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NOTÍCIA

Veja como foi a cobertura do O POVO em 1945 sobre a bomba atômica em Hiroshima

Nesta semana em que completam-se 75 anos desde o ataque nuclear perpetrado pelos Estados Unidos contra o Império japonês, O POVO resgatou em seus arquivos parte dos arquivos de cobertura

Leonardo Igor
14:18 | 07/08/2020
(ARQUIVOS) Esta foto de arquivo tirada em novembro de 1945 pelo Exército dos EUA e divulgada pelo Museu Memorial da Paz de Hiroshima mostra o Dome da bomba atômica, três meses após a bomba atômica ter sido lançada pelo bombardeiro B-29 Enola Gay sobre a cidade de Hiroshima . - O Japão, em 6 de agosto de 2020, marcará 75 anos desde o primeiro ataque a bomba atômica do mundo, com a pandemia de coronavírus COVID-19 forçando uma redução das cerimônias anuais para comemorar as vítimas.  (Foto: MUSEU MEMORIAL DA PAZ HIROSHIMA)
(ARQUIVOS) Esta foto de arquivo tirada em novembro de 1945 pelo Exército dos EUA e divulgada pelo Museu Memorial da Paz de Hiroshima mostra o Dome da bomba atômica, três meses após a bomba atômica ter sido lançada pelo bombardeiro B-29 Enola Gay sobre a cidade de Hiroshima . - O Japão, em 6 de agosto de 2020, marcará 75 anos desde o primeiro ataque a bomba atômica do mundo, com a pandemia de coronavírus COVID-19 forçando uma redução das cerimônias anuais para comemorar as vítimas. (Foto: MUSEU MEMORIAL DA PAZ HIROSHIMA)

No dia 8 de agosto de 1945, a edição número 5.618 do O POVO trouxe, entre os destaques da capa, a seguinte frase: “É difícil acreditar-se no que acabamos de ver”. Como subtítulo, constava: “Como os lançadores da bomba atômica descrevem os terríveis efeitos desse diabólico engenho”. Desta forma os cearenses, e os brasileiros em geral, foram introduzidos, quase 48 horas depois, ao que, desde às 8h15min do dia 6 de agosto, estava cravado na História da humanidade - a detonação da primeira bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, naquele que seria o último mês da Segunda Guerra Mundial.

Nesta semana em que completam-se 75 anos desde o ataque nuclear perpetrado pelos Estados Unidos contra o Império japonês, O POVO resgatou em seus arquivos parte da cobertura daquela que foi a guerra mais mortífera produzida pela homem. O conflito teve início em 1937 e se estendeu até 1945, com a rendição do Japão. Em 1942, a ditadura do Estado Novo comandada por Getúlio Vargas declarou apoio aos Aliados e guerra ao Eixo, levando as Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB) a integrar, com as Forças Armadas norte-americanas, a luta contra o nazifascismo na Itália.

Os jornais brasileiros atuavam então sob a censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Vargas e mesmo as redações com correspondentes internacionais estavam sujeitas não só à intervenção varguista quanto às diretrizes de informação das Forças Aliadas, que até produziram um manual, intitulado Regulamentos para Correspondentes acompanhando o Exército dos Estados Unidos em Campo, sobre como a imprensa deveria se portar e o que poderia ser noticiado.

Separamos, a seguir, três momentos da cobertura do O POVO relacionados à bomba atômica. Confira:


07/08/1945

CONFIANTES NO FIM DA GUERRA

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A edição número 5.617 do O POVO trouxe como matéria principal o anúncio de criação da bomba atômica, sob o título “Confiantes no fim da guerra”. “Os jornais de Londres demonstram esperança em que o conflito com o Japão termine sem que seja necessário o uso da aniquiladora bomba atômica”, destaca o jornal no subtítulo. Contudo, logo abaixo, muda o tom: “A bomba atômica é o maior e mais devastador invento do século - Duas delas poderiam destruir Londres; vai ser empregada contra o Japão.

A história mostraria que, àquela altura, enquanto os jornais do mundo todo noticiavam a criação da bomba, esta, na verdade, já havia sido detonada sobre Hiroshima. Segundo o Atomic Heritage Foundation, entidade responsável por manter a memória do Projeto Manhattan (grupo que criou a bomba), ainda no dia 5 de agosto a equipe do piloto Paul Tibbets fora informada de que iria lançar o invento nuclear tão logo as condições climáticas permitissem.

Mas estes são dados de nosso tempo. Em 1945, a reportagem, com base nas informações da agência de notícias Reuters, destaca como a nova arma poderia, no futuro, alterar toda a ordem militar e política do mundo. “O mundo será dominado pelos países que puderem usar e fabricar a bomba atômica”, pressagia uma passagem da reportagem. “As fronteiras estratégicas desaparecem com a nova descoberta da bomba atômica”, disse um militar, em condição de anonimato, à Reuters.

A segunda reportagem, que afirmava ser a bomba o maior invento do século, trazia algumas informações sobre a bomba então dispensadas à imprensa. Já sabiam, por exemplo, do uso de urânio, embora não citem a fissão nuclear. Também apontam a colaboração de cientistas britânicos e canadenses na feitura da arma. O primeiro parágrafo destaca:

Os jornais locais, em sua edição de hoje, dão grande destaque a recente descoberta da bomba atômica, dizendo ser ela a maior descoberta do século; que “o mundo mudou da noite para o dia”; que “a bomba atômica será de incalculável valor na luta contra o Japão”; que os dias dessa nação estão contados; e que a vitória dos Aliados no Oriente está mais perto do que se supõe.

E, no penúltimo parágrafo, aponta: “Ficou claro que esta descoberta de guerra irá ser aplicada pela primeira vez contra o Japão dentro de pouco tempo”. Com feito, àquela altura, a bomba já havia devastado Hiroshima.

 

08/08/1945

É DIFÍCIL ACREDITAR-SE NO QUE ACABAMOS DE VER

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No dia seguinte, na edição de número 5.618, O POVO traz a notícia da denotação da bomba atômica e destaca como título a fala do piloto Paul Tibbets, que conduziu o avião Enola Gay com a arma nuclear: “É difícil acreditar-se no que acabamos de ver”. Ao longo do texto, Tibbets narrou os acontecimentos na cabine após o lançamento da primeira bomba atômica:

Lançamos a bomba exatamente às 8h15, hora do Japão, e nos retiramos imediatamente da área que fica sobre o objetivo visado, a fim de evitar os efeitos tenebrosos da explosão. Olhando atentamente para baixo, pudemos divisar perfeitamente uma espessa coluna de fumo que se levantava em forma de espiral gigantesca, a qual encobriu Hiroshima. Quando pressentimos a explosão, a base inimiga estava tal qual uma chispa ardente. Demos um ligeiro giro e sobrevoamos novamente o objetivo.

O avião Enola Gay cumpriu sua missão na companhia de outras duas aeronaves, presentes como equipe de observação. O general Curtis C. Lemay, em entrevista à Reuters, fala das primeiras fotografias retiradas do ataque, vindas justamente daqueles aviões. O militar apontou que horas depois as equipes voltaram a Hiroshima em missão de reconhecimento e fotografaram novamente a coluna de fumaça, que persistia. Na ocasião, O POVO referia-se a estes bombardeiros, os aviões B-29, como super-fortaleza-voadora. Um dos presentes nestas fortalezas, o capitão William Parsons, contou:

Quando a bomba atingiu o alvo e se produziu o deslocamento do ar, os aviadores a borda da super-fortaleza estavam fortemente agarrados às paredes da mesma e invocavam o nome do Altíssimo. Passado o primeiro momento, isto é, o momento que reputávamos como sendo o mais perigoso, nos refizemos um pouco da emoção e olhamos para baixo. Divisamos então aquilo que minutos antes havia sido Hiroshima: uma montanha colossal de fumaça e destroços intermináveis, assemelhando-se a um ajuntamento de cogumelos. A milhares de pé sobre o chão, pairava uma nuvem de poeira incandescente, tal qual um redemoinho, que se estendia por sobre toda a cidade. Ficamos a observar esse redemoinho durante muitos minutos, e quando o mesmo se desfez um pouco, pudemos observar que lá embaixo ardiam incêndios e mais incêndios.

No fim da reportagem, um intertítulo destaca a destruição geral da cidade japonesa, mas traz algumas informações desencontradas. Àquela altura, apenas os japoneses tinham acesso à cena do horror nuclear. Os norte-americanos viam o que podiam de seus aviões. A reportagem da Reuters, republicada no O POVO, direto de Nova York, diz: “A bomba atômica matou literalmente todos os seres humanos vivos ou irracionais em Hiroshima. Os mortos e feridos ficaram tão queimados que foi impossível a identificação e as autoridades não podem fornecer o número exato de baixas havido entre os civis. A cidade ficou reduzida a uma desastrosa ruína”.

Entre a explosão e as horas seguintes, a bomba matou 100 mil dos 245 mil habitantes de Hiroshima. Este número, no entanto, só foi possível nos anos seguintes.

 

05/09/1945

A BOMBA FAZ CAIR O CABELO...

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No mês seguinte ao lançamento da bomba atômica em Hiroshima, a esta altura também detonada sobre Nagasaki e encerrada a Segunda Guerra Mundial, O POVO traz na edição número 5.640 um destaque de capa sobre um dos efeitos da bomba atômica sobre os hibakusha - palavra japonesa que significa “pessoa afetada pela bomba”. O título era “A bomba atômica faz cair o cabelo…” e descreve: Os sobreviventes de Hiroshima odeiam os homens brancos, a partir do momento que foi lançada sobre sua cidade a terrível bomba atômica, segundo diz um cabograma de Peter Burehett, correspondente especial do ‘Daily Express’, naquela cidade.

O correspondente apontava que, naquele momento, 53 mil pessoas eram dadas como desaparecidas. E aponta: Um sem número de habitantes de Hiroshima, recolhidos ao hospital, morreram em virtude dos efeitos da bomba sem causa aparente - após uma fase de depauperamento do organismo e perda de apetite, bem como queda de cabelo.

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