgios". "Negociações estão em curso com a Rússia para estabelecer um (cessar-fogo) e garantir a instalação de um corredor humanitário", acrescentou.

O controle de Mariupol tem caráter estratégico para a Rússia, porque permitiria garantir uma continuidade territorial entre suas forças procedentes da península de Crimeia e as unidades dos territórios separatistas pró-Moscou da região ucraniana de Donbass, ao leste.

Correspondentes da AFP que visitaram a cidade neste sábado viram cenas de destruição, apesar da insistência do presidente russo Vladimir Putin de que suas forças não atacam áreas residenciais.

Um funcionário da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) que está refugiado em Mariupol com sua família afirmou que eles coletaram "neve e água da chuva" para utilizar diante da impossibilidade de conseguir água devido às longas filas nos locais de distribuição.

"Queríamos conseguir também o pão "social" (distribuído pelas autoridades locais), mas o horário e os pontos de distribuição não estavam claros. Segundo a população, muitos armazéns foram destruídos pelos mísseis e o que sobrou foi levado pelas pessoas mais necessitadas", disse.

Cerco a Kiev 

As tropas russas se aproximam ao mesmo tempo da capital Kiev, onde encontram uma intensa resistência, e bombardeiam bairros dos subúrbios ao oeste da capital ucraniana. A cidade de Chernihiv, ao norte, também é alvo de bombardeios constantes, que deixaram muitas vítimas civis nos últimos dias.

O ministro ucraniano da Defesa, Oleksiy Reznikov, afirmou neste sábado que a Rússia mudou de tática ao observar a grande dura resistência que fretou seu aparente plano de conquistar rapidamente as grandes cidades e derrubar o governo do presidente Volodymyr Zelensky.

"Sim, o inimigo avançou em algumas direções, mas controla apenas uma pequena área. Nossos defensores estão impedindo e expulsando os ocupantes", afirmou no Facebook.

"Aviação de todo tipo bombardeia cidades e infraestruturas civis", acrescentou, antes de acusar o exército russo de "covardia" e de ter capacidade apenas de atacar "crianças, mulheres, civis desarmados".

Desde que o presidente Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, a Rússia bombardeou várias cidades da Ucrânia e matou centenas de civis. Também atacou a maior central nuclear da Europa, provocando um incêndio que gerou o temor de uma nova catástrofe nuclear como a de Chernobyl em 1986.

As tropas russas conquistaram o controle de duas cidades importantes em 10 dias de invasão: Berdiansk e Kherson, na costa do Mar Negro, sul da Ucrânia.

Uma terceira rodada de negociações está prevista para o fim de semana, segundo as duas partes. A primeira não apresentou resultados concretos e a segunda estabeleceu a criação de corredores humanitários para que os civis possam sair das zonas de combates. A ONU afirmou que mais de 1,2 milhão de refugiados já fugiram da Ucrânia.

Efeito da guerra na economia 

A guerra mantém o mundo em suspense e afeta as Bolsas de valores, assim como os preços das commodities e da energia. Estados Unidos, União Europeia e países aliados aplicaram duras sanções econômicas contra a Rússia.

Muitas empresas anunciaram a saída do mercado russo. Neste sábado foi a vez da líder mundial do setor têxtil, o grupo espanhol Inditex, proprietário da marca Zara, que suspendeu "temporariamente" as atividades nas 502 lojas que possui na Rússia.

Um dos grandes temores é que o conflito atinja um nível nuclear. O presidente Zelensky afirmou que o ataque na madrugada de quinta-feira para sexta-feira contra a central de Zaporizhzhia "poderia acabar com a História. A história da Ucrânia. A história da Europa".

"Os comandantes dos tanques russos sabiam contra o que estavam disparando", disse Zelensky, que discursará neste sábado para o Senado dos Estados Unidos por Zoom a pedido de Kiev, informou uma fonte do Legislativo de Washington.

Alguns congressistas americanos pediram ao presidente Joe Biden que adote uma postura mais severa contra a Rússia, incluindo a suspensão das importações de petróleo.

Washington e Moscou estabeleceram uma linha direta entre suas Forças Armadas para reduzir o risco de um "mal-entendido".

Ao mesmo tempo, a Otan descartou a aplicação de uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia pelo temor de provocar outro conflito com a Rússia.

Zelensky criticou duramente a decisão e afirmou que, assim, a Aliança Atlântica "deu luz verde a mais bombardeios das cidades ucranianas".

Efeito do isolamento na Rússia

Putin, no entanto, não parece afetado pelo isolamento econômico, esportivo e cultural da Rússia. Segundo o Kremlin, o presidente russo disse ao aliado bielorrusso Aleksander Lukashenko que "as tarefas fixadas para as operações (na Ucrânia) prosseguem de acordo com os planos e serão cumpridas em sua totalidade".

A nível doméstico, as autoridades russas reforçaram as restrições à liberdade de imprensa e ao acesso a informações independentes.

BBC, Bloomberg e os canais públicos alemães ARD e ZDF anunciaram a suspensão de sua presença na Rússia depois que Moscou aprovou uma lei que impõe multas e penas de até 15 anos de prisão para quem publicar "notícias falsas" sobre o exército.

A CNN afirmou que suspenderia as transmissões na Rússia, enquanto o jornal independente russo Novaya Gazeta anunciou que removeria o conteúdo sobre a Ucrânia após a aprovação da nova lei.

Vários sites de notícias estavam parcialmente inacessíveis na Rússia, enquanto o Twitter era alvo de restrições e o Facebook estava bloqueado.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, defendeu neste sábado a a "força" necessária da lei, argumentando que a Rússia enfrenta uma "guerra de informação".

O isolamento da Rússia aumentará em 8 de março. A companhia Aeroflot anunciou neste sábado que a partir desta data não terá mais voos internacionais.

Crimes de guerra serão investigados 

Os procuradores do Tribunal Penal Internacional (TPI) investigam possíveis crimes de guerra cometidos no bombardeio da cidade ucraniana de Kharkiv.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma investigação de alto nível das violações cometidas na invasão.

"A mensagem a Putin é clara: está isolado a nível mundial, o mundo inteiro está contra você", afirmou a embaixadora ucraniana no Conselho, Yevhenia Filipenko.

O Conselho de Segurança da ONU terá uma reunião de emergência na segunda-feira sobre a crise humanitária na Ucrânia, informaram fontes diplomáticas.

 

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